Embora a escovação seja um hábito diário para a maioria das pessoas, a ciência por trás desse ato simples é complexa e, muitas vezes, mal compreendida.
Durante décadas, acreditou-se que a simples presença de flúor na composição dos dentifrícios (nome científico dos cremes dentais, pastas e géis) bastava para garantir a proteção contra a cárie.
No entanto, uma nova linha de pesquisa da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp) trouxe à luz um fator crítico até então negligenciado: O tempo de escovação pode fazer toda a diferença na proteção contra cáries!
A Inovação Científica da FOP-Unicamp
Pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp) desenvolveram e validaram o primeiro modelo laboratorial capaz de estimar a porcentagem de fluoreto solúvel liberada durante a escovação.
O estudo, orientado pelo professor Jaime Aparecido Cury, combinou dois tipos de experimento:
- Teste in vivo: Três voluntários escovaram os dentes por um minuto, utilizando três cremes dentais comerciais diferentes;
- Teste in vitro: Os mesmos cremes dentais foram submetidos a agitação mecânica controlada, simulando o movimento da escova na boca.
O estudo mostrou a sintonia entre os testes laboratoriais e os dados reais colhidos com voluntários, o que comprova a eficácia prática da nova metodologia.
O modelo resolve um impasse histórico na odontologia: a incapacidade de diferenciar o ‘fluoreto total’ do ‘fluoreto solúvel’.
Essa distinção é vital, pois apenas a fração solúvel é capaz de combater a cárie, algo que os métodos antigos não conseguiam prever com precisão clínica.
Por Que Escovar Rápido Demais Reduz a Proteção Anticárie?
A escovação diária vai além do hábito: é um processo químico. Os cremes dentais com flúor — também chamados de pastas ou géis dentais — continuam sendo a ferramenta mais eficaz no controle diário da cárie dentária.
No entanto, a proteção que eles oferecem não depende apenas da presença do flúor no rótulo, mas de algo muito mais específico: a liberação do fluoreto solúvel dentro da boca durante a escovação.
O fluoreto é a forma ativa do flúor. Quando está disponível na cavidade bucal, ele reduz a perda de minerais do esmalte e favorece a remineralização, fortalecendo os dentes contra o ataque de ácidos produzidos pelas bactérias da placa.
Se a escovação for curta demais:
- o fluoreto não tem tempo suficiente para se dissolver;
- menos fluoreto fica disponível para agir no esmalte;
- o efeito anticárie é reduzido, mesmo com um bom creme dental.
A Duração Ideal da Escovação
A maioria das pessoas leva menos de 1 minuto para escovar os dentes. Tempo insuficiente para que o fluoreto seja efetivamente liberado.
Especialistas recomendam escovar os dentes pelo menos 2 minutos por sessão, o que está alinhado com diretrizes internacionais como da American Dental Association (ADA).
O estudo da FOP-Unicamp observou maiores níveis de fluoreto na saliva e no biofilme quando a escovação foi mais longa.
Viscosidade: Um Fator Decisivo na Liberação do Fluoreto
A equipe analisou também a viscosidade dos dentifrícios, ou seja, o quanto a pasta se mantém rígida ou se desfaz quando movimentada. Esse fator influencia diretamente a velocidade e a quantidade de fluoreto liberado.
Os produtos testados foram:
- Sorriso Dentes Brancos – 1450 ppm F
- Tandy – 1100 ppm F
- Close-up Fresh Action – 1450 ppm F
Resultados:
- Sorriso Dentes Brancos, o menos viscoso, liberou mais de 80% do fluoreto solúvel.
- Tandy, com viscosidade intermediária, apresentou liberação moderada.
- Close-up Fresh Action, o mais espesso, liberou cerca de 50%, mesmo com alta concentração total de flúor.
Isso demonstra que não basta ter muito flúor na fórmula: é preciso que ele seja rapidamente solubilizado durante a escovação.
A Ciência por Trás de Um Gesto Diário
Ao final, a ciência nos convida a transformar um gesto cotidiano em um cuidado mais consciente.
Escovar os dentes não deve ser um ato apressado, mas um momento de atenção à própria saúde, em que o tempo, a técnica e a escolha do produto trabalham juntos para proteger o sorriso.
Uma escovação mais lenta, aliada ao uso correto do fio dental e a dentifrícios eficazes, potencializa a ação do fluoreto e fortalece os dentes contra a cárie, promovendo saúde bucal ao longo de toda a vida.
Fonte: www.fop.unicamp.br
Crédito da Imagem: www.freepik.com
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