“A paz não depende apenas do fim das guerras. Ela também precisa de justiça, respeito e leis que protejam todas as pessoas, sem distinção”.
Foi com essa mensagem que a jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2026. Aos 85 anos, ela foi reconhecida por uma vida dedicada à defesa dos direitos humanos e ao fortalecimento da Justiça internacional.
Mas quem é essa mulher? E por que seu trabalho é tão importante para pessoas que vivem em diferentes partes do mundo?
Vamos conhecer um pouco de sua história???
Quem é Navi Pillay?

Navi Pillay nasceu em 1941, na cidade de Durban, na África do Sul. Sua família tem origem tâmil indiana, e ela cresceu em uma época em que seu país era marcado pelo apartheid.
Mas o que significa essa palavra?
O apartheid foi um sistema de segregação racial que separava as pessoas de acordo com a cor da pele. A população negra sofria graves restrições de direitos, enquanto a minoria branca mantinha privilégios e grande parte do poder político.
Foi nesse ambiente de desigualdade que Navi Pillay decidiu estudar Direito.
Naquela época, seguir uma carreira jurídica representava um grande desafio para uma mulher que enfrentava tanto a discriminação racial quanto as barreiras impostas às mulheres.
Mesmo assim, ela persistiu. Tornou-se advogada e passou a trabalhar na defesa de pessoas que sofriam injustiças.
Sua trajetória começava a mostrar que o conhecimento, a coragem e a determinação poderiam ajudar a transformar a sociedade.
Uma advogada que defendeu Nelson Mandela

Entre as pessoas que Navi Pillay ajudou durante sua carreira estava Nelson Mandela, importante líder da luta contra o apartheid e futuro presidente da África do Sul.
Mandela também recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1993, por seus esforços para acabar com o regime de segregação racial e contribuir para a construção de uma sociedade democrática.
Ao defender Mandela e outros ativistas contrários ao apartheid, Pillay participou de uma luta histórica por direitos e liberdade.
Ela sabia que a Justiça não deveria servir apenas aos poderosos. Precisava proteger também aqueles que eram perseguidos, discriminados ou impedidos de exercer seus direitos.
Sua carreira abriu caminhos para outras mulheres. Em 1967, ela se tornou a primeira mulher a estabelecer um escritório de advocacia na então província sul-africana de Natal.
Anos depois, também se tornou a primeira mulher negra a ocupar um cargo de juíza na Suprema Corte daquela província.
Essas conquistas demonstram como a persistência pode ajudar a romper barreiras e abrir portas para outras pessoas.
Da África do Sul para a Justiça internacional
O trabalho de Navi Pillay não ficou restrito ao seu país.
Ela passou a atuar em instituições internacionais responsáveis por investigar crimes graves e contribuir para que seus responsáveis fossem julgados.
Uma de suas funções mais importantes foi a de juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda.
Esse tribunal foi criado para julgar responsáveis por crimes cometidos durante o genocídio de 1994 em Ruanda, país africano onde centenas de milhares de pessoas foram assassinadas.
Naquele tribunal, Pillay teve participação importante em um julgamento histórico que ajudou a reconhecer que a violência sexual, quando praticada nas condições previstas pelo Direito Internacional, pode constituir crime contra a humanidade e também genocídio.
Isso foi muito importante porque mostrou que a violência contra as mulheres não deveria ser tratada como algo secundário em situações de guerra e perseguição.
Posteriormente, ela também atuou como juíza do Tribunal Penal Internacional, que julga pessoas acusadas de determinados crimes internacionais graves.
Entre 2008 e 2014, ocupou outro cargo de grande responsabilidade: foi a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Nessa função, trabalhou para promover a proteção da dignidade humana em diferentes partes do planeta.
O que é o Direito Internacional?
Para entender a importância do Nobel concedido a Navi Pillay, precisamos conhecer uma ideia fundamental: o Direito Internacional.
De maneira simples, trata-se de um conjunto de regras, princípios e acordos que orientam as relações entre países e ajudam a definir responsabilidades em questões que ultrapassam as fronteiras nacionais.
Essas regras também estabelecem mecanismos para investigar e julgar determinados crimes graves, como crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
Imagine que um conflito aconteça entre países ou que uma população seja vítima de violência organizada.
Como investigar os acontecimentos? Como reunir provas? Como responsabilizar os envolvidos? Como proteger as vítimas?
É nesse contexto que instituições e tribunais internacionais podem desempenhar um papel importante.
Eles não resolvem todos os problemas do mundo, e sua atuação enfrenta dificuldades. Mesmo assim, ajudam a construir caminhos para que crimes graves não sejam simplesmente ignorados.
A ideia central é simples: ter poder não deve significar ter o direito de fazer qualquer coisa.
O trabalho de Navi Pillay e a situação de Gaza

Em sua trajetória mais recente, Navi Pillay presidiu uma comissão independente de investigação das Nações Unidas sobre o território palestino ocupado.
Em 2025, essa comissão publicou um relatório que concluiu que Israel havia cometido atos de genocídio na Faixa de Gaza, conforme a análise apresentada no documento.
O governo israelense rejeitou essas conclusões.
É importante compreender que relatórios de comissões de investigação, decisões judiciais e acusações feitas em processos internacionais são coisas diferentes. Cada uma tem sua natureza e seu papel, e as conclusões precisam ser apresentadas com clareza sobre quem as formulou.
O trabalho da comissão presidida por Pillay tornou-se parte de um debate internacional sobre a proteção dos civis, os direitos dos palestinos e as responsabilidades dos envolvidos no conflito.
Sua atuação também provocou reações políticas e críticas.
Ao reconhecer Navi Pillay, o Comitê Nobel destacou sua contribuição para a responsabilização por crimes internacionais e para a defesa do Direito Internacional.
O prêmio, portanto, não significa que todos concordem com cada posição ou conclusão de sua carreira. Ele reconhece, segundo o Comitê, a importância de seu trabalho em favor da Justiça internacional.
Por que ela recebeu o Nobel da Paz?

O Prêmio Nobel da Paz é concedido a pessoas ou organizações que realizam contribuições consideradas importantes para a paz.
Em 2026, o Comitê Norueguês do Nobel escolheu Navi Pillay por seus esforços para promover a paz e o Direito Internacional.
A decisão chama a atenção para um ponto essencial: a paz não depende somente de acordos entre governos ou da interrupção dos combates.
Ela também precisa de instituições capazes de investigar crimes, proteger direitos e buscar a responsabilização de quem pratica graves violações.
Quando crimes ficam sem investigação e as vítimas não encontram proteção, a violência pode continuar produzindo sofrimento e insegurança.
Por isso, o Comitê destacou a importância de fortalecer as leis e as instituições que ajudam a resolver conflitos sem recorrer à violência.
A mensagem é especialmente importante em um mundo que enfrenta guerras, perseguições e crises humanitárias.
A Justiça pode ajudar a construir a paz?
Sim. Embora não seja suficiente por si só, a Justiça pode contribuir de várias maneiras.
1. Protegendo as pessoas: leis e instituições ajudam a defender direitos fundamentais, como a vida, a liberdade e a dignidade.
2. Investigando crimes: a apuração dos fatos permite reunir provas e esclarecer responsabilidades.
3. Combatendo a impunidade: quando os responsáveis por crimes são investigados e julgados de acordo com a lei, reforça-se a ideia de que ninguém deve estar acima dela.
4. Reconhecendo o sofrimento das vítimas: ouvir as pessoas atingidas por crimes e registrar o que aconteceu pode ser uma parte importante da busca por justiça.
5. Prevenindo novas violências: a existência de regras e mecanismos de responsabilização pode ajudar a desencorajar novos abusos.
Isso não significa que todos os conflitos serão resolvidos ou que os tribunais conseguirão impedir todas as injustiças. O caminho é difícil, mas a busca por soluções pacíficas continua sendo essencial.
Uma lição que ultrapassa fronteiras
A história de Navi Pillay nos ensina que grandes transformações podem começar com pessoas dispostas a enfrentar dificuldades para defender aquilo em que acreditam.
Ela viveu em uma sociedade marcada pela discriminação, estudou Direito, enfrentou barreiras e dedicou décadas de trabalho à proteção dos direitos humanos.
Seu percurso também mostra que o conhecimento pode ser uma ferramenta poderosa para combater injustiças.
Mas essa responsabilidade não pertence apenas a advogados, juízes ou governantes.
Na escola, podemos aprender a respeitar as diferenças. Em casa, podemos tratar as pessoas com dignidade. Na comunidade, podemos rejeitar o preconceito, ouvir opiniões diferentes e procurar resolver desentendimentos por meio do diálogo.
Essas atitudes não substituem o trabalho das instituições de Justiça, mas ajudam a construir uma cultura de respeito.
Fontes:
www.nobelprize.org
www.nytimes.com
Crédito das imagens:
(01) www.nobelprize.com
(Ilustração de Niklas Elmehed)
(02) www.nurembergacademy.org
(03) www.chatgpt.com/dall-e
(Ilustração criada por IA)
(04) ww.reuters.com
(05) www.nobelprize.com
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