Se você já disse “tomara”, saboreou um “azeite” na salada ou reclamou do preço do “aluguel”, você estava falando um pouco de árabe.
A presença moura na Península Ibérica, que durou cerca de oitocentos anos (do século VIII ao XV), deixou uma marca indelével na cultura e, principalmente, no léxico português.
Estima-se que existam mais de mil palavras de origem árabe no nosso dicionário, a maioria delas substantivos que nomeiam objetos e conceitos que os árabes introduziram na Europa.
O Contexto Histórico da Influência Árabe
A invasão muçulmana da Península Ibérica começou em 711, quando tropas lideradas por Tariq ibn Ziyad cruzaram o Estreito de Gibraltar. A rápida expansão muçulmana resultou na criação do Al-Andalus, uma região sob domínio islâmico que abrangeu grande parte da Península.
A presença árabe trouxe consigo uma rica cultura, ciência, tecnologia e, claro, a língua árabe.
O Prefixo “Al-“: A Assinatura do Deserto
A forma mais fácil de identificar um arabismo é procurar pelo prefixo “al-“. Em árabe, al é o artigo definido (o/a). Quando os falantes de latim vulgar na Península Ibérica incorporaram esses termos, acabaram fundindo o artigo ao substantivo.
- Alface (al-khass)
- Almofada (al-mukhadda)
- Algodão (al-qutun)
- Alcançar (al-qansa)
Nem toda palavra começada com “al” é árabe (como “aluno”, que vem do latim), mas a grande maioria das que se referem a objetos domésticos ou ferramentas agrícolas segue essa regra.
O Legado Intelectual Árabe
Enquanto grande parte da Europa atravessava os séculos da Idade Média, o mundo islâmico experimentava um período de extraordinário florescimento cultural e científico, conhecido como sua Idade de Ouro.
Nesse período, estudiosos árabes não apenas preservaram importantes conhecimentos da Grécia Antiga e da Índia, mas também os ampliaram, sobretudo nas áreas da matemática, da astronomia e de outras ciências.
Além do avanço intelectual, os árabes também se destacaram pela habilidade prática em áreas como a engenharia hidráulica e a botânica. Eles introduziram sofisticados sistemas de irrigação e novas culturas agrícolas que transformaram profundamente a paisagem da Península Ibérica.
Como consequência dessa influência, muitas palavras relacionadas à agricultura e à alimentação passaram a integrar o português — e, sem essa herança cultural, nosso vocabulário nesses campos certamente seria muito mais limitado.

Áreas de Influência
Agricultura e Alimentação
Uma das áreas mais impactadas pela influência árabe foi a agricultura. Muitos termos relacionados a este campo têm origem árabe. Exemplos incluem:
- Açúcar (do árabe sukkar)
- Azeite (do árabe az-zait)
- Arroz (do árabe ar-ruzz)
- Algodão (do árabe al-qutun)
Ciências e Tecnologia
Os avanços científicos e tecnológicos dos árabes também deixaram sua marca no português. Palavras relacionadas a ciências como a matemática, astronomia e química são frequentemente de origem árabe:
- Álgebra (do árabe al-jabr)
- Algoritmo (do árabe al-Khwarizmi, nome do matemático persa)
- Alquimia (do árabe al-kīmiyā’)
- Azimut (do árabe as-sumūt)
Vida Cotidiana e Cultura
O vocabulário relacionado à vida cotidiana e à cultura também foi fortemente influenciado pelos arabismos. Exemplos comuns incluem:
- Almofada (do árabe al-mukhadda)
- Aduana (do árabe ad-diwan)
- Alcalde (do árabe al-qāḍī, usado em espanhol mas com influência na língua portuguesa arcaica)
Curiosidades: Do “Oxalá” ao “Xadrez”
Algumas palavras são tão comuns que esquecemos sua origem exótica.
- Oxalá: Vem da expressão wa-sha Allah (“e queira Deus”). É o nosso “tomara”.
- Xadrez: O jogo foi popularizado na Península pelos árabes (shatranj), que por sua vez o trouxeram da Pérsia.
- Azul: Derivado de lazaward (Lápis-lazúli), mostrando como até a nossa percepção das cores foi nomeada por eles.
Uma Língua de Muitas Camadas
A língua portuguesa é um organismo vivo. Embora nossa gramática e estrutura básica sejam latinas, o vocabulário árabe funciona como um tempero essencial que dá sabor e identidade ao nosso idioma.
Reconhecer esses “arabismos” é valorizar uma história de convivência e troca de conhecimentos que moldou o mundo moderno.
Nota do Editor: Da próxima vez que você for à alfaiataria ou olhar o azulejo da cozinha, lembre-se: a história de povos distantes está saindo pela sua boca em cada frase.
Fontes:
Machado, José Pedro – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa: Volume I-V
Editora: Livros Horizonte (Lisboa-Portugal) – 1977
Vasconcellos, Carolina Michaëlis de – Filologia Portuguesa
Editora: Revista de Portugal (Lisboa-Portugal) – 1946
Michaelis: Moderno Dicionário da Língua Portuguesa
Editora: Melhoramentos (São Paulo-SP) – 1998
Crédito das Imagens:
(01) Montagem sobre imagem de creative hat em www.freepik.com
(02) Equipe gráfica do Almanaque do Estudante
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