Dizem que a terra da Ucrânia, a famosa chernozem, é uma das mais férteis do mundo. É um solo tão rico e escuro que parece capaz de engolir a luz do sol e devolvê-la em forma de trigo dourado.
Durante séculos, essa região foi o celeiro da Europa, um lugar onde a fome era uma estranha visitante.
Mas, no outono de 1932, essa mesma terra abençoada transformou-se no palco de um dos maiores pesadelos já vividos por um povo.
A fome decretada por Moscou
Tudo começou não com uma seca ou uma praga, mas com canetas e decretos emanados de Moscou.
Josef Stalin, em sua marcha implacável para industrializar a União Soviética, decidiu que os camponeses ucranianos pagariam uma parte brutal desse preço. A terra, que pertencia às famílias rurais havia gerações, foi confiscada à força.
Os fazendeiros, antes donos de seu próprio destino, foram transformados em trabalhadores de fazendas coletivas, os kolkhozes.
Mas a coletivização era apenas o prelúdio.
O verdadeiro castigo veio na forma de cotas de grãos impossíveis. Moscou exigia quantidades de trigo que a Ucrânia simplesmente não conseguia entregar.
Quando os camponeses explicaram que não havia como cumprir as metas, a resposta do regime não foi compreensão, mas brutalidade.
Nem um grão deveria permanecer
No inverno rigoroso de 1932, os “ativistas” chegaram às aldeias.
Eram homens enviados pelo Partido, armados não apenas com autoridade, mas também com instrumentos usados para procurar alimentos escondidos.
Invadiam as casas, quebravam pisos, reviravam fornos e rasgavam colchões em busca de qualquer grão que pudesse ter sido escondido.
Não levavam apenas o trigo.
Levavam a farinha, as batatas, os feijões e até as sementes que os camponeses guardavam para o plantio do ano seguinte.
Levavam tudo o que podia ser comido.
A fome, portanto, não significava apenas ausência de alimentos. Em muitas comunidades, significava que aquilo que ainda existia era retirado das mãos de quem precisava desesperadamente dele.

A “Lei das Espigas”: colher podia significar morrer
Aos desesperados, restava a noite.
Camponeses famintos saíam escondidos para os campos já colhidos, tentando encontrar algumas espigas esquecidas entre a palha.
Mas o regime havia promulgado uma lei extremamente severa, que ficou conhecida como “Lei das Espigas”.
Recolher restos de uma colheita passou a ser tratado como roubo da propriedade socialista. As punições podiam incluir longas penas de prisão, deportação e, em determinados casos, a pena de morte.
A terra estava ali.
O alimento havia existido.
Mas tocar nele podia significar a morte.
A primavera em que a Ucrânia não floresceu
Com a chegada da primavera de 1933, a Ucrânia não despertou.
Ela agonizou.
A fome deixou de ser apenas uma sensação no estômago para se transformar em uma presença física, uma sombra que consumia as pessoas de dentro para fora.
Os relatos dos sobreviventes descrevem olhos fundos, corpos extremamente debilitados e sinais terríveis de desnutrição.
O som das aldeias ucranianas também mudou.
O canto dos galos, o latido dos cães e o riso das crianças foram desaparecendo, substituídos por um silêncio assustador.
Os animais de estimação desapareceram.
Quando a grama, as cascas das árvores e tudo aquilo que ainda pudesse ser mastigado chegaram ao fim, algumas pessoas foram empurradas para situações extremas, incluindo episódios de canibalismo.
Era a demonstração mais terrível de até onde a fome pode levar seres humanos quando toda esperança é destruída.

A fome cercada por soldados
Mas havia outro problema.
Os famintos tentavam fugir.
Para impedir que camponeses abandonassem as regiões atingidas pela fome em busca de alimentos, o regime impôs severas restrições à circulação.
Estradas e estações eram vigiadas, e forças de segurança impediam muitos camponeses de deixar as áreas rurais.
Aqueles que tentavam alcançar cidades ou outras regiões em busca de comida encontravam barreiras e controles.
Enquanto isso, nas aldeias, os mortos se acumulavam.
Milhões de pessoas morreram durante a fome de 1932–1933.
As estimativas variam conforme os critérios utilizados pelos pesquisadores, mas o número de vítimas ucranianas é frequentemente calculado em milhões de pessoas.

Enquanto a Ucrânia morria, o mundo era enganado
A propaganda soviética procurava apresentar ao mundo uma realidade muito diferente. Relatos sobre a fome eram negados ou minimizados.
Alguns jornalistas estrangeiros que estavam na União Soviética também contribuíram para essa imagem distorcida. Entre eles estava Walter Duranty, correspondente do The New York Times, que minimizou publicamente a existência da fome, embora posteriormente tenham surgido fortes controvérsias sobre sua cobertura.
Para os ucranianos, porém, a realidade não podia ser escondida.
Eles estavam morrendo.
E sabiam por quê.
O regime soviético também tentou apagar a memória
Durante décadas, o Holodomor permaneceu como um fantasma.
Na União Soviética, falar abertamente sobre a fome era perigoso. Muitos sobreviventes guardaram suas lembranças em silêncio, transmitindo histórias de familiares mortos apenas dentro de casa.
Era uma memória proibida.
Nomes eram sussurrados.
Histórias eram escondidas.
Famílias inteiras aprenderam a conviver com uma dor que não podiam contar publicamente.
Mas a memória humana é difícil de destruir.
Com o colapso da União Soviética, em 1991, o acesso a documentos e testemunhos tornou possível investigar de maneira mais ampla aquilo que durante décadas havia sido escondido.
Os sobreviventes, já idosos, começaram a falar.
E o mundo começou, finalmente, a ouvir.
Holodomor: uma palavra para uma tragédia que nunca deveria ser esquecida
A palavra Holodomor deriva do ucraniano e está associada à ideia de provocar a morte pela fome.
Para a Ucrânia e para diversos países que reconheceram oficialmente o episódio como genocídio, o Holodomor representa uma tentativa de destruir uma parcela fundamental da sociedade ucraniana por meio da fome, da repressão e do confisco de alimentos.
Os defensores também destacam as políticas específicas aplicadas à Ucrânia, as restrições impostas à circulação da população faminta e testemunhos que, segundo essa interpretação, apontam para uma ação deliberada destinada a quebrar a resistência da sociedade ucraniana.
Por outro lado, existem historiadores que adotam uma interpretação diferente. Eles lembram que a grande fome do início da década de 1930 também atingiu outras regiões da União Soviética, como partes da Rússia e do Cazaquistão.
Para esses pesquisadores, embora as políticas de Stalin tenham sido brutais e tenham provocado uma catástrofe humana de proporções gigantescas, a fome seria resultado principalmente das políticas econômicas desastrosas, da coletivização forçada e de decisões criminosamente negligentes — mas não necessariamente de uma intenção específica de exterminar os ucranianos como grupo nacional.
Apesar do debate histórico, o reconhecimento internacional do Holodomor como genocídio tem crescido nas últimas décadas. Mais de 30 países e diversas instituições internacionais já aprovaram resoluções reconhecendo a tragédia dessa forma.
Entre eles estão a própria Ucrânia, o Canadá, os Estados Unidos, o Brasil e Portugal. O Parlamento Europeu também aprovou uma resolução reconhecendo o Holodomor como um crime terrível contra o povo ucraniano e condenando as políticas do regime soviético.
A Rússia, porém, não reconhece o Holodomor como genocídio, defendendo que a fome atingiu diferentes povos e regiões da então União Soviética.
O debate, portanto, continua.
Mas uma coisa é incontestável: milhões de pessoas morreram durante a fome de 1932–1933, e a memória dessas vítimas permanece profundamente ligada à identidade histórica da Ucrânia.
As plantações voltaram a crescer.
A terra negra voltou a produzir trigo.
Os campos ficaram dourados novamente.
Mas milhões de ucranianos haviam desaparecido para sempre.
De Stalin a Putin: O povo que se recusa a desaparecer
Quase um século depois de o regime de Stalin tentar subjugar a Ucrânia pela fome, o país voltou a enfrentar outra agressão vinda da Rússia.
Em fevereiro de 2022, a Rússia lançou uma invasão em grande escala contra o território ucraniano, iniciando uma guerra que, em 2026, já ultrapassa quatro anos.
O contexto histórico é diferente, e seria errado tratar os dois acontecimentos como se fossem a mesma coisa. Mas existe uma imagem que atravessa as décadas: a de um povo que se recusa a desaparecer.
Mais uma vez, o Kremlin tenta impor sua vontade pela força.
Mais uma vez, a Ucrânia enfrenta destruição, perdas humanas, cidades atingidas e milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas.
E, mais uma vez, os ucranianos resistem.
Diante da invasão comandada por Vladimir Putin, o povo ucraniano tem demonstrado uma extraordinária capacidade de resistência.
Um povo que carrega na memória as marcas do Holodomor, da repressão soviética e de outras tragédias de sua história continua lutando para preservar sua independência, sua soberania e o direito de decidir seu próprio destino.
Fontes:
www.pt.wikipedia.org
www.multimedia.expresso.pt
www.dw.com
Crédito das imagens:
(01) Bryan Smith/ZUMA Press/Picture Alliance
(2,3,4) Alexander Wienerberger/Instituto de História da Ucrânia
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