Há poemas que não apenas se leem — eles nos atravessam. Tocam zonas silenciosas da alma, onde palavra e sentimento se confundem.
O espaço POEME-SE! do Almanaque do Estudante nasceu justamente desse encontro: o instante em que o leitor se reconhece no verso e percebe que a poesia também é um espelho. Aqui, a palavra não é ornamento; é caminho, abrigo e revelação.
Neste domingo, o POEME-SE! recebe um poeta que soube como poucos transformar inquietação em arte, dúvida em linguagem e identidade em poesia. O poeta visitado de hoje é o maranhense Ferreira Gullar, uma das vozes mais potentes, lúcidas e humanas da literatura brasileira.
Ferreira Gullar construiu uma obra marcada pela intensidade.
Sua poesia não foge do mundo: ela o encara. Política, memória, amor, exílio, morte e identidade atravessam seus versos com uma força que não se impõe pelo excesso, mas pela verdade. Gullar escreveu com o corpo inteiro — e talvez por isso seus poemas permaneçam tão vivos.
Seu estilo transita entre o rigor formal e a liberdade experimental, passando pelo concretismo, pelo neoconcretismo e por uma poesia profundamente existencial. Em Gullar, o verso nunca é gratuito: ele nasce da necessidade de dizer, de compreender a si mesmo e ao tempo em que se vive.
O poema “Traduzir-se”, que escolhemos para lhes apresentar, é um dos textos mais emblemáticos de Ferreira Gullar. Nele, o poeta reflete sobre a complexidade do ser humano — feito de opostos, contradições e camadas. Traduzir-se, no poema, não é explicar-se ao outro, mas tentar decifrar a si mesmo, tarefa sempre incompleta e profundamente humana.
Com linguagem simples e ao mesmo tempo filosófica, o poema convida o leitor a reconhecer que somos feitos de partes visíveis e invisíveis, de gestos públicos e silêncios íntimos.
Ao final, Gullar nos deixa uma pergunta aberta — e talvez seja essa a maior força do poema: lembrar que viver também é aceitar que nunca nos traduzimos por inteiro.
Convidamos você, leitor, a desacelerar o passo, respirar fundo e permitir que este poema o atravesse com a delicadeza de quem toca a alma sem fazer ruído.
Leia “Traduzir-se” sem pressa, deixando que cada verso encontre eco em suas próprias contradições, dúvidas e descobertas. Que a poesia de Ferreira Gullar seja, neste instante, não apenas leitura, mas encontro — consigo mesmo, com o outro e com essa arte silenciosa e poderosa que nos ajuda a existir com mais lucidez e sensibilidade.

Sobre o Autor:

José Ribamar Ferreira, nasceu em 10 de setembro de 1930, em São Luís do Maranhão. Poeta, crítico de arte, ensaísta, dramaturgo e tradutor, Gullar foi um dos intelectuais mais influentes do Brasil no século XX.
Participou ativamente do movimento neoconcreto, rompendo com o rigor excessivo do concretismo e defendendo uma arte mais sensível e subjetiva. Durante a ditadura militar, foi perseguido e viveu no exílio em países como Chile, Argentina e União Soviética — experiência que marcou profundamente sua obra.
Entre seus livros mais importantes estão A Luta Corporal, Dentro da Noite Veloz e o célebre Poema Sujo, considerado uma das maiores obras da poesia brasileira contemporânea. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Ferreira Gullar ocupa um lugar incontornável no panteão dos poetas maranhenses e brasileiros. Sua obra prova que a poesia pode ser, ao mesmo tempo, beleza e resistência, introspecção e denúncia, palavra e vida. Ler Gullar é um convite à consciência — e também ao espanto diante da própria existência.
Ferreira Gullar nos deixou em 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro – RJ, acometido por uma pneumonia.
Veja biografia completa do autor em:
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Fontes: www.pt.wikipedia.org / www.ebiografia.com
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