Os números divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, deveriam provocar mais do que uma rápida manchete nos jornais.
Deveriam provocar uma pergunta em cada sala de aula brasileira:
Estamos estudando o suficiente para construir o futuro que queremos?
O PISA — Programa Internacional de Avaliação de Estudantes — avaliou, em 2025, cerca de 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países e economias. No Brasil, participaram 30.140 estudantes.
O exame avaliou principalmente três grandes áreas: Ciências, Matemática e Leitura. Em 2025, Ciências foi a principal área da avaliação.
E o resultado brasileiro foi, mais uma vez, preocupante.
As notas do Brasil no PISA 2025
Os estudantes brasileiros obtiveram:

Os números mostram que o Brasil ficou abaixo da média da OCDE nas três áreas.
Matemática foi, novamente, o maior problema.
Com 377 pontos, o Brasil ficou em 71º lugar entre 89 participantes com resultado comparável nessa área.
Em Ciências, foram 409 pontos, colocando o país na 67ª posição entre 90 participantes.
Em Leitura, o resultado foi de 408 pontos, levando o Brasil ao 52º lugar entre 89 participantes.
É um resultado difícil de comemorar.
Mas também é importante compreender exatamente o que aconteceu.
Afinal, o Brasil melhorou ou piorou?
A resposta mais correta é:
o Brasil ficou praticamente estagnado.
Em 2022, o país havia obtido:
- 379 pontos em Matemática;
- 410 em Leitura;
- 403 em Ciências.
Em 2025, passou para:
- 377 em Matemática;
- 408 em Leitura;
- 409 em Ciências.
Ou seja:
Matemática: -2 pontos
Leitura: -2 pontos
Ciências: +6 pontos
Matemática: o alerta mais forte
Os números de Matemática talvez sejam os mais preocupantes.
Somente cerca de 28% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência, contra cerca de 65% na média da OCDE.
Isso significa que uma grande parcela dos nossos jovens apresenta dificuldades em situações matemáticas relativamente básicas do cotidiano.
Interpretar preços.
Comparar alternativas.
Compreender uma conta.
Analisar dados.
Interpretar informações.
Resolver um problema simples.
Matemática não é apenas uma matéria da escola.
É uma ferramenta para a vida.
Leitura: sem compreender o que se lê, todo o resto fica mais difícil
Também não podemos ignorar os 408 pontos obtidos em Leitura.
Apenas cerca de 49% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2, contra 69% na média da OCDE.
E aqui existe uma questão que deveria preocupar profundamente todos nós.
Um estudante que lê pouco tende a encontrar dificuldades em praticamente todas as outras disciplinas.
Porque História exige leitura.
Geografia exige leitura.
Ciências exige leitura.
Matemática também exige interpretação.
Até uma questão aparentemente simples pode se tornar difícil quando o estudante não consegue compreender exatamente o que está sendo perguntado.
Quem não lê perde uma parte importante da capacidade de aprender.
Ciências: uma modesta evolução
Ciências foi a única área em que o Brasil apresentou melhora significativa em relação a 2022.
A nota passou de 403 para 409 pontos.
É uma evolução modesta, mas merece ser reconhecida.
A Ciência ensina algo fundamental: observar, questionar, levantar hipóteses, testar, analisar evidências e chegar a conclusões.
Seis pontos podem parecer pouco diante do tamanho do desafio.
Mas toda caminhada começa com um primeiro passo.
Que essa pequena evolução seja mais do que um número em uma tabela: que seja um sinal de que ainda podemos — e precisamos — avançar muito mais.
O mundo também está enfrentando problemas
Há outro detalhe importante.
Não é apenas o Brasil que está enfrentando dificuldades.
A própria OCDE informou que o desempenho médio dos países que compõem a organização caiu fortemente em Matemática e Leitura. A edição de 2025 registrou os menores resultados médios históricos da OCDE nessas duas áreas.
Nem mesmo a Finlândia, símbolo da educação de qualidade, ficou imune — recuou 80 pontos em Matemática e 73 em Leitura. Atrás do país nórdico nessas duas áreas avaliadas, Portugal e Espanha também apresentaram perdas consideráveis.
Em outras palavras, existe uma crise internacional de aprendizagem.
Mas isso não pode servir como desculpa para o Brasil.
Porque, mesmo em um cenário mundial complicado, alguns países continuam apresentando resultados extraordinários.
Quando o mundo olha para o topo da tabela
A China (ou B-S-J-Z (China), um conjunto formado por Beijing (Pequim), Shanghai, Jiangsu e Zhejiang) liderou em Matemática, com impressionantes 612 pontos, e em Ciências, com 597 pontos.
Já Singapura ficou em primeiro lugar em Leitura, com 535 pontos.
A distância não é pequena.
Enquanto B-S-J-Z (China) alcançou 612 pontos em Matemática, o Brasil ficou em 377 — uma diferença de 235 pontos.
Em Ciências, foram 597 contra 409 — diferença de 188 pontos.
Em Leitura, Singapura chegou a 535 pontos, enquanto o Brasil marcou 408 — 127 pontos de diferença.
Além de B-S-J-Z (China) e Singapura, a Estônia, o Japão, a Coreia do Sul, Macau, Taiwan e o Reino Unido ficaram entre os dez melhores, nas três áreas pesquisadas.
Diante de um abismo estatístico tão evidente, a mera lamentação pelos resultados nacionais se torna insuficiente. Esses dados não revelam apenas uma distância em pontos, mas sim um descompasso estrutural entre os modelos educacionais desses países e o nosso..
A pergunta, portanto, precisa ir além de “Por que o Brasil foi mal?”
Precisamos perguntar:
O que esses países estão fazendo — na escola, na família, na formação dos professores e na relação dos próprios estudantes com o conhecimento — que nós ainda não conseguimos fazer na mesma escala?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que o PISA 2025 deixa para o Brasil.
E dentro do Brasil? Quem se saiu melhor?
O ranking dos 27 estados brasileiros por desempenho geral no Pisa 2025 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), divulgado oficialmente pela OCDE, consagra o Paraná em primeiro lugar isolado nacional.
O estado superou todas as unidades federativas e as médias de todos os países da América Latina nas competências avaliadas (Ciências, Leitura, Matemática e Resolução de Problemas Computacionais)
O estado de São Paulo conquistou a segunda colocação, seguido de perto por Santa Catarina e Minas Gerais. A média geral do Brasil ficou fixada em 398 pontos.
Segue abaixo o ranking:

Como podemos ver, há experiências dentro do próprio Brasil que merecem ser estudadas.
Se alguns estados conseguem resultados melhores, a pergunta é:
O que eles estão fazendo de diferente?
Mas há uma pergunta ainda mais incômoda a ser feita!
Por que nossos estudantes continuam tendo tanta dificuldade?
Não existe uma única resposta.
A qualidade da educação depende de professores, escolas, infraestrutura, políticas públicas, formação docente, condições socioeconômicas, participação familiar, hábitos de estudo e muitos outros fatores.
A própria OCDE mostra que a situação socioeconômica possui forte relação com o desempenho. No Brasil, a diferença em Ciências entre os estudantes dos 25% mais favorecidos e os 25% menos favorecidos chegou a 96 pontos, acima da diferença média de 85 pontos observada entre os países da OCDE.
Portanto, seria injusto colocar toda a responsabilidade sobre os estudantes.
Mas também seria injusto retirar deles toda e qualquer responsabilidade.
E aqui está uma discussão que precisa ser feita com coragem.
O estudante também precisa olhar para o próprio espelho
Não podemos falar de educação apenas apontando o dedo para o governo.
Nem apenas para a escola.
Nem somente para o professor.
O estudante também precisa perguntar o que está fazendo com o próprio tempo.
Porque existe um patrimônio que todos recebem igualmente, independentemente de serem ricos ou pobres:
TEMPO!
E o tempo perdido não volta.
Uma tarde passada estudando pode produzir conhecimento.
Uma hora lendo pode ampliar o vocabulário.
Uma lista de exercícios pode transformar uma dificuldade em domínio.
Uma pesquisa pode despertar uma profissão.
Um livro pode apresentar uma ideia capaz de mudar uma vida.
Mas horas e horas consumidas apenas passando o dedo pela tela podem desaparecer sem deixar praticamente nada.
TikTok, Kwai, Instagram, vídeos curtos e outras plataformas podem ter conteúdos interessantes, educativos e até úteis. O problema não é simplesmente usar redes sociais.
O problema é quando elas passam a usar o estudante.
Quando cinco minutos viram uma hora.
Quando uma hora vira três.
Quando a pessoa abre o celular para “dar uma olhadinha” e, quando percebe, perdeu uma parte preciosa do dia.
A distração também disputa o futuro
A própria OCDE vem chamando atenção para a relação entre uso digital, distração e aprendizagem.
Os dados do PISA 2025 indicam que o uso moderado de recursos digitais para aprender pode estar associado a melhores resultados, mas o uso excessivo e a distração digital estão associados a desempenhos mais fracos.
Mais de um quarto dos estudantes relatou que seus colegas ficam distraídos por dispositivos digitais em grande parte ou em praticamente todas as aulas de Ciências.
E existe outro dado que deveria fazer qualquer estudante pensar.
O PISA 2025 identificou uma queda em diversos indicadores relacionados à curiosidade e à perseverança dos jovens.
Em média nos países da OCDE, 60% dos estudantes disseram que fazem esforço adicional quando o trabalho fica difícil, enquanto 52% afirmaram que continuam uma tarefa mesmo quando ela se torna entediante.
Além disso, em 65 dos 69 sistemas com dados comparáveis, aumentou a proporção de estudantes que disseram abandonar o dever de casa quando ele é muito longo.
Isso revela um problema que vai muito além das notas:
a dificuldade de permanecer concentrado quando aprender exige esforço.
O problema não é o celular. É a falta de equilíbrio.
Um celular pode ser uma biblioteca.
Pode ser uma calculadora.
Pode ser uma câmera.
Pode ser um laboratório.
Pode ser uma ferramenta de pesquisa.
Pode até ser um tutor de Inteligência Artificial.
Mas também pode ser uma máquina de distração.
A diferença está em quem controla quem.
E há uma ironia no PISA 2025: quase metade dos estudantes brasileiros utiliza ferramentas de Inteligência Artificial pelo menos uma vez por semana para estudar.
Isso pode ser extraordinariamente positivo.
Mas somente se a tecnologia estiver ajudando o estudante a pensar.
Se estiver apenas fazendo o trabalho por ele, teremos um jovem que sabe consultar máquinas, mas não sabe resolver problemas sozinho.
E o mundo do futuro exigirá justamente o contrário.
Um resultado ruim não precisa ser uma sentença
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“O estudante brasileiro não consegue aprender.”
e dizer:
“O estudante brasileiro ainda não aprendeu o suficiente.”
A primeira frase fecha a porta.
A segunda abre uma possibilidade.
E é justamente aí que entra a esperança.
O PISA não é uma sentença sobre o futuro de uma geração.
É um diagnóstico.
E diagnóstico serve para mostrar onde está o problema para que possamos agir.
Estudante, o seu futuro está sendo construído agora
Talvez você tenha 14, 15, 16 ou 17 anos.
Talvez ainda não saiba qual profissão deseja seguir.
Talvez ainda não tenha ideia de onde estará daqui a dez anos.
Tudo bem.
Você não precisa ter todas as respostas agora.
Mas existe uma coisa que precisa compreender:
cada hora de estudo é um investimento na pessoa que você será amanhã.
Enquanto você estuda, talvez outro jovem esteja apenas rolando a tela do celular.
Enquanto você lê um livro, outro pode estar gastando duas horas assistindo a vídeos que esquecerá amanhã.
Enquanto você resolve uma questão difícil, alguém pode estar dizendo que estudar “não serve para nada”.
Não permita que os outros decidam o tamanho do seu futuro.
Você não precisa ser o melhor da turma. Precisa começar.
Não precisa estudar dez horas por dia.
Não precisa gostar de todas as matérias.
Não precisa acertar tudo de primeira.
Precisa apenas começar a levar seus estudos mais a sério.
Leia um pouco mais.
Pergunte quando não entender.
Faça exercícios.
Revise.
Desligue o celular por algum tempo.
Troque algumas horas de distração por algumas horas de construção.
Procure descobrir aquilo que ainda não sabe.
E, principalmente, não desista quando ficar difícil.
Porque é justamente quando alguma coisa fica difícil que começa a diferença entre quem apenas passa pela escola e quem realmente aprende.
A educação ainda é uma das maiores portas para mudar uma vida
O PISA 2025 nos trouxe números preocupantes.
Mas talvez o maior ensinamento não esteja nos 377 pontos de Matemática.
Nem nos 408 de Leitura.
Nem nos 409 de Ciências.
Está naquilo que podemos fazer depois de conhecer esses números.
Podemos lamentar.
Podemos culpar.
Podemos procurar desculpas.
Ou podemos mudar.
O Brasil precisa melhorar sua educação. As escolas precisam melhorar. Os governos precisam melhorar. As famílias precisam participar mais. Os professores precisam ser valorizados.
Mas os estudantes também precisam fazer a sua parte.
Porque nenhuma política educacional conseguirá estudar no lugar do aluno.
Nenhum professor poderá aprender por ele.
Nenhum aplicativo poderá construir seu conhecimento se ele não quiser aprender.
E nenhuma inteligência artificial poderá substituir aquilo que talvez seja o maior patrimônio de um jovem:
a vontade de crescer.
O mundo está mudando numa velocidade impressionante.
Novas profissões estão surgindo.
A Inteligência Artificial está transformando o mercado de trabalho.
Máquinas estão aprendendo.
Robôs estão sendo desenvolvidos para executar tarefas cada vez mais complexas.
Nesse mundo, quem possuir conhecimento terá mais possibilidades.
Quem souber pensar terá mais possibilidades.
Quem souber aprender terá mais possibilidades.
E quem continuar aprendendo durante toda a vida terá ainda mais.
Por isso, estudante, não desperdice os melhores anos da sua vida.
Use o seu tempo para construir aquilo que ninguém poderá tirar de você: conhecimento.
O vídeo que você deixa de assistir hoje será esquecido.
A postagem que você deixa de curtir desaparecerá.
A tendência das redes sociais mudará.
Mas aquilo que você aprender ficará dentro de você.
Estude. Leia. Pergunte. Insista.
Talvez você ainda não saiba exatamente onde a educação poderá levá-lo.
Mas pode ter certeza de uma coisa:
Ela poderá levá-lo muito mais longe do que a distração jamais conseguirá.
Fontes:
www.www1.folha.uol.com.br
www.cnnbrasil.com.br
www.oecd.org
Crédito da imagem:
www.oecd.org
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