Há uma cena que praticamente todo brasileiro conhece.
Um homem a cavalo…
Uma espada levantada…
Soldados ao redor…
Um riacho…
E um grito:
“Independência ou Morte!”
A imagem é tão forte que parece que o Brasil inteiro estava ali, naquele instante, esperando apenas que D. Pedro levantasse a espada para finalmente gritar: “Somos livres!!!”
Mas existe um problema.
A independência de nosso país não começou ali, no Riacho do Ipiranga!
E talvez essa seja uma das primeiras coisas que precisamos aprender sobre o 7 de Setembro.
A independência brasileira não foi uma cena de alguns minutos. Foi um processo político, militar, econômico e social que começou antes de 1822 e continuou depois daquela famosa tarde às margens do Ipiranga.
Em algumas regiões, portugueses e brasileiros chegaram a combater durante meses. Em outras, a adesão ao novo Império só aconteceu em 1823. E Portugal só reconheceria oficialmente a independência brasileira em 1825.
Por isso, neste 7 de Setembro, vale fazer algo diferente:
Em vez de apenas comemorar a independência, vamos tentar entendê-la.
Antes do grito, já havia muita coisa acontecendo
Para compreender 1822, precisamos voltar alguns anos.
Em 1808, a família real portuguesa transferiu-se para o Brasil diante das invasões napoleônicas. O Rio de Janeiro deixou de ser simplesmente uma cidade colonial e passou a ocupar uma posição completamente diferente dentro do mundo português.
Depois, em 1815, o Brasil foi elevado à condição de Reino, formando com Portugal e Algarves um Reino Unido.
Isso mudou profundamente a relação entre Brasil e Portugal.
Quando D. João VI retornou a Lisboa, em 1821, deixou seu filho, D. Pedro, no Brasil como príncipe regente.
E então começou a crescer no povo brasileiro o desejo de se tornar independente de Portugal. E, com isso, surgiu uma pergunta:
Quem deveria mandar no Brasil?
As Cortes portuguesas queriam recuperar o controle político sobre o território brasileiro e exigiam o retorno de D. Pedro a Portugal.
Foi nesse contexto que surgiu uma das frases mais famosas da nossa história:
“Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico.”
Era o chamado Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822.
Mas o “fico” ainda não era a independência.
Era apenas mais um passo.
Maria Leopoldina: A Regente que Antecipou o Futuro
O Brasil comemora sua independência em 7 de setembro, mas uma das decisões fundamentais para que ela acontecesse foi tomada cinco dias antes.
Em 2 de setembro de 1822, D. Pedro estava em São Paulo.
No Rio de Janeiro, sua esposa, Maria Leopoldina, exercia a regência.
As notícias vindas de Portugal eram preocupantes. As Cortes portuguesas pressionavam pelo retorno de D. Pedro e ameaçavam desmontar o arranjo político que vinha se formando no Brasil.
Leopoldina reuniu o Conselho de Estado.
A decisão foi recomendar que D. Pedro rompesse definitivamente com Portugal.
Ela e José Bonifácio enviaram cartas ao príncipe.
Dias depois, essas mensagens chegariam às mãos de D. Pedro.
Ou seja: quando D. Pedro recebeu as cartas no caminho de São Paulo, a decisão política de romper já vinha sendo construída.
O Ipiranga foi o momento simbólico.
A independência, porém, estava sendo preparada antes.
E aqui aparece uma personagem que os livros escolares durante muito tempo deixaram em segundo plano
Maria Leopoldina.
Quando falamos em Independência do Brasil, normalmente o primeiro nome lembrado é D. Pedro.
Depois, talvez José Bonifácio.
Mas Leopoldina merece um lugar muito maior nessa história.
Ela não era simplesmente a esposa do príncipe.
Em agosto de 1822, D. Pedro a nomeara chefe do Conselho de Estado e princesa regente interina do Brasil durante sua ausência.
Foi nessa condição que ela presidiu a reunião de 2 de setembro.
E foi nessa condição que participou diretamente da decisão que recomendou o rompimento.
É uma mudança importante de perspectiva.
Quando olhamos novamente para o famoso 7 de Setembro, percebemos que não havia apenas um homem tomando uma decisão solitária às margens de um riacho.
Havia ministros.
Havia conselheiros.
Havia correspondências.
Havia interesses políticos.
Havia conflitos.
E havia também uma mulher exercendo o governo do Brasil.

José Bonifácio: o homem que pensava o Brasil depois da independência
Outro personagem fundamental é José Bonifácio de Andrada e Silva.
Muito antes de o Brasil se tornar independente, ele já pensava em questões que iam muito além da separação de Portugal.
Para ele, não bastava simplesmente romper com Lisboa.
Era necessário construir um país.
E isso envolvia questões como organização política, território, economia e integração das diferentes regiões.
José Bonifácio também aparece entre os homens que aconselharam D. Pedro a romper com Portugal.
Sua carta chegou ao príncipe junto com a correspondência de Leopoldina e as determinações vindas de Lisboa.
Isso ajuda a desmontar outra ideia simplista:
a Independência não foi obra de um único herói.
Ela foi construída por muitas pessoas, com diferentes interesses e projetos.

E o povo? Estava todo mundo querendo a independência?
Aqui começa uma parte ainda mais interessante.
Não.
O território brasileiro não era politicamente uniforme.
Havia grupos favoráveis à separação.
Havia grupos que preferiam manter vínculos com Portugal.
Havia pessoas que defendiam diferentes modelos de governo.
Havia interesses econômicos regionais.
E havia conflitos entre elites locais e o governo sediado no Rio de Janeiro.
O próprio Arquivo Nacional destaca que o processo de independência teve desenvolvimentos diferentes em cada província, com disputas políticas e militares que se prolongaram para além de setembro de 1822.
Portanto, aquela ideia de que “o Brasil inteiro acordou no dia 7 e decidiu ser independente” é muito mais uma construção posterior do que uma descrição fiel da realidade.
A independência também foi uma guerra
Talvez esta seja uma das partes menos conhecidas da história.
A separação do Brasil de Portugal não aconteceu de maneira completamente pacífica.
Houve confrontos militares.
Na Bahia, por exemplo, forças favoráveis à independência enfrentaram tropas portuguesas.
A luta continuou durante meses e só terminou com a retirada das forças portuguesas em 2 de julho de 1823.
É por isso que, para os baianos, o 2 de Julho possui uma importância enorme: foi a data da entrada das forças brasileiras em Salvador e da consolidação da independência na província.
A própria USP destaca que a celebração baiana possui características próprias e uma participação popular que diferencia essa memória da narrativa mais tradicional do 7 de Setembro.
Isso nos ensina algo importante:
Há mais de uma data para contar a Independência do Brasil.
E o Maranhão? Demorou quase um ano para aderir
Aqui há uma situação particularmente interessante para os estudantes maranhenses.
O Maranhão não estava simplesmente esperando o grito do Ipiranga para aderir automaticamente à independência.
A província possuía fortes vínculos econômicos e comerciais com Portugal.
A proximidade marítima com a Europa fazia com que as relações com Lisboa fossem particularmente importantes para os grupos economicamente dominantes.
Houve resistência.
Houve conflitos.
Houve pressão militar.
E somente em 28 de julho de 1823 São Luís oficializou a adesão ao Império do Brasil.
Enquanto o Brasil já comemorava a independência, o Maranhão ainda estava vivendo sua própria batalha política pela independência.
O Pará também teve seu próprio capítulo
O processo não terminou no Maranhão.
Segundo a cronologia diplomática da Fundação Alexandre de Gusmão, a capitulação de grupos leais a Portugal em Belém ocorreu em 13 de agosto de 1823.
Isso significa que o processo de integração do enorme território brasileiro ao novo Império foi acontecendo aos poucos.
O “Brasil independente” precisava, na prática, convencer, negociar ou combater diferentes forças espalhadas pelo território.
É muito diferente da imagem de uma independência instantânea.
Então… quando o Brasil realmente ficou independente?
Então!
Essa pergunta parece simples.
Mas a resposta não é.
Podemos apontar 7 de setembro de 1822 como o marco simbólico da proclamação.
Mas a consolidação política e militar ocorreu posteriormente.
E existe ainda outro detalhe impressionante:
Portugal só reconheceu oficialmente a independência do Brasil em 29 de agosto de 1825, por meio do Tratado de Paz, Amizade e Aliança.
Portanto, entre o famoso grito do Ipiranga e o reconhecimento diplomático português passaram-se quase três anos.
Isso muda completamente a maneira de enxergar a data.
O 7 de Setembro não foi o fim de uma história.
Foi o início de uma nova etapa.
Mas… independente para quem?
Agora chegamos talvez à pergunta mais importante!.
Independência para quem?
Em 1822, o Brasil deixou de ser politicamente subordinado a Portugal.
Mas milhões de pessoas continuaram sem liberdade.
A escravidão permaneceu.
Pessoas escravizadas não passaram a ser livres porque D. Pedro proclamou a independência.
A própria estrutura social brasileira continuou profundamente desigual.
Dados históricos reunidos pelo IBGE indicam que, em torno de 1822, o Brasil tinha aproximadamente 4 milhões de habitantes, dos quais cerca de 1 milhão eram escravizados de origem africana, além de aproximadamente 800 mil indígenas.
Portanto, existe uma contradição enorme escondida atrás da palavra independência.
O Brasil tornou-se independente de Portugal.
Mas uma enorme parcela de sua população continuou submetida à escravidão.
Essa contradição acompanharia o país por décadas.
A escravidão só seria abolida em 1888, 66 anos depois do 7 de Setembro.
A independência mudou o governo. Não mudou tudo.
A independência brasileira provocou uma mudança gigantesca:
o Brasil passou a ter um governo próprio e deixou de fazer parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
Mas muitas estruturas sociais permaneceram.
A escravidão permaneceu.
A concentração de riqueza permaneceu.
As desigualdades permaneceram.
A monarquia permaneceu.
E o poder político continuou concentrado nas mãos de uma parcela pequena da população.
Por isso, independência política e transformação social não são exatamente a mesma coisa.
E aquela famosa pintura de Pedro Américo?
Agora podemos voltar à imagem que todos conhecem e que ilustra este artigo.
“Independência ou Morte“, de Pedro Américo.
Ela é monumental.
D. Pedro aparece montado em um cavalo, espada erguida, cercado por soldados.
É uma das imagens mais poderosas da história brasileira.
Mas existe uma coisa que o estudante precisa saber:
A pintura não é uma fotografia do que aconteceu naquele dia.
Pedro Américo pintou a obra décadas depois, em um contexto em que a memória da Independência já havia sido transformada em símbolo nacional.
O próprio Jornal da USP destaca que a famosa cena não corresponde exatamente à realidade histórica daquele momento e faz parte da construção simbólica da memória nacional.
A arte, nesse caso, não está simplesmente registrando a História.
Está ajudando a criar a maneira como uma sociedade deseja lembrar sua própria História.
Talvez D. Pedro nem estivesse vivendo aquele momento como a pintura mostra
A cena monumental sugere uma espécie de espetáculo heroico.
Mas a realidade era muito menos cinematográfica.
D. Pedro estava viajando.
Havia uma comitiva.
Havia problemas políticos em São Paulo.
Havia correspondências urgentes.
Havia cavalos, mensageiros e documentos.
E havia uma situação política que já estava amadurecendo.
A Biblioteca Nacional registra que os mensageiros entregaram a D. Pedro cartas de Leopoldina, José Bonifácio e outras correspondências no dia 7 de setembro.
Isso torna a história, paradoxalmente, ainda mais interessante.
Porque descobrimos que a Independência não nasceu de uma frase cinematográfica.
Nasceu também de cartas.
O Brasil não nasceu pronto
Talvez esta seja a maior lição que o 7 de Setembro pode oferecer aos estudantes.
Um país não fica pronto quando declara sua independência.
Ele precisa ser construído.
Depois de 1822, o Brasil ainda precisou enfrentar enormes desafios:
- consolidar seu território;
- organizar suas instituições;
- elaborar uma Constituição;
- enfrentar revoltas;
- resolver conflitos regionais;
- construir uma identidade nacional;
- lidar com profundas desigualdades;
- e, principalmente, enfrentar a questão da escravidão.
A independência foi apenas uma etapa.
A construção do Brasil continuou.
E continua até hoje
É aqui que o 7 de Setembro deixa de ser apenas uma data no livro de História.
Porque podemos fazer uma pergunta que D. Pedro, Leopoldina e José Bonifácio jamais poderiam imaginar:
o que significa ser independente no século XXI?
Um país é independente apenas porque possui uma bandeira?
Porque possui território?
Porque possui governo?
Ou independência também significa ter capacidade de decidir seu próprio futuro?
Ter ciência.
Ter tecnologia.
Ter educação.
Ter instituições fortes.
Ter capacidade de produzir conhecimento.
Cuidar de seus recursos naturais.
Defender seus interesses sem precisar se submeter automaticamente aos interesses de outros países.
Essas são questões contemporâneas sobre soberania, um conceito que vai além da independência política conquistada em 1822.
Talvez o verdadeiro grito de independência seja outro
Em 1822, o grito simbólico foi:
“Independência ou Morte!”
Duzentos e quatro anos depois, talvez o Brasil precise de outros gritos.
Um grito pela educação.
Um grito pela ciência.
Um grito contra a ignorância.
Um grito contra o racismo.
Um grito contra a pobreza.
Um grito pela preservação da Amazônia.
Um grito pela democracia.
Um grito por oportunidades para quem nasceu longe dos grandes centros.
Um grito para que nenhum jovem precise abandonar seus sonhos porque não teve acesso a uma boa escola.
Porque existe uma diferença enorme entre ter conquistado a independência e ser capaz de construir uma sociedade verdadeiramente livre.
Fontes:
www.bndigital.bn.gov.br
www.gov.br/arquivonacional
www.gov.br/arquivonacional
www.gov.br/funag
www.gov.br/sib
www.jornal.usp.br
www.fflch.usp.br
www.bndigital.bn.gov.br
Crédito das imagens:
(01) www.museudoipiranga.org.br
(02) www.mhn.museus.gov.br
(03) www.pt.wikiquote.org
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