Você já parou para pensar no lugar onde nasceu?
Não apenas na cidade que aparece em sua certidão de nascimento.
Mas naquele lugar que permanece em você mesmo quando está longe.
A paisagem da infância.
O cheiro da chuva.
O rio que atravessa a cidade.
A floresta.
As pessoas.
As histórias que vieram antes de nós.
As marcas deixadas por quem construiu caminhos antes da nossa chegada.
Talvez identidade seja justamente isso: uma parte do mundo que aprendemos a carregar dentro de nós.
Para a poetisa rondoniense Michele Magalhães, essa identidade tem água, floresta, ancestralidade, coragem e história.
Tem também a força de um povo.
E tem a Amazônia.
No poema que apresentamos hoje, Michele não fala de Rondônia simplesmente como quem descreve um lugar.
Ela fala de Rondônia como quem se reconhece parte dela.
E talvez seja por isso que Identidade seja um poema tão pequeno no tamanho e tão grande no significado.
Quem é Michele Magalhães?

Michele Nascimento Melo Magalhães nasceu em 11 de agosto de 1984, em Porto Velho, Rondônia.
Segundo informações biográficas divulgadas pela própria autora, viveu durante muitos anos na capital rondoniense e, desde 2018, mora em Colorado do Oeste, também em Rondônia.
Sua trajetória é marcada por uma combinação pouco comum de áreas do conhecimento.
Michele é formada em Matemática e em Letras – Inglês e suas Respectivas Literaturas, pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Também possui mestrado em Engenharia de Energia, pela Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI).
Mais tarde, aproximou-se ainda mais do universo dos livros ao especializar-se em Biblioterapia e Mediação da Leitura Literária, pela Unochapecó.
Matemática.
Literatura.
Energia.
Leitura.
Poesia.
À primeira vista, são caminhos muito diferentes.
Mas talvez todos tenham alguma coisa em comum: a busca pelo conhecimento e pela compreensão do mundo.
A poesia que ficou guardada nos cadernos
Michele conta que sempre escreveu.
Durante muito tempo, porém, seus textos permaneceram escondidos em cadernos. Algumas vezes, chegava a jogar fora aquilo que havia escrito.
Até que decidiu criar no Instagram a página @partilharpoesia.
A ideia inicial era curiosa: seria um espaço fechado, praticamente um lugar de Michele para Michele, destinado a guardar seus próprios textos.
Mas, em algum momento, ela resolveu abrir a porta.
E os textos que antes permaneciam escondidos começaram a encontrar leitores.
Hoje, sua produção reúne poesia, colagens, indicações de livros, leituras e experiências relacionadas à biblioterapia.
O projeto tornou-se, portanto, muito maior do que um simples lugar para guardar poemas.
Transformou-se em uma maneira de partilhar aquilo que a literatura desperta.
Uma poetisa de muitas formas
A apresentação de Michele na Revista Bem Viver Compartilhando Saberes, publicada em 2026, traz uma definição bonita da própria autora: ela se apresenta como “escritora de versos livres e alma leve”, fascinada pelas “miudezas” e interessada em levar para a escrita aquilo que a encanta e também aquilo que a espanta.
A revista também registra três livros de sua autoria:
- Jardim semeado a lápis;
- Sob minhas águas;
- Na iminência de ser.
Em Jardim semeado a lápis, por exemplo, a autora utiliza a imagem de um jardim para falar de transformação, perdas, recomeços e da necessidade de cultivar aquilo que existe dentro de nós.
Em Na iminência de ser, pequenos poemas abordam sentimentos, experiências cotidianas, perdas, sonhos e a própria condição humana.
E em Sob minhas águas, a própria imagem das águas sugere uma viagem para dentro de si. A obra reúne poemas que exploram sentimentos, memórias, inquietações e experiências humanas, como quem mergulha nas profundezas da própria existência para encontrar aquilo que nem sempre conseguimos dizer em voz alta.
São livros que ajudam a perceber uma característica presente em sua escrita: Michele gosta de transformar experiências interiores em imagens.
E em Identidade, poema que escolhemos para presentear nossos leitores hoje, essa imagem ganha uma dimensão ainda maior.
Porque não é apenas o “eu” que aparece.
É também o “lugar” de onde esse “eu” veio.
Quando a Amazônia vira identidade
É impossível ler Identidade sem perceber a presença da Amazônia.
Mas existe uma diferença importante.
Michele não trata a Amazônia simplesmente como cenário.
Ela a coloca dentro do próprio corpo.
E é exatamente aí que o poema começa a ganhar força.
Façamos uma pausa agora e deleitemo-nos com o belo poema de Michele Magalhães: IDENTIDADE!
POEME-SE!!!

“Carrego no peito”
O primeiro verso já diz quase tudo:
“carrego no peito”
Michele não escreve simplesmente que conhece sua terra.
Ela diz que a carrega.
E o que ela carrega?
“a força do povo / originário”
Aqui, o poema olha para aqueles que estavam nesta terra antes de muitos dos processos históricos que vieram depois.
É uma referência à presença e à força dos povos originários da Amazônia.
A identidade, portanto, não começa apenas na pessoa que fala.
Ela vem de muito antes.
Vem de uma história anterior à própria existência do poeta.
“Sou descendente”
Na segunda parte, Michele escreve:
“sou descendente
dos destemidos
pioneiros”
O poema passa então da ancestralidade para aqueles que chegaram depois e participaram da formação de Rondônia.
É importante perceber como a autora constrói sua identidade em camadas.
Primeiro:
povo originário.
Depois:
pioneiros.
E, em seguida, a própria natureza.
É como se diferentes partes da história de Rondônia se encontrassem dentro de uma única pessoa.
O rio entra no corpo
Então chegamos a uma das imagens mais bonitas do poema:
“corre em minhas veias
as caudalosas águas”
A poeta poderia simplesmente dizer que ama os rios.
Mas faz algo muito mais forte.
Ela coloca as águas correndo em suas veias.
O rio deixa de estar fora.
Passa a estar dentro.
É uma imagem poética poderosa porque transforma a natureza em parte da própria identidade.
O sangue e a água se aproximam simbolicamente.
O corpo da poeta passa a carregar a paisagem amazônica.
“Minha pele reflete sua negra cor”
Este talvez seja o trecho que exige uma leitura mais cuidadosa.
Michele escreve:
“e a minha pele reflete
sua negra cor”
A poeta aproxima sua própria negritude da imagem das águas e da paisagem amazônica que deseja representar.
Não se trata simplesmente de descrever uma cor.
É uma afirmação de pertencimento.
A pele torna-se também lugar de identidade.
E isso ajuda a compreender por que o poema não é apenas uma descrição de Rondônia.
É um poema sobre quem a poetisa é.
“Essência amazônica”
Depois de passar pelo povo, pelos pioneiros, pelos rios e pela própria pele, Michele chega ao verso final:
“tenho a essência
amazônica
por natureza”
É uma conclusão curta.
Quase parece uma frase simples.
Mas, depois de tudo o que foi dito antes, ela ganha outro peso.
A autora não está apenas dizendo:
“Nasci na Amazônia.”
Está dizendo, poeticamente:
“A Amazônia faz parte de mim.”
Uma identidade feita de muitas histórias
Talvez uma das maiores riquezas do poema esteja justamente aí.
Quando pensamos em identidade, geralmente pensamos em nome, sobrenome, cidade, família, aparência ou profissão.
Michele nos convida a ampliar essa ideia.
Identidade também pode ser:
a terra onde nascemos;
as pessoas que vieram antes de nós;
as histórias que herdamos;
as águas que atravessam nosso território;
as paisagens que marcaram nossa infância;
a cultura que recebemos;
e até aquilo que escolhemos preservar.
Somos indivíduos.
Mas também somos feitos de histórias.
Rondônia dentro de uma poetisa
Michele nasceu em Porto Velho e atualmente vive em Colorado do Oeste.
Sua relação com Rondônia, portanto, não é apenas literária.
É vivencial.
Em 2025, seu nome também apareceu entre os participantes da Mostra de Arte, Cultura e Literatura do Poder Judiciário de Rondônia, com Identidade classificado como poema dentro do projeto “Pegadas na areia – memória e pertencimento”.
E isso combina perfeitamente com o poema.
Porque Identidade é, acima de tudo, um poema de pertencimento.
Não por acaso, “Origem”, “Pertencimento” e “Amazônia” aparecem justamente como palavras-chave da publicação de 2026.
A matemática e a poesia
Existe ainda uma curiosidade bonita na trajetória de Michele.
Ela estudou Matemática.
E também estudou Letras.
Pode parecer uma combinação improvável.
Mas talvez não seja.
A Matemática procura relações, estruturas, padrões e formas de compreender o mundo.
A poesia também procura relações.
Só que, muitas vezes, trabalha com aquilo que não cabe em números:
sentimentos,
memórias,
silêncios,
imagens,
saudades,
esperanças,
identidade.
Talvez seja possível dizer que Michele percorreu dois caminhos diferentes para tentar compreender a mesma coisa:
o mundo e aquilo que existe dentro de nós.
Quando a literatura também pode cuidar
A aproximação de Michele com a biblioterapia acrescenta outra dimensão à sua trajetória.
Durante a pandemia, ela conheceu esse campo por meio das atividades conduzidas por Carla Sousa, do projeto Doses de Biblioterapia. O interesse cresceu e levou Michele a uma especialização em Biblioterapia e Mediação da Leitura Literária.
Ela também relatou sua intenção de trabalhar com biblioterapia junto às mães da AMA Conesul, associação ligada às famílias de pessoas autistas de sua região. Sua experiência nessa área foi registrada no livro Mergulho na Biblioterapia.
Assim, livros e poesia não aparecem em sua vida apenas como objetos de leitura.
Também podem ser caminhos de encontro.
De escuta.
De reflexão.
E, em determinadas situações, de cuidado.
Uma poetisa que escreve para não deixar as coisas desaparecerem
Talvez exista uma bela ligação entre a Michele que guardava poemas em cadernos e a Michele que hoje os compartilha.
Antes, ela escrevia e às vezes deixava desaparecer.
Depois, passou a guardar.
E finalmente passou a compartilhar.
Isso é significativo.
Porque escrever também pode ser uma forma de dizer:
“Isto aconteceu comigo.
Isto me tocou.
Isto merece permanecer.”
E talvez seja justamente isso que a poesia faz de melhor.
Ela salva pequenas coisas do esquecimento.
E o que “Identidade” nos ensina?
Que ninguém é feito de uma única história.
Dentro de uma pessoa podem existir muitas outras pessoas.
Existem os pais.
Os avós.
Os antepassados.
Existem os lugares onde vivemos.
Existem as paisagens que nos ensinaram a olhar.
Existem as palavras que ouvimos.
Existem as experiências que nos transformaram.
E existe aquilo que escolhemos fazer com tudo isso.
Michele transforma parte dessa herança em poesia.
E, ao fazê-lo, transforma sua identidade pessoal em uma pequena janela para uma identidade maior:
A IDENTIDADE AMAZÔNICA!
A lição que fica
Talvez você não tenha nascido em Rondônia.
Talvez nunca tenha visto o Rio Madeira.
Talvez nunca tenha caminhado por uma floresta amazônica.
Talvez sua paisagem seja outra.
Mas há umas perguntinhas que Michele nos deixa:
O que você carrega no peito?
Que histórias vieram antes de você?
Que pessoas ajudaram a construir quem você é?
Que lugar vive dentro da sua memória?
Que marcas da sua terra aparecem em seus sonhos, em suas palavras, em seu jeito de olhar o mundo?
Porque todos nós carregamos alguma coisa.
Alguns carregam o mar.
Outros, a montanha.
Outros, o sertão.
Outros, a cidade.
Outros carregam a lembrança de uma pequena casa, de uma rua, de uma árvore, de um quintal.
E há quem carregue um rio.
Michele Magalhães carrega a Amazônia.
E fez daquilo que carrega um poema.
Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que a poesia pode fazer:
pegar aquilo que pertence a uma pessoa
e transformá-lo em algo que passa a pertencer também
a quem lê.
E quando terminamos de ler, percebemos que a Amazônia descrita por Michele já não está apenas em Rondônia.
Por alguns instantes,
ela também corre dentro de nós.
Fontes:
www.periodicos.emeron.edu.br
www.www.instagram.com/partilharpoesia
Crédito das imagens:
(01, 03) www.instragram.com/partilharpoesia
(02) www.magnific.com (Moldura do poema)
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