Há algo estranho acontecendo nos sebos.
Livros antigos, esquecidos e aparentemente sem valor comercial começaram a despertar o interesse de compradores dispostos a levar grandes quantidades de exemplares. E o mais curioso é que muitos desses títulos não são best-sellers, obras famosas ou raridades disputadas por colecionadores.
São livros que, até pouco tempo atrás, pareciam não mais interessar a ninguém.
Então, por que alguém estaria comprando justamente aquilo que os leitores deixaram de procurar?
A resposta pode estar em uma tecnologia que está mudando não apenas a maneira como produzimos informação, mas também aquilo que passou a ser considerado valioso: a inteligência artificial.
O livro que passou décadas encalhado virou matéria-prima
Imagine um sebo onde determinado livro está há 10, 20 ou até 30 anos.
Durante todo esse tempo, ninguém demonstra interesse.
De repente, alguém aparece e quer comprar dezenas — ou até centenas — de exemplares.
Foi exatamente esse tipo de situação que chamou a atenção de livreiros.
Stuart Manley, da Barter Books, no norte da Inglaterra, contou que normalmente vende entre 2 mil e 3 mil livros por semana. Num único dia, um único pedido feito por uma empresa canadense teria alcançado praticamente esse mesmo volume.
Depois de três décadas trabalhando com livros usados, ele afirmou nunca ter visto algo semelhante.
E há um detalhe ainda mais curioso: Stuart não é o único! Livreiros de todo o mundo têm relatado megapedidos igualmente incomuns. Eles não sabem ao certo qual é o destino final de seus livros.
E não são somente livros famosos. Há relatos envolvendo desde romances até obras extremamente específicas, inclusive textos antigos em latim e livros de assuntos pouco populares.
Para um leitor, isso parece estranho.
Para uma inteligência artificial, pode fazer muito sentido.
Mas por que uma IA precisaria de livros antigos?
Para entendermos isso, precisamos lembrar de uma coisa simples.
Uma inteligência artificial como as que produzem textos precisa ser treinada com uma enorme quantidade de informações.
É como se fosse necessário oferecer à máquina uma gigantesca biblioteca para que ela consiga aprender padrões de linguagem, estilos de escrita, conhecimentos e relações entre diferentes assuntos.
Quanto mais variado for o material disponível, maior pode ser a diversidade de informações utilizadas no treinamento.
E aqui surge um problema.
A internet não é infinita.
Grande parte do conteúdo disponível publicamente na internet já foi utilizada, catalogada ou analisada de alguma maneira. Ao mesmo tempo, milhões de livros continuam existindo apenas em papel.
Isso transforma os sebos em uma espécie de depósito de conhecimento ainda não totalmente digitalizado.
Um livro que ninguém lê há 40 anos pode, portanto, possuir algo extremamente valioso para uma empresa de IA: informação que ainda não está facilmente disponível em formato digital.

O estranho destino de alguns desses livros
É aqui que a história fica mais inquietante.
Para transformar um livro físico em dados que uma máquina consiga processar, é preciso digitalizá-lo.
Além da digitalização normal, via teclado, existe uma maneira mais rápida de fazer isso em grande escala.
O livro pode ter sua lombada retirada ou cortada. As páginas são separadas e passam por scanners de alta velocidade. Depois, o conteúdo é transformado em arquivos digitais.
O problema?
O livro original pode não sobreviver ao processo.
O “Projeto Panamá”
Documentos judiciais relacionados à Anthropic, empresa responsável pelo Claude, revelaram detalhes de um projeto interno chamado Projeto Panamá, criado para obter e digitalizar enormes quantidades de livros. Documentos apresentados no processo indicaram que milhões de exemplares foram comprados, preparados e digitalizados dessa maneira.
Ou seja: um livro que sobreviveu por décadas pode ser comprado, digitalizado e, depois, destruído.
Para uma máquina, o conteúdo continua existindo.
Para a humanidade, porém, o exemplar físico pode desaparecer para sempre.
O caso Anthropic mudou a discussão
A história ganhou uma dimensão ainda maior por causa de uma batalha judicial nos Estados Unidos.
Em 2025, o juiz federal William Alsup analisou o uso de livros protegidos por direitos autorais no treinamento dos modelos de IA da Anthropic.
A decisão foi complexa.
O juiz considerou que o treinamento de IA utilizando livros adquiridos legalmente poderia ser considerado fair use, conceito da legislação norte-americana semelhante ao uso permitido de uma obra em determinadas circunstâncias.
A justificativa foi que o treinamento tinha caráter transformador: a máquina não estaria simplesmente reproduzindo os livros, mas utilizando o conteúdo para aprender e gerar algo diferente.
Mas havia um problema importante.
A Anthropic também havia armazenado milhões de livros obtidos ilegalmente de bibliotecas digitais piratas. Essa parte não recebeu a mesma proteção jurídica.
O caso mostrou, portanto, que uma questão aparentemente simples — “a IA poder aprender com livros” — é, na verdade, muito mais complicada.
Comprar um livro legalmente não significa poder fazer qualquer coisa com ele
Imagine que alguém compre um livro em um sebo.
O comprador passa a possuir aquele exemplar físico.
Mas isso não significa automaticamente que tenha adquirido todos os direitos sobre o conteúdo daquela obra.
Comprar um livro não é o mesmo que comprar os direitos autorais do texto.
É justamente nessa fronteira que surgem muitas das discussões atuais sobre inteligência artificial.
Uma empresa pode comprar legalmente um exemplar e digitalizá-lo?
Pode usar o conteúdo para treinar uma IA?
Pode destruir o exemplar depois da digitalização?
E o que acontece quando o livro é raro e aquele era um dos últimos exemplares existentes?
São perguntas que a tecnologia está obrigando a sociedade e os tribunais a enfrentar.
O livro raro pode estar diante de um novo perigo
Para os donos de sebos, a situação possui um lado positivo.
Livros que estavam parados havia anos finalmente encontram compradores.
Isso significa dinheiro para pequenos comerciantes e espaço liberado nas prateleiras.
Mas existe outro lado.
Imagine uma edição antiga da qual restam apenas alguns exemplares.
Um comprador pode adquirir um deles, digitalizá-lo e destruí-lo.
Se os demais exemplares desaparecerem com o tempo, aquele livro pode deixar de existir fisicamente.
O conteúdo continuará armazenado em algum servidor.
Mas quem controlará esse arquivo?
Essa é uma das questões que mais preocupam especialistas e defensores da preservação cultural.
E se o conhecimento ficar preso dentro de empresas?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas.
Durante séculos, bibliotecas e livros físicos ajudaram a garantir que o conhecimento pudesse ser consultado por diferentes gerações.
Um livro pode passar de pai para filho.
Pode ser doado para uma escola.
Pode chegar a uma biblioteca.
Pode ser encontrado por um estudante cem anos depois de sua publicação.
Mas imagine um cenário diferente.
Um livro raro é comprado por uma empresa, digitalizado e destruído. A única cópia digital passa a fazer parte de um sistema privado.
O conhecimento não desapareceu completamente.
Mas o acesso a ele pode ter mudado radicalmente.
Em vez de estar em uma estante pública, ele pode estar dentro de uma infraestrutura controlada por uma empresa.
É essa possibilidade que começa a provocar preocupações sobre preservação cultural, acesso ao conhecimento e concentração de informação.
A preocupação chegou ao governo americano
A discussão ficou ainda mais séria neste mês de agosto de 2026.
Mais de uma dezena de organizações da sociedade civil pediu à Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos, a FTC, que investigue a compra, digitalização e destruição de livros por empresas de inteligência artificial.
A preocupação apresentada não se limita aos direitos autorais.
As organizações também argumentam que, se grandes empresas comprarem e destruírem livros em larga escala, podem retirar do mercado fontes importantes de informação e dificultar o acesso de empresas menores aos mesmos materiais.
É uma mudança importante no debate.
A pergunta deixa de ser apenas:
“A IA pode usar esse livro?”
E começa a incluir outra:
“Quem terá o direito de controlar o conhecimento depois que todos os exemplares físicos desaparecerem?”
O PARADOXO: a IA pode salvar um livro e destruí-lo ao mesmo tempo
Existe uma ironia profunda nessa história.
A inteligência artificial pode ajudar a preservar o conteúdo de uma obra.
Ao digitalizá-lo, teoricamente, torna possível que aquela informação sobreviva por muito tempo.
Mas o processo utilizado para fazer essa preservação pode destruir o próprio livro.
É quase como fotografar uma pintura e depois jogar a pintura fora.
A imagem permanece.
A obra física desaparece.
E livros não são apenas conjuntos de palavras.
Eles também carregam marcas do tempo: anotações feitas à mão, dedicatórias, carimbos de antigas bibliotecas, ilustrações, diferentes edições e até sinais de quem os leu antes de nós.
Um arquivo digital preserva o texto.
Nem sempre preserva a história daquele objeto.
Estamos diante de uma nova corrida pelo conhecimento?
Talvez seja cedo para afirmar exatamente até onde essa tendência irá.
Mas uma coisa já está acontecendo: o conhecimento impresso ganhou um novo valor na era da inteligência artificial.
Durante muito tempo, acreditamos que o futuro seria totalmente digital e que os livros físicos perderiam importância.
Agora acontece algo curioso.
Justamente quando a tecnologia parece tornar o papel ultrapassado, empresas de tecnologia começam a olhar para as estantes dos sebos em busca de informações que ainda não foram transformadas em dados.
O livro que ninguém queria pode ter se tornado valioso.
Não necessariamente para ser lido.
Mas para ser transformado em informação.
E o que isso ensina para nós?
Talvez a principal lição seja simples.
Nunca devemos confundir aquilo que tem pouco valor comercial com aquilo que não tem valor.
Um livro pode permanecer 30 anos sem encontrar comprador e ainda guardar informações importantes.
Uma obra esquecida pode conter conhecimentos que interessarão às próximas gerações.
E uma edição aparentemente sem importância pode ser, algum dia, uma das poucas testemunhas físicas de determinado período da história.
A inteligência artificial está nos mostrando algo que talvez tenhamos esquecido:
conhecimento também é matéria-prima.
E, agora, existe uma corrida para obtê-lo.
A grande questão é saber como essa corrida terminará.
Com mais conhecimento disponível para todos?
Ou com milhões de livros desaparecendo das prateleiras enquanto seus conteúdos ficam guardados atrás das portas digitais de poucas empresas?
Essa resposta ainda está sendo escrita.
E, ironicamente, talvez seja escrita justamente a partir dos livros que durante décadas ninguém quis comprar.
Fontes:
www.bbc.com
www1.folha.uol.com.br
forbes.com.br
www.bpmoney.com.br
Crédito das imagens:
(01, 02) www.microsoft.com/copilot
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