Havia uma urgência silenciosa no ar.
Não era apenas sobre uma viagem.
Era sobre despedida.
Quando Sônia Calegario recebeu o diagnóstico de um câncer em estágio avançado, o tempo deixou de ser uma promessa — e passou a ser um recurso precioso. Cada dia ganhou peso. Cada instante, significado.
Mas, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, ela não escolheu se recolher.
Escolheu viver.
E viver, para ela, significava voltar ao lugar onde sua alma sempre encontrou paz.
O último desejo
O pedido era simples — quase delicado:
Ver o mar mais uma vez.
Ao lado da família, Sônia enfrentou dores, limitações e o cansaço que insistia em acompanhar cada movimento.
Ainda assim, seguiu. Porque havia algo maior conduzindo seus passos: o amor.
E foi assim que, diante da imensidão azul, ela chegou.
Não como alguém que estava partindo…
mas como alguém que ainda estava profundamente viva.

O dia em que o tempo desacelerou
Naquele dia, não houve pressa.
Os abraços foram mais demorados.
Os sorrisos, mais sinceros.
Os silêncios… mais cheios de significado.
O ensaio fotográfico não foi planejado como algo estético.
Foi um gesto de eternidade.
Filhos, neto, companheiro — todos reunidos, não para registrar uma imagem perfeita, mas para guardar algo muito maior:
Presença.
Sônia, mesmo com o corpo fragilizado, participou de cada momento.
E, em cada clique, havia mais do que uma fotografia — havia um pedaço de amor sendo preservado contra o tempo.

Quando a memória se torna abrigo
Meses depois, o estado de saúde se agravou.
A internação veio.
E, com ela, o silêncio inevitável do fim.
Sônia partiu no final de 2025.
Mas não levou tudo consigo.
Deixou abraços congelados em imagens.
Deixou olhares que ainda falam.
Deixou um dia inteiro transformado em eternidade.

O que realmente permanece…
Há quem deixe bens.
Há quem deixe histórias.
Mas há aqueles — raros — que deixam sentidos.
Sônia não venceu o câncer.
Mas venceu algo ainda maior:
O esquecimento.
Porque enquanto houver um filho olhando aquelas fotos…
enquanto houver alguém lembrando daquele dia à beira-mar…
Ela ainda estará lá.
Sorrindo.
Abraçando.
Vivendo.
E talvez seja isso que realmente importa no fim:
Não quanto tempo vivemos…
Mas o quanto conseguimos transformar o tempo que tivemos em algo que nunca morrerá.
Fonte:
www.correiobraziliense.com.br
Crédito das imagens:
(01, 02, 03, 04) Priscila Letícia Calú e Pollyanderson Calú (Reprodução)
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