Existe um tipo de silêncio que acalma.
É o silêncio de uma manhã tranquila, de um campo iluminado pelo sol, de um riacho que segue seu caminho entre as pedras.
Mas existe também um silêncio que inquieta.
Um silêncio que, quando finalmente compreendido, revela aquilo que talvez preferíssemos não descobrir.
É assim o poema que nos espera nesta edição.
Hoje, o POEME-SE! atravessa as fronteiras do tempo e chega à França do século XIX para visitar um dos nomes mais extraordinários — e inquietos — da poesia mundial: Arthur Rimbaud.
O poeta tinha apenas 16 anos quando escreveu “Le Dormeur du Val” — “O Dorminhoco no Vale”, um soneto que começa nos apresentando uma paisagem tranquila, iluminada pelo sol e embalada pelo som de um rio. Em meio à natureza, repousa um jovem soldado.
Tudo parece sereno.
Mas Rimbaud não está falando apenas sobre sono.
O poema nasceu em 1870, durante a Guerra Franco-Prussiana, conflito que levou destruição e sofrimento para regiões próximas à cidade onde o jovem poeta vivia.
A guerra estava diante de seus olhos: soldados, feridos, derrotas e a presença constante da violência transformavam o cotidiano. A Batalha de Sedan, uma das mais decisivas do conflito, ocorreu a poucos quilômetros de Charleville, cidade natal de Rimbaud.
Em vez de escrever um discurso inflamado contra a guerra, porém, o jovem poeta escolheu outro caminho.
Ele nos mostra um vale.
Mostra a natureza.
Mostra um jovem soldado aparentemente adormecido.
E deixa que nós mesmos descubramos, no final, a terrível verdade.
É justamente nesse contraste entre a beleza da natureza e a brutalidade da guerra que reside a força de “O Dorminhoco no Vale”. Rimbaud retira da morte qualquer aparência de glória heroica.
Não há medalhas, discursos ou celebrações. Há apenas um jovem corpo silencioso, deitado na relva — uma imagem que transforma o poema em uma poderosa denúncia contra a violência dos conflitos.
Mais de um século e meio depois, sua mensagem continua dolorosamente atual. Porque, quando as guerras terminam, os discursos podem falar de vitórias e derrotas. Mas, para aqueles que perderam a vida, resta apenas o silêncio.
E talvez seja essa uma das maiores forças da poesia: dizer, com poucas palavras, aquilo que nenhum grito consegue explicar.
Hoje, convidamos você a conhecer — ou reencontrar — o extraordinário Arthur Rimbaud e a percorrer, verso a verso, esse vale aparentemente tranquilo, onde a poesia revela uma das faces mais cruéis da guerra.
Acomode-se… abra o coração… silencie por alguns instantes…
… POEME-SE!

Sobre o autor:

Jean Nicolas Arthur Rimbaud nasceu em 20 de outubro de 1854, em Charleville, nas Ardenas, região do nordeste da França.
Desde muito cedo, demonstrou uma inteligência extraordinária. Era um aluno brilhante e conquistava prêmios escolares, especialmente por seu domínio da língua e pela facilidade com que escrevia versos.
Sua infância, entretanto, não foi marcada apenas pelos estudos.
O pai, militar, esteve ausente durante grande parte de sua vida. A educação dos filhos ficou principalmente sob a responsabilidade da mãe, uma mulher rígida e extremamente exigente. A relação difícil com a autoridade e com os valores tradicionais ajudaria a alimentar, no jovem Arthur, um espírito profundamente rebelde.
Na escola, porém, alguém percebeu rapidamente seu talento: o professor Georges Izambard.
Mais do que um simples professor, Izambard abriu novas portas para o adolescente, apresentando-lhe leituras e ideias que ampliaram seus horizontes literários. Rimbaud mergulhou nos livros e passou a descobrir autores que o ajudariam a construir sua própria voz.
O adolescente que não aceitava ficar parado
Arthur Rimbaud não parecia disposto a viver uma vida comum.
Ainda adolescente, fugiu de casa diversas vezes. Queria conhecer outros lugares, escapar das regras que o sufocavam e encontrar um mundo maior do que aquele que conhecia em Charleville.
As fugas coincidiram com um dos períodos mais turbulentos da história francesa: a Guerra Franco-Prussiana, iniciada em julho de 1870.
O conflito afetou diretamente sua vida. O colégio onde estudava fechou, a região viveu a presença das tropas e as notícias da derrota francesa e dos feridos passaram a fazer parte do cotidiano. Durante uma de suas tentativas de chegar a Paris, Rimbaud foi preso por viajar sem a passagem adequada.
Mas nem as dificuldades diminuíram sua inquietação.
Ao contrário.
Aquele período de crises, fugas e transformações seria também um dos mais férteis de sua juventude literária.
A guerra que entrou em sua poesia
Em 19 de julho de 1870, a França declarou guerra à Prússia. O conflito rapidamente se transformou em uma grande catástrofe para os franceses.
Poucas semanas depois, a Batalha de Sedan, travada em 1º de setembro, terminou com uma derrota decisiva da França e com a captura de Napoleão III. O confronto ocorreu muito perto da região onde Rimbaud vivia, e as consequências da guerra chegaram diretamente às Ardenas.
Rimbaud não foi soldado.
Mas não precisava estar no campo de batalha para perceber o horror que a guerra produzia.
A presença dos militares, a chegada dos feridos, a derrota e a ocupação da região fizeram com que o conflito entrasse profundamente em sua imaginação poética.
É nesse contexto que surge “Le Dormeur du Val” — “O Dorminhoco no Vale”.
Escrito em outubro de 1870, quando Rimbaud tinha apenas 16 anos, o poema apresenta um jovem soldado deitado em meio a uma paisagem de extraordinária beleza. Aos poucos, porém, o leitor percebe que aquele descanso não é descanso.
O soldado está morto.
A revelação final transforma completamente tudo o que veio antes.
Sem fazer um discurso político direto, Rimbaud cria uma poderosa denúncia contra a guerra. Ele mostra a vida interrompida, a juventude destruída e o absurdo de uma morte que acontece justamente em meio à beleza da natureza.
Os “Cahiers de Douai” e o nascimento de um grande poeta
Durante suas aventuras e fugas de 1870, Rimbaud reuniu e copiou cuidadosamente vários poemas.
Esses textos ficaram conhecidos posteriormente como “Cahiers de Douai” — os Cadernos de Douai.
Foi nesse conjunto que “Le Dormeur du Val” encontrou seu lugar.
Os poemas revelavam algo impressionante: um adolescente que já dominava formas tradicionais da poesia, mas que, ao mesmo tempo, parecia disposto a ultrapassar todos os limites estabelecidos.
Rimbaud não queria apenas escrever bem.
Ele queria reinventar a poesia.
Os versos dos “Cahiers de Douai” mostram um jovem capaz de tratar de amor, natureza, revolta, religião, política e guerra. Mas também revelam um espírito que começava a se afastar cada vez mais das convenções literárias de sua época.
Um poeta em permanente revolta
A rebeldia de Rimbaud não era apenas pessoal.
Ela também aparecia em sua maneira de enxergar a sociedade.
O jovem poeta questionava valores tradicionais, criticava a hipocrisia, desconfiava dos discursos patrióticos e recusava a ideia de que a arte deveria simplesmente obedecer às regras já existentes.
Para ele, o poeta deveria enxergar o mundo de uma maneira diferente.
Essa busca por uma nova linguagem o levaria a experiências cada vez mais ousadas.
Rimbaud queria chegar ao desconhecido.
Queria ultrapassar as fronteiras da percepção comum.
Essa ambição aparece de forma marcante em textos e cartas que se tornaram fundamentais para compreender sua visão sobre a criação poética.
Paul Verlaine e uma relação turbulenta
Em 1871, Rimbaud enviou alguns de seus poemas ao já conhecido poeta Paul Verlaine.
Verlaine ficou impressionado com o talento daquele jovem desconhecido e o convidou para ir a Paris.
O encontro entre os dois marcaria profundamente a vida de ambos.
Rimbaud e Verlaine viveram uma relação intensa, apaixonada e extremamente turbulenta. Viajaram juntos e enfrentaram conflitos que se tornaram assunto nos círculos literários da época.
A relação terminou de forma dramática.
Em 1873, durante uma discussão em Bruxelas, Verlaine atirou contra Rimbaud, ferindo-o. O episódio levou Verlaine à prisão.
Apesar de toda a turbulência, o encontro entre os dois poetas teve enorme importância para a história da literatura. Ambos ajudaram a romper com padrões estabelecidos e se tornaram referências fundamentais para movimentos poéticos posteriores.
Quando o poeta abandonou a poesia e partiu para o mundo
Por volta dos 20 anos, Arthur Rimbaud tomou uma decisão que até hoje intriga estudiosos e admiradores de sua obra: abandonou abruptamente a literatura.
Era uma escolha surpreendente. Afinal, aquele jovem que, ainda adolescente, havia produzido alguns dos textos mais revolucionários da poesia francesa simplesmente deixou de escrever versos.
Durante sua curta carreira literária, publicou praticamente apenas um livro por iniciativa própria: Uma Temporada no Inferno, lançado em 1873. Seus outros poemas circularam de forma limitada e muitos só alcançariam grande reconhecimento posteriormente.
O mistério em torno de sua decisão apenas aumentou sua fama.
Livre da poesia, Rimbaud voltou-se inicialmente para o aprendizado de idiomas. Dotado de uma curiosidade intensa e de um espírito permanentemente inquieto, parecia incapaz de aceitar uma vida convencional.
Suas ideias anticonformistas e seu profundo desprezo pelas convenções da sociedade burguesa o levaram a escolher um caminho completamente diferente.
Rimbaud tornou-se um viajante incansável.
Suas andanças o levaram por diferentes regiões da Europa e, posteriormente, para o nordeste da África. Na então chamada Abissínia — território do antigo Império Etíope —, estabeleceu-se durante alguns anos e passou a trabalhar como comerciante e explorador.
O antigo poeta negociou diferentes mercadorias, entre elas café, tecidos, roupas e produtos diversos. Sua vida, que antes parecia destinada aos salões literários de Paris, havia se transformado em uma sucessão de viagens, negócios e aventuras em terras distantes.
A controversa aventura no comércio de armas
Em determinado momento, Rimbaud envolveu-se também em uma tentativa de comércio de armas destinadas ao futuro imperador Menelik II, da Etiópia.
A empreitada, realizada com conhecimento e aprovação das autoridades francesas locais, revelou-se um fracasso comercial. Embora esse episódio tenha tido pouco impacto político concreto, acabou contribuindo para alimentar ainda mais a imagem quase lendária do antigo poeta aventureiro.
Era como se Arthur Rimbaud tivesse vivido duas vidas completamente diferentes.
Na primeira, foi o adolescente genial que revolucionou a poesia francesa antes mesmo de completar 20 anos.
Na segunda, tornou-se um homem de negócios e viajante, percorrendo regiões distantes da Europa e da África.
E há algo especialmente curioso nisso: mesmo depois de abandonar a literatura, Rimbaud não deixou completamente de escrever.
Dessa fase de sua vida, chegaram até nós cerca de 180 cartas, dirigidas a familiares e relacionadas a seus negócios, além de algumas descrições geográficas das regiões por onde passou.
Não eram mais poemas.
Mas eram registros preciosos de um homem que havia trocado os versos pelas estradas do mundo.
A doença e o retorno à França
Rimbaud passou quase onze anos na África, dedicando-se ao comércio e às viagens até ser acometido por uma grave doença.
Em fevereiro de 1891, Rimbaud começou a sentir fortes dores na perna direita, inicialmente atribuídas a artrite.
O quadro piorou rapidamente, e os médicos diagnosticaram um sarcoma. Em maio de 1891, embarcou para Marselha, já em estado grave. Pouco depois de chegar, sua perna foi amputada, mas o câncer havia se espalhado.
Rimbaud passou seus últimos meses internado no Hospital da Conceição, em Marselha, escrevendo cartas à família e expressando o desejo de retornar à África — desejo que nunca se concretizou.
Morte e legado
Arthur Rimbaud morreu em 10 de novembro de 1891, em Marselha, aos 37 anos.
Sua vida foi curta.
Sua carreira poética, mais curta ainda.
Mas a influência que deixou seria gigantesca.
Sua vida se transformou em mito.
O adolescente genial.
O rebelde.
O fugitivo.
O poeta que revolucionou a literatura.
E o homem que, misteriosamente, decidiu abandonar a própria poesia.
Mas talvez Rimbaud nunca tenha deixado completamente os versos.
Porque, mesmo depois de sua morte, suas palavras continuaram viajando.
De geração em geração.
De país em país.
De leitor em leitor.
E continuam chegando até nós.
Talvez seja esse o verdadeiro destino de um grande poeta.
Ele parte.
Mas suas palavras permanecem.
Fontes:
www.fr.wikipedia.org
www.rimbaud-arthur.fr
www.revistas.pucsp.br
Crédito das imagens:
(01) www.arena.ai
(Baseado em imagem de www.commons.wikimedia.org – Licença: CC BY 4.0)
(02) www.magnific.com
(Moldura de apresentação do poema)
(03) www.commons.wikimedia.org – Licença: CC BY 4.0)
Compartilhe este post:

Deixe uma resposta