Bom dia!!!
É domingo! E domingo, você já sabe… É dia de POEME-SE!
As fogueiras ainda iluminam as noites de junho no sertão do Nordeste. O perfume do milho assado e do amendoim torrado continua no ar, enquanto a sanfona, o zabumba e o triângulo fazem o coração do Nordeste bater no compasso das festas juninas.
É tempo de celebrar uma tradição que atravessa gerações, onde a alegria veste chita, a quadrilha reúne famílias e a poesia encontra, no povo, sua mais bela morada.
E se existe uma poesia que nasceu para caminhar de mãos dadas com esse universo, ela é o cordel.
Embora suas raízes remontem aos antigos trovadores da Península Ibérica, entre os séculos XII e XIII, foi em solo nordestino que o cordel encontrou sua voz mais autêntica.
Os pequenos folhetos, vendidos nas feiras populares, ficavam pendurados em barbantes — os chamados “cordéis” —, origem do nome que atravessou o oceano e se tornou símbolo de uma das maiores riquezas culturais do Brasil.
Com versos rimados, linguagem simples, métrica apurada e capas ilustradas por belas xilogravuras, o cordel passou a contar histórias, preservar tradições, divertir, ensinar e eternizar a alma do povo nordestino. Em 2018, essa expressão artística foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.
Neste domingo, o POEME-SE! acende sua própria fogueira e segue pelas estradas de terra batida do sertão para visitar um poeta que faz da viola, da rima e da tradição um verdadeiro compromisso com a cultura nordestina.
Nosso convidado é o poeta, repentista e cordelista Noel Calixto, que, através de sua bela poesia de cordel “Mote São João”, nos leva de volta às autênticas festas juninas das pequenas comunidades do interior — onde o brilho das estrelas compete com o das fogueiras, onde o forró acontece no terreiro, onde a mesa é farta de comidas típicas e onde a alegria ainda tem o sabor simples da convivência entre vizinhos, amigos e famílias.
Prepare o coração, aqueça a alma na fogueira da tradição e deixe que os versos conduzam sua imaginação.
Porque poesia também veste chapéu de palha, dança quadrilha e acende fogueiras…
…POEME-SE!

Sobre o Autor:

Em um mundo onde as pressões da modernidade tentam silenciar as velhas tradições populares, a resistência cultural assume a forma de um homem, uma viola e um punhado de versos rimados. No agreste alagoano, esse bastião da memória atende pelo nome de Noel Calixto.
Poeta-repentista, violeiro e cordelista, Noel não apenas nasceu em Feira Grande; ele escolheu ser a própria voz daquela terra, transformando o cotidiano do sertão em um monumento de identidade e resistência que já atravessa mais de quatro décadas.
A origem em Feira Grande
A história de Noel Calixto confunde-se com a própria geografia afetiva do município de Feira Grande.
Criado sob o sol do agreste de Alagoas, o menino Noel aprendeu a ler o mundo através dos causos contados nas calçadas, dos aboios dos vaqueiros e do som estalado da viola que ecoava nas feiras livres.
Sua ligação com a terra natal eternizou-se de forma definitiva quando suas palavras se tornaram oficiais. Noel é o coautor do Hino Oficial de Feira Grande, uma obra prima onde ele canta a hospitalidade do seu povo, a memória dos tropeiros viajantes, o refúgio histórico das escravas fugitivas e a beleza natural de uma cidade encastelada entre serras, fontes e matas.
Ao musicar a alma de seu município, Noel garantiu que cada cidadão feiragrandense cantasse, na verdade, a poesia que brota de seu próprio peito.
O galope do repente nas praças de Arapiraca
Com a viola colada ao peito, Noel Calixto ganhou as estradas da cultura popular nordestina. Sua mente ágil e seu faro para o improviso o transformaram em uma das figuras mais respeitadas da poesia de bancada e das cantorias na região de Arapiraca.
Há muitos anos, Noel é peça fundamental no tradicional projeto Cultura na Praça, uma das maiores vitrines da arte popular do estado, idealizada pelo saudoso mestre e Poeta-Vaqueiro Afrísio Acácio do Acordeon.
Sob a sombra das árvores e diante do povo de pés descalços e olhos atentos, Noel duela em motes e galopes, dividindo o chão com grandes parceiros de cantoria. Neste espaço sagrado de partilha, ele ajuda a manter viva a tradição oral, provando que a praça pública é, por excelência, o maior teatro do povo sertanejo.
“Não Nego Minhas Raízes”: O tributo aos mestres
Nenhum poeta caminha sozinho; ele carrega nos ombros os gigantes que vieram antes. Sabendo disso, Noel Calixto materializou seu profundo respeito pela ancestralidade literária no álbum “Não Nego Minhas Raízes”.
Neste trabalho fonográfico, Noel despiu-se da vaidade do criador para vestir a pele de intérprete e preservador. Ao longo de onze faixas, ele resgata e imortaliza a obra de três colossos da literatura popular brasileira:
- Zé da Luz: O inesquecível poeta paraibano do “Língua de Ete”, homenageado com nove poesias que retratam o falar matuto com dignidade e beleza;
- Patativa do Assaré: O mestre absoluto do sertão profundo e da denúncia social;
- Pedro Bandeira: O “Príncipe dos Poetas do Nordeste”.
Ao dar voz a esses mestres, Noel Calixto reafirmou que seu compromisso com o cordel e o repente vai além do entretenimento: trata-se de um ato de salvaguarda do patrimônio imaterial do Brasil.
A poética do cotidiano: Fé, humor e resistência
A produção artística de Noel é um espelho fiel da vida rural. Seus versos não buscam a erudição artificial das academias; eles encontram a beleza na simplicidade. Na ponta de sua caneta ou no calor do improviso, Noel canta:
- A devoção mística que move as procissões e o respeito ao Padre Cícero;
- O humor perspicaz e a crônica social do povo nordestino;
- A melancolia e o mistério das casas velhas e abandonadas pelo tempo;
- O pulsar das festas juninas e a reverência à natureza agrestina.
Sua poesia é visual, tátil e profundamente humana. Ele fala do sofrimento com altivez e celebra a alegria com a pureza de quem sabe que a vida no sertão exige tanto suor quanto fé.
Um eco para as próximas gerações
Mais do que um artista de seu tempo, Noel Calixto tornou-se um guardião do tempo.
Sua missão ultrapassa as páginas dos folhetos de cordel ou os acordes da viola metálica: ele trabalha para que as novas gerações não esqueçam de onde vieram.
Enquanto Noel Calixto cantar, as feiras continuarão coloridas, as praças manterão sua poesia viva e as escolas terão o eco de uma identidade que não se curva à massificação cultural.
Seus versos são a prova viva de que o Nordeste não é apenas um lugar no mapa, mas um estado de espírito, uma pátria mística que continua pulsando, altiva e resistente, em cada estrofe que ele declama.
Fontes:
www.web.arapiraca.al.gov.br
www.arapiracalegal.wordpress.com
Crédito das imagens:
(01) www.chatgpt.com/dall-e
(baseado na única imagem encontrada do artista, na internet)
(02) www.br.pinterest.com/bia/pin/100979216641084723
(moldura para a poesia de cordel)
(03) www.chatgpt.com/dall-e
(baseado na única imagem encontrada do artista, na internet)
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