Todos os domingos, o POEME-SE! abre uma janela no tempo.
Melhor dizendo: é um portal especial. Por ele, entram vozes que já silenciaram, mas que continuam falando conosco através dos seus versos. Entram homens e mulheres que, mesmo tendo partido, permanecem vivos naquilo que escreveram.
O POEME-SE! é um encontro com a alma da poesia.
É o momento de parar, respirar e ouvir aquilo que o mundo moderno quase nos fez esquecer: a beleza das palavras que nascem do coração.
Hoje, essa janela se abre para a luz serena de um luar inesquecível.
Hoje, visitamos o poeta que transformou o sertão em eternidade.
Hoje, visitamos Catulo da Paixão Cearense.
Antes que existissem as gravações digitais, antes que o rádio levasse música aos lugares mais distantes, já existia o silêncio do sertão.
Um silêncio vivo.
Um silêncio preenchido pelo canto dos grilos, pelo sussurro do vento e pela presença majestosa da lua, iluminando a terra como uma lâmpada eterna suspensa no céu.
Foi nesse cenário que nasceu a sensibilidade de um homem destinado a transformar sentimento em poesia.
Catulo da Paixão Cearense não foi apenas um escritor de versos. Ele foi um tradutor da alma nordestina. Enquanto muitos viam apenas o sertão seco e distante, ele enxergava beleza, pertencimento e identidade.
Ele compreendeu algo que poucos compreendem: que a verdadeira riqueza de um povo está em sua memória.
E ele decidiu eternizá-la.
Seus versos não falavam de palácios, nem de reis, nem de batalhas gloriosas. Falavam da terra simples. Falavam da saudade. Falavam daquilo que mora dentro de cada ser humano: o amor pelo lugar de onde viemos.
Mas foi através de uma obra que seu nome atravessou o tempo e se tornou imortal.
A poesia que ele escreveu, mais tarde musicada em parceria com João Pernambuco, transformou-se em uma das canções mais importantes da história do Brasil: Luar do Sertão.
Não era apenas uma poesia, uma música.
Era uma declaração de amor.
Era o testemunho de que, mesmo longe, o coração nunca abandona suas raízes.
Quando seus versos dizem que não há luar como o do sertão, não falam apenas da lua. Falam da memória. Falam da identidade. Falam daquilo que o tempo não pode apagar.
Catulo fez algo extraordinário: ele deu voz ao sertão.
E, ao fazer isso, deu voz ao próprio Brasil.
Hoje, mais de um século depois, seu luar ainda brilha.
Brilha nas canções.
Brilha na literatura.
Brilha em todos aqueles que ainda são capazes de sentir poesia.
Leia a simples, mas belíssima, poesia criada pelo Poeta do Sertão.
Sinta o luar imaginado por Catulo naquele momento de saudade do seu rincão.
POEME-SE!!!

Sobre o Autor:

Catulo da Paixão Cearense, apesar do sobrenome, é maranhense. Nasceu em 8 de outubro de 1863, em São Luís, no Maranhão, filho de Amâncio José Paixão Cearense, natural do Ceará e Maria Celestina Braga, natural do Maranhão. Com 10 anos de idade, mudou-se com a família para o interior do Ceará.
Desde cedo foi marcado pelas influências culturais do Nordeste brasileiro. O sertão não foi apenas um lugar em sua vida — foi sua essência. Os cantadores, as noites iluminadas pela lua e o sentimento de saudade moldaram sua sensibilidade poética.
Mais tarde, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, ainda jovem, levaria consigo essa alma sertaneja, que floresceria em versos e canções.
Um Autodidata Guiado Pela Paixão
Catulo foi autodidata. Aprendeu as primeiras letras com sua mãe, e todo o conhecimento que viria a impressionar seus contemporâneos foi, em parte, construído por meio da leitura constante e do contato direto com os livros.
Como professor dos filhos do Conselheiro Gaspar da Silveira, teve acesso à Biblioteca do Senado do Império, onde aprofundou ainda mais sua formação intelectual.
Sua dedicação à arte e à música o levou, em 1908, a realizar uma audição no Conservatório de Música, demonstrando que, mesmo sem educação formal tradicional, havia alcançado elevado nível cultural e artístico graças ao próprio esforço e amor pelo saber.
Catulo ficou conhecido como o “Poeta do Sertão”, pois foi um dos primeiros artistas a levar para a música e a poesia urbana os sentimentos, a linguagem e o imaginário do interior nordestino.
Sua obra misturava:
- Linguagem popular e regional
- Sofisticação poética
- Sentimento profundo de saudade e pertencimento
Seu estilo era tão marcante que ele chegou a ser chamado de “Victor Hugo do sertão”, em referência ao grande escritor francês.
A Obra de Catulo da Paixão Cearense
A produção artística de Catulo da Paixão Cearense é vasta e profundamente ligada à alma popular brasileira.
Sua obra atravessa diferentes formas de expressão — da música à poesia escrita, passando também pelo teatro — sempre marcada por um elemento central: o sertão como fonte de beleza, inspiração e identidade.
Mais do que escrever, Catulo preservou em palavras e melodias o espírito de um Brasil simples, sensível e verdadeiro.
Canções Que Atravessaram Gerações
Catulo tornou-se imortal principalmente por suas letras musicadas, que ajudaram a construir os alicerces da música popular brasileira. Seus versos, carregados de sentimento e imagens poéticas, encontraram no violão e na voz humana o veículo perfeito para alcançar o coração do povo.
Entre suas principais canções, destacam-se:
- Luar do Sertão — sua obra mais célebre, símbolo eterno da saudade e do amor à terra natal
- Choros ao Violão
- Trovas e Canções
- Cancioneiro Popular
- A Canção do Africano
- O Vagabundo
- E muitas outras composições que enriqueceram o cancioneiro nacional
Suas canções não apenas encantavam — elas contavam histórias, despertavam memórias e davam voz aos sentimentos do povo brasileiro.
Livros de Poemas: O Sertão Eternizado nas Palavras
Além da música, Catulo construiu uma sólida trajetória como poeta escrito, publicando diversas obras que revelam sua profunda sensibilidade literária.
Entre seus livros mais importantes, destacam-se:
- Meu Sertão
- Sertão em Flor
- Poemas Bravios
- Mata Iluminada
- Poemas Escolhidos
- O Milagre de São João
Nesses livros, o sertão deixa de ser apenas um lugar geográfico e passa a existir como um espaço emocional, onde vivem a saudade, a beleza e a identidade de um povo.
O Teatro: O Poeta Que Também Escreveu Para o Palco
A versatilidade de Catulo também se revelou no teatro. Suas peças demonstram sua capacidade de transformar sentimentos e reflexões em cenas vivas, aproximando ainda mais o público de sua arte.
Entre suas obras teatrais, destacam-se:
- O Marroeiro
- Flor da Santidade
- Um Boêmio no Céu — considerada uma de suas obras mais marcantes
Por meio dessas peças, Catulo ampliou ainda mais o alcance de sua expressão artística, mostrando que sua sensibilidade não conhecia limites.
“Luar do Sertão”: Uma Poesia Imortalidade na Forma de Música
Entre todas as suas obras, nenhuma alcançou tanta grandeza quanto Luar do Sertão.
A letra, escrita por Catulo e musicada em parceria com João Pernambuco, tornou-se uma das canções mais gravadas da história do Brasil.
Seus versos exaltam a beleza simples do sertão e expressam um amor profundo pela terra natal:
“Não há, ó gente, ó não, luar como esse do sertão.”
A canção, que na opinião do jurista, magistrado, político e professor universitário Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, transformou-se, realmente, em símbolo da identidade brasileira e permanece viva mais de um século depois.
Um Homem Entre o Reconhecimento e a Pobreza
Apesar do sucesso e do reconhecimento artístico, Catulo viveu uma vida simples e enfrentou dificuldades financeiras.
Nos últimos anos de sua vida, vivia numa casinha simples, em Engenho de Dentro, afundada no meio do mato.
Alí, naquela moradia simples, recebia seus admiradores, escritores estrangeiros e acadêmicos nacionais, sempre com uma boa feijoada, por mais ilustre que fosse o visitante.
As paredes divisórias eram lençóis e sempre que previa a presença de pessoas importantes, dizia para a mulata transformada em dona de casa.
“Cabocla, lave as paredes amanhã, que domingo vem gente!”
A Morte de Catulo da Paixão Cearense: Quando o Rio de Janeiro Parou Para Reverenciar Um Poeta
Catulo da Paixão Cearense morreu em 10 de maio de 1946, no Rio de Janeiro, aos 83 anos de idade.
Seu corpo foi inicialmente velado no saguão da Associação Brasileira de Imprensa, de onde seguiu para a Capela de Santa Teresinha, localizada na Praça da República.
Em seguida, o cortejo seguiu a pé até o Cemitério de São Francisco de Paula. Ao longo do percurso, uma multidão acompanhava em silêncio respeitoso, enquanto a banda do Corpo de Bombeiros executava a marcha fúnebre.
Em sinal de reverência, estabelecimentos comerciais fechavam suas portas à passagem daquele que havia se tornado um símbolo da cultura nacional.
A Despedida Solene Daquele Que Eternizou a Alma Sertaneja
Quando o cortejo chegou ao cemitério, uma multidão já se encontrava reunida, à espera do corpo do poeta.
Diversas homenagens foram prestadas por meio de discursos emocionados, prolongando a cerimônia até o cair da noite. O ambiente era de profunda comoção, como se todos soubessem que testemunhavam um momento histórico.
Então, quando a escuridão tomou o céu, surgiu uma imensa lua cheia, iluminando o cenário com uma beleza quase simbólica.
Nesse instante, o tenor mexicano Alfonso Ortiz, que ali estava, começou a entoar os versos de Luar do Sertão. Pouco a pouco, milhares de vozes se uniram à sua, formando um coro espontâneo e inesquecível.
Uma despedida comovente, em que o próprio luar parecia prestar sua última homenagem ao poeta que o havia eternizado em sua canção.
Fontes:
www.pt.wikipedia.org
www.dicionariodampb.com.br
www.jornaldepoesia.jor.br
Crédito das imagens:
(01) www.dicionariompb.com.br
(02) www.freepik.com (Moldura)
(03) www.recantocaipira.com.br
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