Esparta e Argos lutaram pelo controle do Peloponeso por gerações.
Por volta de 494 a.C., o rei Cleômenes I de Esparta marchou com seu exército para o norte, encorajado por um oráculo que lhe disse que conquistaria Argos. Os dois exércitos se encontraram em Sepeia, perto de Tirinto.
Segundo Heródoto, os soldados de Argos estavam muito desconfiados. Eles achavam que os espartanos poderiam preparar uma armadilha a qualquer momento.
Por isso, resolveram fazer o seguinte: enviaram um vigia, para perto do acampamento espartano e toda vez que o mensageiro do rei espartano dava uma ordem em voz alta para o seu exército, o vigia retornava ao próprio acampamento e contava aos seus pares, que relaxavam e faziam a mesma coisa.
Cleômenes, percebeu essa mania do inimigo e teve uma ideia genial (e muito esperta!). Ele combinou um segredo com seus próprios soldados: quando o mensageiro gritasse “Hora de tomar o café da manhã!”, em vez de irem comer, os soldados espartanos deveriam pegar suas armas imediatamente e atacar!
Os soldados de Argos ouviram a ordem do café da manhã, relaxaram e guardaram as armas para ir comer.
Foi nesse exato momento que os espartanos atacaram de surpresa.
Os sobreviventes fugiram para um bosque sagrado dedicado ao herói Argos. Cleômenes interrogou os prisioneiros e, em seguida, chamou os homens pelo nome, alegando que seus resgates haviam sido pagos. Cada homem que saiu foi morto na hora. Quando os demais começaram a suspeitar, ele incendiou o bosque com todos eles dentro.
Heródoto estimou o número de mortos argivos em cerca de 6.000. Agora, a cidade de Argos não tinha homens em idade de lutar. O caminho para a conquista total está totalmente livre.
Cleômenes marcha, então, com seu exército até os muros de Argos. Ao chegar, depara-se com mulheres e velhos erguendo lanças, foices e ferramentas de agricultura nas muralhas.
Qualquer general da história com um poderoso exército à disposição, tomaria aquela cidade. Mas o rei espartano fez o impensável: deu meia-volta e marchou de volta para casa.
Por que um rei com os guerreiros mais implacáveis da Grécia desistiram de uma vitória garantida?
É aqui que a história oficial se choca com uma das lendas mais fascinantes da Antiguidade.
A incrível história das mulheres que desafiaram os espartanos: Mito ou fato?
Séculos após o evento, escritores como Plutarco e Pausânias registraram uma explicação épica.
Segundo eles, uma poetisa lírica chamada Telesila recusou-se a entregar a cidade. Ela teria reunido escravos, idosos e, principalmente, as mulheres mais jovens de Argos. Armadas com o que encontraram nos templos e casas, essas mulheres assumiram as muralhas.
Ao chegar e ver o exército improvisado feminino, Cleômenes teria percebido que estava em uma armadilha psicológica: se vencesse as mulheres, seria uma vitória sem honra; se perdesse para elas, seria a maior vergonha da história de Esparta.
O rei espartano desistiu do ataque à cidade, deu meia-volta com seu exército e retornou para Esparta.
Embora seja uma história inspiradora, há um grande problema: Heródoto, o “Pai da História”, que viveu muito mais perto daquela época, narra o massacre dos soldados de Argos, mas não menciona Telesila ou o exército de mulheres.
Para Heródoto, o recuo espartano teve motivos puramente religiosos: os presságios de sacrifício para a invasão da cidade foram desfavoráveis.
O Poder da Fake News no Mundo Antigo
Se as mulheres não lutaram nas muralhas, de onde surgiu essa história?
Historiadores modernos acreditam que estamos diante de um caso clássico de propaganda e guerra psicológica na Antiguidade.
Argos havia sido humilhada e perdeu quase toda a sua população masculina. Para recuperar o orgulho cívico e, acima de tudo, desencorajar futuros ataques de vizinhos oportunistas, a cidade precisava reescrever a sua narrativa.
Criar o mito de que suas mulheres eram tão temíveis que fizeram os espartanos recuar era uma jogada de marketing brilhante.
O mito funcionou tão bem que virou tradição. Argos instituiu o festival Hybristica, uma celebração anual onde homens e mulheres trocavam de roupas e papéis sociais, imortalizando a suposta resistência feminina.
O Mistério Permanece
A verdade nua e crua é que nunca saberemos com 100% de certeza o que se passou na mente do rei Cleômenes I naquele dia.
Teriam sido os deuses através de um mau presságio? Teria sido o medo do julgamento militar? Ou será que o blefe de Telesila e suas guerreiras improvisadas realmente aconteceu e Heródoto apenas omitiu o fato?
No Almanaque da História, o recuo espartano continua sendo um dos maiores “e se?” da Grécia Antiga.
Uma coisa é certa: seja pelo poder das armas ou pelo poder da narrativa, Argos sobreviveu para contar a história.
Fonte:
www.facebook.com/ancienthistory&worldmythologypage
Crédito da imagem:
www.gemini.google.com/nanabanana
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