Encantar-se é redescobrir o mundo com olhos de primeira vez. É enxergar poesia onde a pressa só vê rotina.
É perceber que, por trás de cada gesto simples, há uma oportunidade de espanto — um convite silencioso da vida para contemplarmos aquilo que, quase sempre, deixamos passar.
O encantamento nasce quando a mente se aquieta, quando o olhar se aprofunda, quando o coração se permite sentir.
Ele se manifesta no brilho de um amanhecer, no sorriso de alguém que amamos, no voo de um pássaro, numa gota de chuva que escorre pela janela.
Pode revelar-se no trabalho dedicado de um profissional ou no mistério das estações do ano.
Encantar-se é, acima de tudo, um modo de existir no mundo — um modo mais leve, mais sensível, mais inteiro.
O Encanto na Dedicação Humana: O Cirurgião e a Beleza do Saber
Certo dia, um cirurgião estava estudando para uma delicada intervenção que realizaria no dia seguinte.
O procedimento era complexo: a reconstrução do rosto de uma adolescente que sofrera um grave traumatismo.
Ele estudava cada detalhe com extrema atenção — lia artigos, elaborava anotações, tentando prever cenários, no decurso da complicada cirurgia.
De tempos em tempos, interrompia o estudo para exclamar, com brilho nos olhos:
“Fascinante!” “Maravilha!” “Que coisa surpreendente!”
Era um profissional apaixonado pela própria arte, pelo ato de cuidar, pela chance de devolver não apenas a anatomia, mas a vida plena àquela jovem.
Seu encantamento não era superficial; era profundo, quase reverente. Ele via beleza onde muitos veriam apenas dificuldade. Via ciência iluminada por propósito.
Este é um exemplo poderoso: o encantamento também nasce na devoção ao que fazemos, na capacidade de enxergar grandeza no nosso próprio trabalho.
O Encanto na Natureza: O Professor e As Cores do Outono
Conta-se que um professor universitário, acostumado ao clima ensolarado de Los Angeles, visitou um aluno na Nova Inglaterra durante o outono.
No trajeto, algo aparentemente comum — mas extraordinário para um olhar desperto — o fez pedir que o carro fosse parado.
Diante dele, as árvores exibiam uma sinfonia de cores quase improvável: folhas vermelhas, douradas, azuis, roxas, castanhas, magenta… e até pretas, todas na mesma árvore.
Surpreso, tocou-as como quem toca um enigma antigo e perguntou:
“Como é que esta folha resolve ser preta e aquela ali amarela? Na mesma árvore?!”
“Ora”, disse o aluno, “Sei lá. É assim mesmo!”
“Não“, falou o professor. “Não é assim mesmo. Deve haver um bom motivo para isso e eu quero saber qual é. Leve-me para a biblioteca!”
Foram à biblioteca e pesquisaram o assunto. Depois de esclarecido acerca das razões científicas para a mudança das cores, o professor afirmou: “Conhecer tudo isso não torna a questão simples. Continua a ser pura magia. A ser maravilhoso!”
Ele permaneceu ali, encantado por aquilo que recém aprendera a ver.
Encantar-se é um gesto de coragem
A coragem de não se deixar endurecer pela pressa, pelos problemas, pelo cotidiano repetitivo.
O mundo insiste em nos oferecer beleza, mesmo nos dias mais cinzentos. Ela está no voo de um pássaro, na cor de uma folha, no esforço de um médico, na mudança silenciosa das estações.
É dizer “sim” à vida.
É abraçar o instante.
É permitir-se sentir.
Encantar-se é Amar
Amar as coisas simples — o vento, a terra molhada, o ciclo das estações, o trabalho bem feito, os detalhes do cotidiano — é amar a própria existência.
É perceber que o milagre não mora no extraordinário, mas no ordinário que quase sempre ignoramos.
O cirurgião viu encanto na ciência de restaurar um rosto.
O professor encontrou magia na cor das folhas.
E nós podemos descobrir esse mesmo milagre ao abrir a janela, ao caminhar pela rua, ao observar o mundo com atenção. Encantamento não é emoção passageira.
É postura.
É estilo de vida.
É escolha.
Quem se encanta, vive duas vezes: na realidade que toca e na poesia que cria dentro de si.
E se a vida, por acaso, lhe oferecer muitos dias de céu cinzento, siga à risca a recomendação do escritor Nikos Kazantzakis: “Você tem o seu pincel, tem as suas tintas, pinte o paraíso e depois entre nele.”
Fonte: Baseado no artigo “Amar-se”, publicado no site www.momento.com.br
Crédito da imagem: www.freepik.com
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