O brasileiro sempre foi bom em criar expressões populares que carregam, ao mesmo tempo, humor, crítica social e uma boa dose de imaginação coletiva.
Entre as mais conhecidas, “O Conto do Vigário” é talvez a que melhor sintetiza a sensação de ser enganado, um sentimento que atravessa séculos e continua atual.
Tanto que, em 2020, a Escola de Samba São Clemente transformou o tema em enredo, usando ironia e sátira para refletir sobre o país das falcatruas, das promessas duvidosas e dos “jeitinhos” que insistem em sobreviver.
O Carnaval de 2020: Quando o Enredo Virou Espelho do Brasil
O samba-enredo composto pelo humorista Marcelo Adnet para a G.R.E.S. São Clemente, colocou luz sobre a origem do famoso termo e suas implicações históricas e sociais.
Na Sapucaí, o próprio Adnet encarnou o então presidente Jair Bolsonaro, reforçando a crítica bem-humorada do samba-enredo criado por ele:
“O sino toca na capela / Nossa Senhora, começou a confusão / quem vai ficar com a imagem de Maria? / o burro vai tomar a decisão / mas o jogo estava armado / era o Conto do Vigário”.
A escola brilhou ao transformar uma expressão antiga em comentário social contemporâneo. Mas afinal, de onde teria surgido esse tal “conto”?
A Narrativa Popular: Um Burro, Dois Vigários e Uma Santa

Segundo a versão mais difundida — tida por muitos como verdadeira — a história teria acontecido no século XVIII, em Ouro Preto. Duas paróquias, a de Pilar e a da Conceição, disputavam a posse da mesma imagem de Nossa Senhora.
Sem acordo, um dos vigários propôs uma solução inusitada: amarrar a santa ao lombo de um burro e soltá-lo entre as duas igrejas. A que ele escolhesse seria a guardiã da imagem.
Acontece que o burro era justamente do vigário de Pilar. Naturalmente, o animal tomou o caminho de casa. Resultado? O vigário “vigarista” ficou com a santa — e o suposto episódio teria dado origem à expressão “Conto do Vigário”, sinônimo de golpe, trapaça e manipulação.
A Contestação Acadêmica: Mito, Lorota ou Verdade Histórica?
Apesar de muito repetida, essa história não encontra comprovação documental. Quem afirma isso é Jean Lauand, Professor Titular Sênior da Faculdade de Educação da USP e pesquisador de linguagens e narrativas populares.
Para ele, não existe registro histórico que sustente o conflito entre as paróquias ou o famoso burro decisor.
Segundo Lauand, essa é mais uma das inúmeras “lorotas” que o imaginário brasileiro adora criar e transformar em verdade incontestável por repetição. Um mito tão bem contado que acabou ganhando vida própria e, mais recentemente, a passarela, música e crítica social.
A Versão do Filólogo
Já o filólogo Antenor Nascentes descreve o golpe do “conto-do-vigário” (assim mesmo — palavra composta) em seu livro “Tesouro da Fraseologia Brasileira”:
“Modalidade de furto na qual o ladrão conta à futura vítima (o otário) uma história complicada de grande quantidade de dinheiro (originalmente entregue pelo vigário de sua freguesia), ali presente dentro de um embrulho (o paco), dinheiro este que ele deseja confiar provisoriamente, por comodidade ou necessidade, a uma pessoa honesta em troca de algum dinheiro miúdo de que precisa no momento.”
Segundo Antenor, o vigário entra na história apenas como personagem, ajudando a dar ares respeitáveis à lorota do trapaceiro.
O termo passou a nomear, além deste, diversos outros tipos de “logro” em que o criminoso explora a ingenuidade ou a ganância das vítimas para lhes arrancar dinheiro.
Entre Fato e Lorota: O Que o Conto do Vigário Revela Sobre Nós
Seja lorota ou fato, o “Conto do Vigário” ou “conto-do-vigário” diz muito sobre o Brasil. É uma expressão que expõe nossa relação com a desconfiança, com as promessas não cumpridas.
Serve como lembrete — histórico, cultural e até humorístico — de que nem tudo o que parece justo realmente é.
E, no fim das contas, talvez seu maior valor esteja justamente aí: na capacidade de, ao revelar uma mentira, nos fazer buscar a verdade.
Fontes: www.pt.wikipedia.org / www.brasilescola.uol.com.br / www.veja.com.br
Crédito das imagens: (1) www.freepik.com / (2) www.facebook.com/memóriasdeumbrasilantigo
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