Domingo é dia de abrir espaço para a poesia — aquela pausa necessária no meio da correria, quando podemos deixar de lado as pressas e permitir que algumas palavras nos alcancem por dentro.
Há palavras que se desenham na mente. Nascem do silêncio do pensamento.
E há aquelas que brotam da alma, das histórias que o viver vai escrevendo sem papel. Das dores, das alegrias e das lembranças que o caminho guarda.
Neste domingo, o POEME-SE! abre suas páginas para um desses artistas que aprenderam a transformar a própria vida em matéria de arte.
Hoje, a poesia nos leva ao encontro de Zeca Tocantins.
Poeta, cantor, compositor, contista e apaixonado pela cultura, Zeca é desses artistas que não cabem facilmente em uma única definição.
Sua arte passeia pela literatura e pela música, pela palavra e pela memória, pelo palco e pelo cotidiano.
E talvez esteja justamente aí uma das marcas mais bonitas de sua trajetória: a capacidade de encontrar poesia onde muitos de nós enxergamos apenas a vida acontecendo.
Nascido em Xambioá, no Tocantins, em 1958, Zeca Tocantins chegou ainda menino a Imperatriz. E foi nesta terra de encontros, caminhos e histórias que sua identidade artística ganhou raízes.
Ao longo dos anos, sua voz e seus versos ajudaram a contar um pouco da alma da região — seus personagens, suas paisagens, seus sentimentos e sua gente.
Mas há algo ainda mais bonito em sua caminhada: Zeca não guardou a arte apenas para si.
Em sua trajetória, também encontrou espaço para aproximar crianças e jovens da cultura, levando às escolas experiências com cantos e verso, como quem acredita que a arte não deve ser apenas contemplada, mas também descoberta dentro de cada pessoa.
E talvez seja por isso que trazer Zeca Tocantins ao POEME-SE! tenha um significado especial.
Porque poesia não é somente aquilo que alguém escreve.
Poesia também é aquilo que alguém consegue despertar em nós.
E o poema que escolhemos para esta edição fala justamente de algo que todos, em algum momento da vida, já sentimos:
a ausência.
“Escultura”
Em poucos versos, Zeca Tocantins transforma a saudade em imagens.
Há uma pessoa que não está ali. Há uma noite sem estrelas. Há dedos que procuram no escuro. Há olhos que perderam o sono. E, no silêncio daquele quarto, acontece algo extraordinário: a memória começa a esculpir aquilo que a realidade já não pode oferecer.
A lembrança passa a ser cinzel.
A saudade vira matéria.
E a pessoa ausente, pouco a pouco, ganha forma dentro de quem permanece.
Talvez seja essa a força maior de poema, mostrar que algumas presenças são tão profundas que, mesmo quando desaparecem dos nossos olhos, continuam existindo dentro de nós.
Porque há pessoas que o tempo leva.
Mas a memória se recusa a deixá-las partir.
E então ela as esculpe.
Detalhe por detalhe.
Traço por traço.
Até que, no escuro de uma noite de insônia, aquilo que parecia ausência se transforma novamente em presença.
Agora, porém, é hora de deixar de lado as palavras sobre o poeta e abrir espaço para as palavras do poeta.
Vamos entrar, em silêncio, nesse quarto escuro onde a noite perdeu as estrelas, onde a insônia permanece acordada e onde a saudade, pelas mãos da memória, começa a ganhar forma.
Vamos conhecer “Escultura” — um poema sobre a ausência, a lembrança e esse estranho poder que o coração possui de manter perto aquilo que a vida levou para longe.
Que os versos de Zeca Tocantins encontrem você.
POEME-SE!

Sobre o autor:

Cantor, compositor, poeta, escritor, contista, cronista, ator, diretor teatral e produtor cultural, ele construiu uma trajetória profundamente ligada à história cultural de Imperatriz e da Região Tocantina.
Mais do que produzir arte, dedicou boa parte de sua vida a fazer com que essa arte chegasse às pessoas — especialmente às crianças e aos jovens.
Seu nome de batismo é José Bonifácio Cezar Ribeiro. Nasceu em 14 de maio de 1958, em Xambioá, então pertencente ao antigo Estado de Goiás e hoje município do Tocantins. Aos cinco anos, em 1963, mudou-se com a família para Imperatriz, no Maranhão, cidade que acabaria se tornando o grande território afetivo e cultural de sua vida.
E foi justamente dessa ligação com o território que nasceu o nome artístico que o acompanharia por toda a vida:
Zeca Tocantins!
O eterno aprendiz
Zeca cresceu em Imperatriz e ali fez sua formação escolar. Autodidata, desenvolveu desde cedo uma curiosidade especial pelas manifestações culturais e literárias da Região Tocantina.
Ele próprio já explicou que não teve uma formação acadêmica específica em música. Preferiu definir-se como um “eterno aprendiz”, colocando o desejo de conhecimento acima da busca por diplomas.
Essa característica ajuda a compreender sua trajetória.
Zeca não construiu sua carreira dentro de uma única escola artística. Aprendeu convivendo com músicos, escritores, atores, poetas, artistas plásticos, jornalistas e tantos outros personagens que ajudaram a construir a identidade cultural de Imperatriz.
Foi uma formação feita na prática.
Na rua.
Nos palcos.
Nos festivais.
Nos livros.
Nas conversas.
Na observação da própria região.
O teatro foi uma de suas primeiras escolas
Em 1977, Zeca Tocantins ingressou no movimento teatral de Imperatriz.
Começou como ator e, posteriormente, passou também a escrever e dirigir peças.
Entre seus trabalhos estão Imperatriz por um Triz, Mistérios do Bico, Amigo Tem que Ser Amigo e Colhedor de Sonhos.
A experiência teatral teria importância decisiva em sua formação artística.
Em entrevista, Zeca explicou que considera o teatro um dos seus grandes espaços de aprendizado, porque ali teve contato com diferentes áreas: dramaturgia, direção, atuação, música, dança, iluminação, figurino, fotografia e artes plásticas.
Ou seja: antes de ser apenas um cantor ou poeta, ele aprendeu a enxergar a arte como um grande universo no qual diferentes linguagens podem conversar.
Um dos construtores da cultura de Imperatriz
A trajetória de Zeca também se confunde com a própria história do movimento cultural imperatrizense.
Ele é membro da Academia Imperatrizense de Letras – AIL, membro fundador da Associação Artística de Imperatriz (Assarti), do Grupo Teatral DARC e do Grêmio Recreativo Voluntários do Samba. Também presidiu o Sindicato dos Músicos da Região Tocantina.
Zeca teve papel importante na luta pela criação e manutenção de espaços culturais na cidade. Em 1982, juntamente com outros artistas, participou da luta que ajudou a consolidar o espaço que se tornaria o Teatro Ferreira Gullar, importante palco da cultura imperatrizense.
Isso revela uma característica importante de sua trajetória:
Zeca não quis apenas ocupar os palcos. Também ajudou a construir os palcos.
A música e os festivais
A música acabou ocupando lugar central em sua vida.
Zeca participou de inúmeros festivais de música, inclusive fora de sua região, conquistando premiações e construindo uma trajetória autoral. Também integrou o grupo Trempe de Barro, ao lado de outros músicos, antes de seguir carreira individual.
Seu trabalho musical inclui os álbuns:
- “Cio do Homem”, LPem 1993;
- “Terreiero de Todo Canto”, CD em 2000;
- “Mestiço”, CD em 2002;
- “Duas Faces”, CD em 2010;
- “Tô Chegando”, CD em 2017;
- “Boi Mocidade Bacuriense” Participação no EP, em 2022;
- “Divindade”, CD em 2024;
- “Essa Menina” Single, lançado neste ano de 2026.
Mas sua produção musical não pode ser separada de sua poesia.
Para Zeca Tocantins, música e palavra caminham juntas.
A paisagem da Região Tocantina, seus personagens, suas memórias, seus rios, suas dores, suas festas e seu modo de falar aparecem como matéria-prima de sua criação.
É uma arte profundamente ligada ao lugar de onde veio.
O poeta da Região Tocantina
Se existe uma característica que aparece repetidamente nas referências sobre Zeca Tocantins, é a importância de sua poesia.
A Academia Imperatrizense de Letras o apresenta como um dos nomes mais autênticos e originais da poesia da região.
Zeca ocupa a Cadeira nº 29 da AIL, instituição da qual é membro desde 1994.
Sua primeira produção literária, “Calumbi“, apareceu em 1990.
Ao longo dos anos, vieram poesias, contos, crônicas e ensaios, formando uma obra marcada pela regionalidade, pela oralidade, pelo humor, pela ironia e pela reflexão sobre a realidade vivida.
Entre seus livros estão:
- Calumbi (Poesias) – Prêmio Gruli de Literatura, em 1992;
- Moinho (Poesias) em 1993;
- Dez Contos de Pulinário (Contos) em 1994;
- Gotas de Sol (Poesias) Prêmio Gruli em 1996;
- Caminhos de Nós (Poesias) Prêmio Gruli em 1998;
- Banzeiros (Contos) em 2001;
- Colhedor de Manhãs (Poesias) em 2003;
- Pequeno Ensaio sobre Cultura, Criação e Arte (Arte e Criação) em 2006
- O Outro Lado da Ponte (Crônica) em 2010;
- Curandeiras (Poesias) em 2012;
- O Último Trem (Poesias) em 2015;
- Interior da Gente (Poesia) em 2019.
A palavra que nasce do chão
Talvez uma das maiores riquezas da obra de Zeca Tocantins esteja justamente em sua capacidade de transformar o cotidiano regional em matéria literária.
Ele não precisa procurar personagens em lugares distantes.
Eles estão nas ruas.
Nos rios.
Nas feiras.
Nas histórias contadas pelos mais velhos.
Nas pessoas simples.
Nas paisagens da Região Tocantina.
Na memória de quem chegou antes.
Sua literatura ajuda a registrar uma região que, muitas vezes, corre o risco de ser conhecida apenas pelos mapas.
E isso possui enorme valor para os estudantes.
Porque conhecer a literatura produzida perto de casa também é uma forma de descobrir que a própria comunidade pode ser matéria-prima para a arte.
Arte, cidadania e escola
Foi justamente essa compreensão que levou Zeca a aproximar ainda mais sua produção artística das escolas.
Durante anos, esteve à frente do projeto Arte &Cidadania nas Escolas, iniciativa que levou música, poesia, literatura, teatro, artes plásticas, palestras e atividades de cidadania para estudantes da rede pública.
O projeto nasceu com a proposta de levar arte, ética e cidadania às escolas públicas e estimular crianças e adolescentes a desenvolver suas próprias aptidões artísticas.
Em diferentes edições, os estudantes participaram de apresentações de música, poesia e teatro, enquanto artistas e escritores locais apresentavam seus trabalhos.
Livros e CDs de artistas da região também eram distribuídos aos alunos.
E havia uma preocupação que merece destaque:
Não era apenas levar arte para os estudantes. Era descobrir a arte que já existia dentro deles.
Zeca chegou a afirmar que o projeto havia revelado cantores, compositores, poetas e pintores entre crianças e adolescentes participantes.
CantoVerso: Quando o violão entra na escola
E é nesse caminho que surge uma das iniciativas mais interessantes de sua trajetória recente: o projeto CantoVerso — “Violão, Recital e Playback nas Escolas Públicas”.
Divulgado por Zeca Tocantins em suas redes, o projeto foi aprovado pela Lei Aldir Blanc, com apoio da Secretaria de Cultura do Estado.
O próprio nome já revela sua proposta.
Canto.
Verso.
Duas palavras que representam boa parte da trajetória de Zeca.
De um lado, a música.
Do outro, a poesia.
No meio delas, a escola.
E essa combinação pode produzir algo muito maior do que uma simples apresentação artística.
Quando um violão entra em uma escola, ele pode despertar um aluno.
Quando um poema é declamado diante de uma turma, pode nascer um leitor.
Quando uma criança ou adolescente percebe que consegue cantar, escrever ou tocar, pode descobrir uma possibilidade que jamais havia imaginado para si.

A arte como ponte
A história de Zeca Tocantins mostra que a cultura não precisa ficar confinada aos teatros, às academias ou aos livros.
Ela pode entrar na sala de aula.
Pode ocupar o pátio.
Pode chegar à escola pública.
Pode conversar com o estudante.
Pode fazê-lo participar.
Pode ajudá-lo a descobrir sua própria voz.
E talvez esteja aí uma das maiores marcas de sua trajetória.
Zeca Tocantins não construiu sua vida artística apenas para ser ouvido.
Ele também trabalha para que outras pessoas encontrem sua própria voz.
Durante anos, sua presença nas escolas ajudou a aproximar estudantes da música, da poesia, da literatura e da cultura regional.
O antigo projeto Arte & Cidadania chegou a alcançar mais de cem escolas da região, segundo relato do próprio artista em entrevista publicada pela Revista Ritmo Melodia. Na ocasião, ele informou também que foram distribuídos milhares de livros e discos de artistas locais à rede estudantil.
Um artista que ensina sem precisar de quadro-negro
Talvez seja essa a melhor maneira de compreender Zeca Tocantins.
Ele é um artista, mas sua atuação ultrapassa o palco.
É escritor, mas sua literatura não fica presa às estantes.
É poeta, mas seus versos não vivem apenas nas páginas.
É músico, mas seu violão pode transformar-se em instrumento de aproximação.
E quando leva tudo isso para dentro de uma escola, sua arte assume uma nova função:
Ajudar jovens a descobrir que também podem criar.
Num tempo em que tantos estudantes precisam ser convencidos de que vale a pena ler, escrever, estudar e desenvolver seus talentos, iniciativas como o CantoVerso lembram uma verdade que nunca deveria ser esquecida.
A educação não acontece somente quando o professor fala e o aluno escuta.
Às vezes, ela acontece quando alguém pega um violão.
Quando alguém recita um poema.
Quando uma criança vence a timidez e sobe ao palco.
Quando um adolescente percebe que possui um talento.
Quando uma escola consegue fazer um estudante acreditar que sua voz também importa.
E talvez seja justamente por isso que a trajetória de Zeca Tocantins mereça ser conhecida pelos estudantes.
Porque sua história não fala apenas sobre um cantor, um poeta ou um escritor.
Fala sobre alguém que transformou a própria arte em uma ponte — entre cultura e escola, entre passado e futuro, entre quem ensina e quem ainda está descobrindo quem pode ser.
Fontes:
www.instagram.com/zecatocantins
www.facebook.com/acalanto-academiadeletrasdearaguaina
www.ritmomelodia.mus.br
Crédito das imagens:
(01) www.chatgpt.com/dall-e
(Baseado em imagem da capa do CD Divindade)
(02, 03) www.instagram.com/zecatocantins
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