O Carnaval é, talvez, a única manifestação humana onde o caos é rigorosamente orquestrado pelo ritmo.
A explosão de decibéis dos trios elétricos e a percussão milimétrica das escolas de samba são o resultado de milênios de hibridismo cultural.
Cada batida ecoa heranças ancestrais: desde a flauta e os tambores greco-romanos, passando pelo instrumentos melódicos europeus e pelo ritmos dos povos originários da África que muito influenciaram o nosso Carnaval.
Essa evolução não foi apenas técnica, mas também social. A cada século, novos instrumentos, tecnologias e influências foram incorporados, ampliando o alcance e o poder da música carnavalesca. O que começou como ritual, tornou-se expressão popular; o que era tradição local, tornou-se patrimônio global.
Assim, quando o Carnaval explode em som e movimento, ele não representa apenas uma festa — representa a própria história da humanidade traduzida em ritmo.
As Raízes Ancestrais: Dos Rituais das Festas Dionisíacas e Saturnálias aos Bailes Venezianos da Idade Média e do Renascimento
Antes de existir o conceito de “hit do verão”, a música de Carnaval era puramente ritualística.
- Antiguidade: Nas Saturnálias romanas e nas Festas Dionisíacas gregas, o som servia para romper a ordem social. Flautas e tambores rústicos acompanhavam o “mundo invertido”, onde escravos eram servidos por senhores.

- Idade Média e Renascimento: Em Veneza, o Carnaval ganhou ares operísticos e barrocos, com o uso de alaúdes e violinos em bailes de máscara luxuosos.

O Cenário Mundial: Quando Cada Povo Celebra com Seu Próprio Ritmo
A música carnavalesca ao redor do mundo não seguiu um caminho único, como podemos ver nestes dois exemplos abaixo:
- Mardi Gras (Nova Orleans – EUA): Aqui, o Carnaval encontrou o Jazz. No século XIX, as bandas de sopro (brass bands) e o som das comunidades negras e crioulas transformaram a festa em um desfile de improvisação e swing.

- Trinidad e Tobago (Região do Caribe): Ali a música nasceu como resistência. Proibidos de usar tambores pelos colonizadores, os escravizados criaram o Steelpan (tambores de aço feitos de latões de óleo) que evoluiria mais tarde para o Soca, unindo soul e calypso em batidas frenéticas.

O Carnaval Brasileiro: Do Silêncio ao “Ô Abre Alas!”
No Brasil, a música demorou a ser a protagonista.
- O Entrudo (Séculos XVII – XIX): O Carnaval original era o “entrudo” português, uma brincadeira bruta de jogar água e farinha. Não havia música própria. O som era o dos gritos e das risadas.

- As Festas da Aristocracia (Também dos séculos XVII – XIX): Enquanto o povão brincava nas ruas o “entrudo”, nos grandes salões nobres e teatros, a elite festejava o carnaval ao som de orquestras, tocando valsas e polcas.

- O Zé Pereira: Em 1846, um sapateiro português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes saiu às ruas do Rio com um bumbo, inaugurando a era da percussão. Era o fim do silêncio no carnaval de rua e o início do barulho e dos blocos carnavalescos de rua.
O efeito foi imediato e contagiante. O som forte do bumbo ecoava pelas ruas estreitas, atraindo curiosos e foliões, que passaram a seguir o músico espontaneamente. A multidão crescia a cada esquina, transformando aquele gesto solitário em um verdadeiro cortejo popular.
O povo, encantado com a novidade, passou a chamar aquele personagem de “Zé Pereira”, uma forma popular e afetuosa de se referir a José.

- A Primeira Marchinha: Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs “Ó Abre Alas”, a primeira música feita especificamente para o Carnaval brasileiro, com uma estrutura que misturava a marcha militar europeia com o balanço brasileiro.
Até o surgimento de “Ó Abre Alas”, a elite ficava nos salões e o povo no “entrudo” e no bumbo do Zé Pereira. A marchinha de Chiquinha criou uma “ponte”.
Diferente da polca (que precisava de um par e um salão), a marchinha tinha um ritmo binário marcado, perfeito para caminhar e desfilar.
A música foi escrita especificamente para o Cordão Carnavalesco Rosa de Ouro, do Andaraí, bairro do Rio de Janeiro onde Chiquinha morava. Os cordões eram os antepassados dos blocos de hoje.
Com essa música, o Carnaval ganhava, pela primeira vez, uma identidade sonora organizada nas ruas.
O Cordão Rosa de Ouro ganhou o concurso naquele ano, e a marchinha de Chiquinha Gonzaga abriu caminho para o gênero musical carnavalesco das décadas seguintes. E surgiram belas marchinhas, como:
- Ta-hí (Pra Você Gostar de Mim) – Lançada em 1930 e eternizada na voz de Carmen Miranda, a marchinha composta por Joubert de Carvalho tornou-se um dos maiores sucessos da história do Carnaval brasileiro. Com sua melodia envolvente e letra que expressa amor e entrega de forma simples e direta, a canção conquistou multidões e ajudou a projetar Carmen Miranda como uma das maiores artistas do país.
- O Teu Cabelo Não Nega – Composta pelos irmãos João Valença e Raul Valença, e adaptada por Lamartine Babo em 1932, a marchinha tornou-se um dos maiores sucessos do Carnaval. Popularizada pela voz de Carmen Miranda, a música marcou época com seu ritmo envolvente e sua letra que refletia aspectos culturais e sociais do Brasil.
- Mamãe Eu Quero! – Popularizada na voz de Carmen Miranda, a marchinha, de 1937, ultrapassou as fronteiras do Brasil e virou hit mundial. Seu refrão contagiante segue como um dos mais reconhecidos do Carnaval.
- Jardineira – Lançada em 1939, Jardineira foi composta por Benedito Lacerda e Humberto Porto, e eternizada na voz de Orlando Silva, um dos maiores intérpretes da era do rádio. Com sua melodia delicada e refrão inesquecível, a marchinha conquistou gerações e mostrou que o Carnaval também podia ser sensível e poético. Até hoje, é uma das canções mais cantadas e queridas da folia brasileira.
- Allah-lá-ô – Gravada por Carlos Galhardo, em 1940, tornou-se um marco do repertório carnavalesco. A música mistura humor e referências culturais que refletem o espírito irreverente da época.
- Cachaça Não é Água – Com humor típico das marchinhas, a canção eternizada por Carmen Costa brinca com o imaginário popular e expõe, de forma leve, aspectos da vida cotidiana brasileira.
- Me Dá um Dinheiro Aí – Lançada em 1959 e interpretada por Moacyr Franco, a marchinha “Me Dá um Dinheiro Aí” virou tradição nas ruas, com seu pedido bem-humorado que ainda ecoa nos blocos de Carnaval.
- Cabeleira do Zezé – Lançada em 1963, “Cabeleira do Zezé”, composta por João Roberto Kelly e Roberto Faissal, tornou-se uma das marchinhas mais irreverentes e populares da história.
- Aurora – Gravada por Mário Lago e parceiros, a marchinha traz uma pegada mais sentimental, mostrando que o gênero também comporta lirismo e emoção em meio à festa.
- Cidade Maravilhosa – Consagrada como hino da cidade do Rio de Janeiro, a marchinha exalta a beleza e o espírito festivo carioca, sendo presença constante em desfiles e blocos.
- Bandeira Branca – O Apelo Emocionado pelo Fim da Folia. Entre as marchinhas mais carregadas de emoção está “Bandeira Branca”, composta por Max Nunes e Laércio Alves, e eternizada na voz marcante de Dalva de Oliveira em 1970. Diferente de muitas marchinhas marcadas apenas pelo humor, essa canção traz um tom nostálgico e sentimental.
Seu famoso verso — “Bandeira branca, amor, não posso mais” — tornou-se símbolo do momento em que o Carnaval chega ao fim, expressando a tristeza dos foliões diante da despedida da festa.
A música representa aquele instante em que a alegria dá lugar à saudade, reforçando o profundo vínculo emocional entre o povo e o Carnaval.
Até hoje, é comum que blocos e bailes encerrem suas celebrações ao som dessa marchinha, como um ritual coletivo de despedida.
E encerramos essa Parte I, da Música no Carnaval, com um pot-pourri de marchinhas, interpretadas pelo Grupo Folia Brasileira:
Amanhã, a segunda parte deste artigo, sobre “A Música no Carnaval”.
Fontes:
www.pt.wikipedia.org
www.cnnbrasil.com.br
www.instagram.com/marieclairebr
www.youtube/guiademidiadobrasil
www.jornalacena.com.br
Crédito das imagens:
(01, 02, 03) www.chatgpt.com/dall-e
(04, 05, 06, 07, 08) www.gemini.google.com/nanabanana
Crédito dos vídeos:
www.youtube.com/@guiademidiadobrasil
www.youtube.com/@bandafoliabrasileira-tema
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