Existem lugares que ficam para trás quando partimos. Mas existem outros que, mesmo distantes, continuam caminhando conosco.
Ficam guardados na memória de uma infância, no cheiro da terra depois da chuva, numa paisagem que jamais esquecemos, numa rua, numa árvore, numa serra… Ou simplesmente naquela sensação inexplicável de saber: “este lugar faz parte de mim”.
É dessa espécie de saudade — aquela que não machuca apenas, mas também aquece — que nasce a poesia que o POEME-SE! traz hoje.
Nossa viagem será até Sergipe, para conhecer uma mulher que transformou suas lembranças em versos e fez da palavra uma forma de preservar aquilo que o tempo e a distância jamais conseguiram apagar.
Nossa poetisa convidada é Etelvina Amália de Siqueira.
E o poema de hoje tem um título que parece simples, mas carrega um universo inteiro dentro de duas palavras:
“Minha Terra”.
A obra nasceu do sentimento mais puro e doloroso do artista: a saudade.
Ao deixar sua terra natal, Itabaiana, para viver em Aracaju, a escritora transformou a distância em versos, eternizando a paisagem, o afeto e a alma de suas origens.
Foi a primeira poesia composta por Etelvina, revelando precocemente o talento de uma das maiores oradoras e intelectuais de seu tempo.
Prepare o coração, volte com a poetisa às paisagens de sua infância e permita-se sentir, através de seus versos, a força de uma terra que continuou vivendo dentro dela mesmo depois da partida.
Vamos conhecer “Minha Terra”, de Etelvina Amália de Siqueira?
Porque, quando a saudade encontra a palavra, ela deixa de ser apenas lembrança…
POEME-SE!!!

Sobre a autora:

Etelvina Amália de Siqueira nasceu em Itabaiana, Sergipe, filha de José Jorge de Siqueira e Rosa Maria de Siqueira.
As fontes consultadas apresentam uma divergência sobre seu nascimento. O portal oficial da Secretaria Municipal da Educação de Aracaju registra como sendo 5 de novembro de 1872. Já estudos acadêmicos, a Biblioteca Digital de Literatura Brasileira e outras fontes bibliográficas indicam o ano 1862.
Independentemente da divergência documental sobre a data, há consenso quanto ao lugar de nascimento, à sua trajetória intelectual e à relevância de sua atuação.
Etelvina passou os primeiros anos em Itabaiana, onde teve os primeiros contatos com as letras e cursou o ensino primário. Ainda adolescente, mudou-se com a família para Aracaju.
Mas não esqueceu a cidade natal.
A saudade de Itabaiana reapareceria mais tarde em sua literatura, especialmente no poema “Minha Terra”, no qual a poetisa recupera imagens da infância, das paisagens e das lembranças de sua terra.
Uma mulher estudando quando isso ainda era uma ruptura
Em Aracaju, Etelvina ingressou na Escola Normal feminina do Asilo Nossa Senhora da Pureza.
Segundo o portal da Secretaria Municipal da Educação de Aracaju, ela integrou a primeira turma e formou-se professora em 11 de novembro de 1884.
Isso é particularmente significativo quando lembramos do Brasil daquele período.
A educação feminina ainda estava cercada por limitações sociais. Para muitas mulheres, a vida era planejada quase exclusivamente em torno da família e das tarefas domésticas. A presença de uma mulher nos espaços de formação intelectual e profissional representava, portanto, uma mudança importante.
Etelvina não se limitou a estudar.
Ela decidiu ensinar.
Uma professora antes de tudo
Depois de formada, fundou seu próprio colégio particular, onde ofereceu ensino primário e secundário entre 1885 e 1890. Posteriormente, tornou-se professora pública na Barra dos Coqueiros e, em 1891, foi transferida para a Escola Normal.
Mais tarde, atuou também como auxiliar da direção da Escola Normal e lecionou Língua Portuguesa.
Sua trajetória como educadora foi longa. Um registro publicado após sua morte a descreveu como professora de várias gerações durante mais de cinco décadas e destacou sua atuação como catedrática de Português da Escola Normal.
Ou seja: antes de ser lembrada apenas como poetisa, Etelvina foi uma formadora de pessoas.
E talvez essa seja uma das maiores marcas de sua vida.
A mulher que enfrentou a escravidão com a palavra
Etelvina também viveu num período decisivo da História brasileira: os últimos anos da escravidão.
E ela não ficou em silêncio.
Participou da Sociedade Libertadora Sergipana e envolveu-se ativamente na campanha abolicionista. Seus posicionamentos apareciam tanto em discursos quanto em ações concretas.
Uma das fontes pesquisadas registra sua atuação na chamada “Cabana do Pai Tomaz”, em 1883, onde realizou pronunciamentos em defesa da abolição. Também há registros de que lecionava gratuitamente para filhos de mulheres escravizadas ou libertas na casa de seu tio Francisco José Alves, onde funcionava a sociedade abolicionista.
Sua literatura também carregou essa preocupação.
Entre seus poemas está “Ao Amigo do Escravo”, relacionado diretamente à causa abolicionista.
Para Etelvina, portanto, escrever não era apenas fazer literatura.
Era também posicionar-se diante do mundo.
Uma pioneira em um mundo que ainda não estava preparado
A atuação intelectual de Etelvina foi além da sala de aula e da poesia.
Ela escreveu artigos e publicou discursos em diversos jornais sergipanos, entre eles O Libertador, O Planeta, Gazeta de Sergipe e Estado de Sergipe. Também colaborou com o jornal A Discussão, do Rio Grande do Sul.
Foi ainda uma oradora reconhecida.
Entre os discursos de que há registro está aquele relacionado à colocação do retrato do então presidente do estado, José Rodrigues da Costa Dória, no salão nobre da Escola Normal e Anexo, além de um discurso pronunciado por ocasião da inauguração do novo edifício da instituição, em 1911.
Sua capacidade de falar em público era tão marcante quanto sua escrita.
Etelvina era, portanto, uma intelectual de múltiplas faces.
E veio a poesia…
A literatura ocupou um espaço importante em sua trajetória.
Etelvina escreveu poemas e contos, deixando uma produção espalhada por jornais sergipanos e pelo Almanaque Sergipano.
Sua poesia percorreu temas variados.
Escreveu sobre a abolição, sobre a educação, homenageou personalidades como Fausto Cardoso e Tobias Barreto e também sobre a natureza de seu rincão de nascimento.
É justamente nesse último grupo que encontramos “Minha Terra”, poema apresentado hoje pelo POEME-SE!
Uma mulher de muitos talentos
Talvez o aspecto mais extraordinário de Etelvina esteja justamente na quantidade de caminhos que ela percorreu.
Ela foi professora.
Poetisa.
Contista.
Jornalista.
Oradora.
Declamadora.
Abolicionista.
E participante ativa da vida cultural sergipana.
Estudos sobre sua trajetória destacam justamente seu papel no rompimento das barreiras impostas à participação intelectual das mulheres e sua influência sobre outras mulheres de seu tempo.
Ela também participou da Hora Literária, considerada um embrião da Academia Sergipana de Letras.
Sua trajetória mostra que a educação pode abrir portas que uma sociedade inteira tenta manter fechadas.
E mostra também que a literatura não precisa escolher entre beleza e consciência.
Pode ensinar.
E pode falar da liberdade.
Pode celebrar a natureza.
E pode denunciar a injustiça.
O legado
Etelvina Siqueira morreu em Aracajú, no dia 18 de março de 1935, ainda solteira e levando uma vida de simplicidade.
Depois de décadas dedicadas ao ensino, à literatura e a tantas lutas, a admirável professora encerrou sua jornada neste mundo, deixando para trás uma trajetória que o tempo não deveria apagar.
Mas sua história não terminou ali.
Seu nome permanece associado à educação e à cultura sergipanas. Uma unidade de ensino da rede municipal de Aracaju recebeu o nome de Professora Etelvina Amália de Siqueira, preservando publicamente a memória daquela educadora que dedicou grande parte da vida ao ensino.
Mais de um século depois de sua atuação intelectual, talvez seja possível compreender melhor a dimensão de sua coragem.
Etelvina viveu numa época em que uma mulher precisava vencer obstáculos para estudar.
Ela estudou.
Precisava vencer obstáculos para ensinar.
Ela ensinou.
Precisava vencer obstáculos para escrever.
Ela escreveu.
Precisava vencer obstáculos para falar em público.
Ela falou.
E quando o Brasil ainda convivia com a escravidão, ela escolheu também usar sua voz para defender a liberdade.
Por isso, conhecer Etelvina Amália de Siqueira não é apenas conhecer uma poetisa sergipana.
É conhecer uma mulher que compreendeu, muito cedo, que a palavra pode ser instrumento de beleza…
mas também pode ser instrumento de transformação.
Fontes:
www.pt.wikipedia.org
www.literaturasergipana.blogspot.com
www.culturaitabaiana.blogspot.com
Crédito das imagens:
(01, 03) www.chatgpt.com
(Baseada em imagem do site www.literaturasergipana.blogspot.com)
(02) www.magnific.com
(Moldura da poesia)
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