O calor excessivo costuma receber grande atenção quando o assunto é saúde. Mas o frio intenso também pode ser perigoso — especialmente para quem já convive com problemas no coração.
Um importante estudo publicado no final de agosto de 2026 no Journal of the American College of Cardiology (JACC) reforça esse alerta: a exposição a temperaturas muito baixas ou muito altas está associada a um aumento no risco de hospitalização por insuficiência cardíaca.
A descoberta chama atenção para uma realidade cada vez mais importante em um planeta que enfrenta mudanças climáticas: o clima não afeta apenas o meio ambiente. Ele também pode afetar diretamente o funcionamento do corpo humano.
O que é a insuficiência cardíaca?
Trata-se de uma condição em que o coração não consegue bombear sangue de maneira eficiente para atender plenamente às necessidades do organismo.
Isso pode provocar sintomas como:
- falta de ar;
- cansaço excessivo;
- inchaço nas pernas e nos pés;
- dificuldade para realizar esforços;
- acúmulo de líquidos no organismo.
Quando a condição se agrava, o paciente pode precisar de atendimento médico e, em alguns casos, de hospitalização.
É justamente essa piora repentina que os pesquisadores procuraram compreender em relação às mudanças de temperatura.
Um estudo com quase meio milhão de hospitalizações
A pesquisa analisou nada menos que 482 mil hospitalizações por insuficiência cardíaca registradas na Suécia entre 2006 e 2021.
Os cientistas investigaram a relação entre as internações e diferentes situações climáticas, incluindo:
- temperaturas muito elevadas;
- ondas de calor;
- temperaturas abaixo do ideal;
- ondas de frio.
Os resultados mostraram que tanto o calor quanto o frio podem representar um fator de risco para pessoas com insuficiência cardíaca.
Mas um detalhe chamou particularmente a atenção dos pesquisadores.
O frio pode agir com alguns dias de atraso
Os efeitos das ondas de frio não apareceram necessariamente no mesmo dia da exposição.
O estudo encontrou um aumento no risco de hospitalização entre dois e seis dias após períodos de frio intenso, com resultados estatisticamente significativos especialmente entre o terceiro e o quinto dia.
Isso é importante porque mostra que os efeitos do clima sobre a saúde nem sempre são imediatos.
Uma pessoa pode enfrentar alguns dias de temperaturas muito baixas e sofrer consequências posteriormente.
Já a exposição a temperaturas mais elevadas pareceu estar associada a efeitos mais rápidos, com aumento do risco observado principalmente nos primeiros dias após a exposição.
Por que o frio exige tanto do coração?
Quando sentimos frio, o corpo entra em ação para tentar conservar o calor.
Os vasos sanguíneos podem se contrair, reduzindo a perda de calor pela pele. Esse processo, porém, pode aumentar a pressão arterial e exigir mais do sistema cardiovascular.
Além disso, o frio pode alterar características do sangue e aumentar o esforço necessário para manter o organismo funcionando adequadamente. Para alguém que já possui uma doença cardiovascular, esse esforço extra pode representar um problema importante.
Em outras palavras: o organismo está tentando se proteger do frio, mas essa reação pode aumentar a carga sobre um coração já fragilizado.
E o calor? O coração também sofre
Se o frio faz o organismo tentar conservar calor, o calor extremo obriga o corpo a fazer exatamente o contrário: tentar se resfriar.
Para isso, o corpo aumenta a circulação de sangue próxima à pele e produz suor. Ao mesmo tempo, o coração pode precisar trabalhar mais para ajudar na regulação da temperatura corporal.
A transpiração excessiva também pode provocar perda de líquidos e contribuir para a desidratação.
Para uma pessoa saudável, o organismo geralmente consegue lidar com essas mudanças. Mas, para alguém com insuficiência cardíaca ou outra doença cardiovascular, a sobrecarga pode ser muito maior.

Nem todo mundo enfrenta o mesmo risco
As consequências das temperaturas extremas não são iguais para todas as pessoas.
Segundo uma declaração científica atualizada da American Heart Association, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos de temperaturas fora do ideal, entre eles:
- idosos;
- pessoas com doenças cardiovasculares;
- pessoas que vivem em condições socioeconômicas mais vulneráveis;
- trabalhadores expostos ao ambiente externo;
- pessoas sem acesso adequado a ambientes aquecidos ou refrigerados.
Isso mostra que o problema não depende apenas do termômetro.
Moradia, acesso à saúde, condições de trabalho e capacidade de se proteger do calor ou do frio também fazem diferença.
Um planeta mais quente, um desafio maior
As mudanças climáticas estão tornando os eventos extremos de temperatura uma preocupação crescente para a saúde pública.
A Organização Mundial da Saúde alerta que o número de pessoas expostas ao calor extremo vem crescendo e que o calor pode agravar doenças já existentes, incluindo problemas cardiovasculares.
A American Heart Association também destaca que tanto o frio quanto o calor podem aumentar o risco de problemas cardiovasculares, incluindo infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias e descompensação da insuficiência cardíaca.
Portanto, quando falamos sobre mudanças climáticas, não estamos discutindo apenas geleiras, florestas ou o aumento do nível do mar.
Estamos falando também sobre hospitais, médicos e pessoas que podem ter sua saúde diretamente afetada pelo ambiente em que vivem.
O coração parece ser especialmente sensível aos extremos
O novo estudo sueco não está sozinho.
Uma grande pesquisa internacional anterior analisou mais de 32 milhões de mortes por doenças cardiovasculares em diversos países e encontrou um aumento do risco de morte em dias extremamente quentes e extremamente frios.
Entre as diferentes doenças cardiovasculares analisadas, a insuficiência cardíaca apresentou a maior proporção de mortes adicionais associadas aos extremos de temperatura.
Os números reforçam uma mensagem importante: para quem já possui um coração fragilizado, o clima pode se transformar em um fator adicional de risco.
Como as pessoas com problemas cardíacos podem se proteger?
A prevenção é fundamental, especialmente para quem já recebeu o diagnóstico de insuficiência cardíaca ou outra doença cardiovascular.
Alguns cuidados gerais incluem:
Nos dias de calor extremo:
- evitar atividades físicas pesadas nas horas mais quentes;
- procurar locais frescos e ventilados;
- usar roupas leves;
- seguir corretamente as orientações médicas sobre consumo de líquidos e medicamentos.
Nos dias de frio intenso:
- manter-se adequadamente aquecido;
- evitar exposição prolongada ao frio;
- ter cuidado com esforços físicos repentinos;
- procurar orientação médica diante do agravamento de sintomas.
O termômetro também é uma questão de saúde
Durante muito tempo, a previsão do tempo foi vista principalmente como uma informação para decidir se seria necessário levar um guarda-chuva ou usar roupas mais leves.
Hoje, sabemos que o assunto pode ser muito mais sério.
Para milhões de pessoas que convivem com doenças cardiovasculares, uma onda de calor ou um período de frio intenso pode representar um desafio real para o organismo.
O estudo realizado na Suécia reforça que o coração não vive isolado do ambiente.
Ele responde ao esforço, à alimentação, ao estresse, à poluição — e também à temperatura.
Em um mundo de extremos climáticos cada vez mais frequentes, talvez seja preciso olhar para o termômetro não apenas para saber como nos vestir.
Em alguns casos, ele também pode ajudar a indicar quando é hora de redobrar os cuidados com a saúde.
Fontes:
www.jacc.org
www.newsroom.heart.org
Crédito das imagens:
(01) www.chatgpt.com/dall-e
(02) www.arena.ai
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