Existem canções que apenas ouvimos e existem as que nos tocam, profundamente.
Ao retornar do meu trabalho CLT para casa — trajeto que faço a pé, por meu local de trabalho ficar perto da minha residência —, passei por uma casa onde estava tocando uma canção que — perdoem-me a a redundância — me tocou!
Como eu estava com pressa e caminhava rápido, consegui ouvir apenas um trecho da letra, que dizia mais ou menos assim:
“Toca, Senhor, toca, Senhor, com teu amor, com teu amor.
Tira toda mágoa que faz alguém chorar, tira todo ódio, ensina a perdoar.
Toca, Senhor, toca, Senhor, com teu amor, com teu amor.”
Era uma “oração cantada”, de melodia simples, sem muitos arranjos sofisticados, com um pedido que parecia nascer do coração de quem a interpretava, cujo refrão se repetia, como um clamor.
Veio-me, então, a ideia de criar um pequeno artigo para a seção “Palavras de Fé” sobre essa oração cantada:
As dores invisíveis que carregamos pela vida
Ao longo de nossas vidas, acumulamos muitos sentimentos:
Lembranças, amizades, conquistas, encontros e despedidas.
Mas nem tudo o que guardamos em nosso íntimo é leve.
Também guardamos palavras que nos machucaram.
Decepções.
Promessas não cumpridas.
Ausências que nunca conseguimos compreender.
Injustiças.
Pessoas que amamos e que, de alguma forma, nos feriram.
Às vezes, seguimos em frente aparentemente bem. Estudamos, conversamos, nos divertimos, sorrimos, trabalhamos, cumprimos nossas obrigações.
Para quem olha de fora, está tudo normal.
Mas, por dentro, existe uma dor que ainda não foi embora.
São as chamadas feridas silenciosas.
E talvez as mais difíceis de tratar sejam justamente essas dores. As que ninguém consegue ver.
O peso invisível da mágoa
Com o passar dos anos, algumas pessoas chegam à maturidade carregando um fardo que começou muito tempo atrás.
Uma palavra dura ouvida na infância.
Uma rejeição.
Uma traição.
Uma perda.
Uma injustiça que nunca foi reparada.
Um pedido de desculpas que jamais chegou.
A dor, quando não é cuidada, pode transformar-se em mágoa. A mágoa pode tornar-se ressentimento. E o ressentimento, pouco a pouco, pode endurecer o coração.
É um peso invisível.
Ninguém o vê sobre nossos ombros, mas nós o sentimos.
Ele rouba a paz.
Alimenta a tristeza.
Faz-nos desconfiar das pessoas.
E, muitas vezes, impede que experimentemos plenamente a alegria que Deus deseja para nós.
Na canção que ouvi, o autor faz o seguinte clamor:
“Tira toda mágoa que faz alguém chorar…”
Há feridas que o tempo, sozinho, não consegue apagar.
E existem lugares dentro de nós aos quais ninguém consegue chegar.
Mas Deus chega!!!
Chega onde as palavras dos amigos já não conseguem alcançar.
Chega ao lugar da lembrança que ainda machuca.
À lágrima escondida.
À decepção que aprendemos a disfarçar com um sorriso.
Ore!!!
Peça a ajuda do Deus Todo-Poderoso!!!
Deus conhece os caminhos mais profundos da alma. Ele não precisa que expliquemos perfeitamente aquilo que sentimos, porque conhece até as dores para as quais nunca encontramos palavras.
E, quando permitimos que Seu amor toque o nosso coração, aquilo que parecia impossível de carregar sozinho começa, pouco a pouco, a perder o peso.
Talvez a ferida não desapareça de um dia para o outro. Mas você já não precisa enfrentá-la sozinho.

A cura que começa pelo perdão
A outra parte da letra dizia:
“… tira todo ódio, ensina a perdoar.“
Um pedido simples. Mas, talvez, uma das orações mais difíceis que alguém possa fazer.
Porque perdoar nem sempre é fácil.
Há pessoas que nos feriram profundamente. Algumas sabiam exatamente o que estavam fazendo. Outras talvez nunca tenham percebido o tamanho da dor que deixaram em nós.
E existem feridas que não desaparecem apenas porque alguém nos diz: “Você precisa perdoar.”
O coração humano não funciona assim.
Há dores que precisam de tempo.
Há lágrimas que precisam ser derramadas.
Há lembranças que ainda precisam ser compreendidas.
Mas existe uma verdade importante: quando nos recusamos a perdoar, muitas vezes continuamos presos àquilo que nos feriu.
A pessoa pode até ter seguido a própria vida. Pode estar distante. Pode, talvez, nem se lembrar mais do que aconteceu.
Mas nós continuamos voltando àquele momento.
Revivendo aquelas palavras.
Alimentando aquela mágoa.
Carregando uma dor que deveria ter ficado no passado.
É por isso que o perdão não significa dizer que aquilo que aconteceu foi certo.
Não foi.
Perdoar também não significa esquecer, fingir que nada aconteceu ou permitir que alguém continue nos machucando.
Perdoar é outra coisa.
É decidir que a dor não terá mais o direito de governar a nossa vida.
É retirar, pouco a pouco, o passado do comando do nosso presente.
E, muitas vezes, precisamos reconhecer humildemente:
“Senhor, eu quero perdoar… mas ainda não consigo.”
Talvez seja justamente aí que começa a verdadeira oração.
Não precisamos fingir diante de Deus.
Podemos entregar a Ele a nossa dificuldade.
Podemos dizer que ainda dói.
Que ainda estamos magoados.
Que, por enquanto, o coração não consegue esquecer.
E pedir:
“Tira todo ódio. Ensina-me a perdoar.”
Porque há situações em que o perdão não nasce de uma única decisão.
Ele é um caminho.
Um aprendizado.
Um processo que, às vezes, precisa ser repetido muitas vezes dentro de nós.
Mas cada pequeno passo em direção ao perdão é também um passo em direção à liberdade.
Quando tudo parecer pesado, peça apenas: “Toca, Senhor!”
Há dias em que não sabemos o que dizer.
A oração parece difícil.
As palavras desaparecem.
O coração está cansado demais até para explicar o que sente.
Nesses dias, talvez não seja necessário dizer muita coisa.
Talvez seja suficiente fechar os olhos e repetir, lentamente:
Toca, Senhor!
Toca a lembrança que ainda dói.
Toca a saudade que aperta o peito.
Toca o medo que não consigo vencer.
Toca a doença que preocupa minha família.
Toca a mágoa que ainda mora dentro de mim.
Toca o meu orgulho.
Toca a minha culpa.
Toca aquilo que escondi de todo mundo.
Toca o meu coração.
Porque há lugares onde ninguém consegue entrar.
Mas Deus entra.
Há lágrimas que ninguém vê.
Mas Deus enxerga.
Há gritos que não saem pela boca.
Mas Deus ouve.
E há corações que parecem “duros” demais.
Mas não há dor, mágoa ou orgulho que impeça o toque transformador de Deus!

Em tempo: Dei um Google e descobri que a canção chama-se “Oração de Cura”, composta pelo Pe. Joãozinho e tem como um dos intérpretes o Pe. Antonio Maria.
Crédito das imagens:
www.arena.ai
Compartilhe este post:

1 comentário até agora