Era uma vez uma terra de contrastes — seca e chuva, calor e esperança.
E era uma vez uma poetisa que decidiu transformar tudo isso em poesia.
Neste domingo, o POEME-SE! viaja até a Austrália para conhecer Dorothea Mackellar, autora de “Meu País”, um poema que é, ao mesmo tempo, confissão e declaração de amor.
Escrito quando Dorothea ainda era muito jovem, o poema revela um amor profundo por sua terra natal: uma Austrália de planícies imensas, montanhas ásperas, secas devastadoras, chuvas torrenciais, florestas, horizontes intermináveis e uma natureza ao mesmo tempo bela e indomável.
Mais do que descrever um país, Dorothea parece conversar com ele.
Ela reconhece suas dificuldades, suas paisagens duras e até seus momentos de sofrimento — mas é justamente essa terra, com todas as suas contradições, que ocupa o centro de seu coração.
Talvez seja esse o segredo da poesia de Dorothea Mackellar: amar um lugar não apenas quando ele é bonito, mas também quando ele é difícil.
E agora, depois de conhecer um pouco da mulher por trás desses versos, permita-se fazer uma pausa.
Deixe de lado a pressa.
Imagine uma imensa paisagem australiana diante dos seus olhos.
Sinta o calor, veja o horizonte, ouça a chuva chegando depois da seca…
E leia, com calma e com o coração aberto, “Meu País” (My Country).
Porque alguns poemas não querem apenas ser lidos.
Querem ser sentidos.
POEME-SE!

Sobre a autora:

Isobel Marion Dorothea Mackellar nasceu em 1º de julho de 1885, em Point Piper, Sydney, Austrália.
Era a terceira dos quatro filhos e a única menina de Sir Charles Kinnaird Mackellar, médico, político e empresário, e Marion Buckland Mackellar.
Nascida em uma família abastada e intelectualmente estimulante, Dorothea recebeu educação particular em casa.
Mais tarde, frequentou algumas aulas e palestras na Universidade de Sydney, embora não tenha cursado formalmente uma graduação. Era uma jovem especialmente interessada em literatura, línguas, arte e cultura.
Sua educação e suas viagens ajudaram a formar uma mulher de grande cultura. Dorothea acompanhou os pais em viagens por diferentes países e tornou-se fluente em francês, alemão, espanhol e italiano.
Essa experiência internacional ampliou seus horizontes, mas também parece ter fortalecido nela uma percepção muito particular de sua própria terra.
Uma jovem diante de duas paisagens
Foi justamente durante uma temporada na Europa que nasceu a ideia do poema que a tornaria famosa.
Dorothea tinha apenas 19 anos quando começou a escrever My Country. Ela estava na Inglaterra e sentia saudades da Austrália.
Segundo registros preservados pela State Library of New South Wales, a jovem havia se incomodado ao ouvir pessoas compararem favoravelmente a paisagem inglesa à australiana, numa época em que muitos australianos ainda consideravam a Inglaterra a verdadeira “pátria”.
A experiência transformou-se em poesia.
O poema passou por revisões ao longo de alguns anos e foi publicado originalmente em Londres, em 5 de setembro de 1908, na revista The Spectator, com o título “Core of My Heart” — “O Âmago do Meu Coração”.
Pouco depois, o texto foi reproduzido por jornais australianos e rapidamente conquistou leitores em diferentes partes do país. Em 1911, apareceu em seu primeiro livro de poemas, The Closed Door and Other Verses, já sob o título pelo qual se tornaria conhecido: “My Country”.
Uma Austrália diferente da paisagem europeia
A força do poema está justamente no contraste.
No início, Dorothea apresenta uma paisagem verde, ordenada e tradicionalmente associada à beleza europeia. Mas deixa claro que seu coração pertence a outro lugar.
A terra que ela ama é muito diferente: seca, quente, enorme, imprevisível e resistente.
É a terra das vastas planícies, das montanhas escarpadas, das secas e das chuvas torrenciais.
E aqui está uma das características mais interessantes de My Country: Dorothea não transforma a Austrália em uma paisagem perfeita.
Ela reconhece a dureza daquele ambiente.
Há momentos em que o gado morre durante a seca. Há incêndios, inundações e períodos de fome. Mas existe também a chuva que chega depois da estiagem e faz a vegetação reaparecer sobre uma terra que parecia morta.
O National Museum of Australia utiliza justamente os versos de Mackellar para ilustrar a chamada Federation Drought, uma das secas mais severas da história australiana, ocorrida entre 1895 e 1903 e responsável por enormes perdas de animais.
Assim, a natureza não aparece apenas como cenário. Ela se torna personagem.
A inspiração veio da própria experiência
A ligação entre Dorothea e a paisagem australiana não era apenas imaginária.
Sua família possuía propriedades rurais, e durante uma permanência em Torryburn, na região do Hunter, Dorothea testemunhou a transformação da paisagem quando uma longa seca finalmente foi interrompida pela chuva.
A imagem da terra que volta a ficar verde depois de dias de chuva ficou profundamente associada à história do poema.
É uma imagem poderosa porque representa algo maior que a natureza: a capacidade de resistir e renascer.
A terra sofre, espera e, quando a chuva chega, começa novamente.
Muito mais do que “My Country”
Embora My Country tenha se tornado sua obra mais famosa, Dorothea Mackellar escreveu muito mais.
Seu primeiro livro, The Closed Door and Other Verses, foi publicado em 1911. Em 1914 veio The Witch-Maid and Other Verses. Depois publicou Dreamharbour, em 1923, e Fancy Dress, em 1926.
Também escreveu ficção.
Em 1913 publicou o romance Outlaw’s Luck, ambientado na Argentina. Além disso, escreveu outros dois romances em colaboração com sua amiga de infância Ruth Bedford.
Sua poesia foi publicada em importantes periódicos, incluindo The Spectator, de Londres, e The Bulletin, da Austrália. Alguns de seus poemas também foram publicados na revista americana Harper’s Magazine. Sua obra chegou a ser traduzida para diferentes idiomas.
A natureza, as viagens e as experiências pessoais aparecem frequentemente em seus versos. Seu trabalho combina sensibilidade, imaginação e uma forte ligação com a paisagem australiana.
Uma mulher atuante na vida cultural
Dorothea também participou da vida cultural e literária de Sydney.
Em 1929, esteve envolvida na formação de uma unidade do Zonta Club em Sydney. No ano seguinte, participou do National Council of Women Arts and Letter Committee. Também atuou como tesoureira do Bush Book Club of New South Wales.
Em 1931, participou da criação da unidade de Sydney do P.E.N. Club, organização voltada à defesa e promoção da literatura, ao lado de figuras como Ethel Turner e Mary Gilmore.
Dorothea não foi apenas uma poetisa que escreveu sobre a Austrália. Ela também participou ativamente do ambiente cultural de seu país.
Uma vida marcada por viagens e também por perdas
Dorothea nunca se casou.
Em sua juventude, chegou a ficar noiva duas vezes, mas nenhum dos relacionamentos terminou em casamento.
A própria experiência amorosa aparece de maneira indireta em sua produção literária, e algumas de suas traduções de poetas espanhóis e alemães serviram como uma espécie de veículo para sentimentos que ela não expressava diretamente em seus próprios versos.
Com o passar dos anos, sua produção literária diminuiu.
Depois da morte de seu pai, em 1926, Dorothea assumiu responsabilidades familiares, especialmente relacionadas aos pais idosos. Sua mãe morreu em 1933. Mais tarde, problemas de saúde também limitaram sua vida e sua capacidade de escrever.
Mesmo assim, seu nome já estava definitivamente incorporado à literatura australiana.
O reconhecimento no fim da vida
Em 1968, poucos dias antes de sua morte, Dorothea Mackellar recebeu uma das maiores distinções de sua trajetória: foi nomeada Officer of the Order of the British Empire (OBE) por sua contribuição à literatura australiana.
Ela morreu em 14 de janeiro de 1968, aos 82 anos, em Paddington, Sydney, após sofrer uma queda em sua residência.
Seu legado, porém, estava longe de terminar.
Um poema que atravessou gerações
My Country tornou-se um dos poemas mais conhecidos da literatura australiana. Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos posteriores, sua presença em antologias ajudou a transformá-lo em uma poderosa expressão do sentimento nacional australiano.
A importância histórica do poema é tamanha que o manuscrito de Core of My Heart, preservado no caderno de poesias de Mackellar, foi incluído em 2017 no Australian Memory of the World Register, da UNESCO. Trata-se, segundo o governo de New South Wales, do primeiro trabalho literário australiano inscrito nesse registro.

A obra continua sendo lembrada, estudada e recitada.
E talvez isso aconteça porque Dorothea conseguiu fazer algo que somente a grande poesia consegue fazer:
transformar uma paisagem em memória, uma memória em sentimento e um sentimento em palavras capazes de atravessar mais de um século.
Quando Dorothea escreveu sobre sua “terra morena”, ela não estava simplesmente descrevendo montanhas, rios, florestas ou campos.
Estava dizendo:
“É aqui que está o meu coração.”
E essa talvez seja a grande lição de My Country: nós não amamos verdadeiramente um lugar porque ele é perfeito. Amamos porque ele faz parte de quem somos.
Fontes:
www.pt.wikipedia.org
www.adb.anu.edu.au
Crédito das imagens:
(01) www.commons.wikimedia.org
(02) www.microsoft.com/copilot
(Imagem criada por IA a partir da imagem da Wikimedia Commons)
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