Em 1º de novembro de 1998, aos 29 anos, o britânico Karl Bushby saiu de Punta Arenas, no extremo sul do Chile.
Seu destino?
Hull, na Inglaterra, sua cidade natal.
Entre o ponto de partida e sua casa havia milhares de quilômetros, quatro continentes, desertos, montanhas, florestas, gelo, fronteiras complicadas e até mares.
Bushby sabia que seria uma grande aventura.
O que talvez não imaginasse é que ela duraria quase três décadas.
Em agosto de 2026, depois de aproximadamente 49.110 quilômetros percorridos, ainda faltavam cerca de 900 quilômetros para completar a jornada.
E ele continua caminhando.
Duas regras para uma aventura gigantesca
Karl Bushby estabeleceu duas regras para a chamada Expedição Goliath.
A primeira: não utilizar meios de transporte para avançar no percurso.
A segunda: não voltar para casa antes de completar a jornada.
Isso significa que avião, carro, ônibus, trem ou navio não poderiam simplesmente levá-lo para a próxima etapa.
Quando surgiam obstáculos, era preciso encontrar outra solução.
E o mundo tratou de apresentar muitos deles.
A expedição atravessou quatro continentes, passando por desertos, montanhas, florestas, regiões geladas e áreas onde questões políticas e fronteiriças tornaram a caminhada ainda mais complicada.
Tudo começou com uma linha no mapa
A história da Expedição Goliath começou antes mesmo de Bushby colocar os pés no Chile.
Na década de 1990, uma ideia chamou sua atenção: seria possível ligar a Inglaterra à América do Norte passando pelo Estreito de Bering?
Bushby pegou um mapa e desenhou uma linha.
A linha saía da Inglaterra, atravessava a Europa e a Ásia, passava pelo Estreito de Bering e seguia até o extremo sul da América do Sul.
Aquela linha acabou se transformando em um projeto de vida.
Em 1998, Bushby decidiu percorrê-la no sentido contrário: começaria no Chile e caminharia de volta para casa, na Inglaterra.
Mas ele estabeleceu duas regras para si mesmo:
não utilizar transporte para avançar pela rota;
e não voltar para casa até completar a caminhada.
Essas duas regras seriam testadas inúmeras vezes.
Do Chile à Colômbia: os primeiros passos
Em 1º de novembro de 1998, Bushby saiu de Punta Arenas com cerca de 500 dólares no bolso.
Começava ali uma viagem que ele imaginava que poderia durar aproximadamente uma década.
O início, porém, não foi nada fácil.
A Patagônia apresentou ventos fortíssimos. Depois vieram o deserto do Atacama e as regiões de grande altitude dos Andes.

Dois anos depois de partir, chegou a Medellín, na Colômbia.
Até ali, havia atravessado uma grande parte da América do Sul.
Mas estava prestes a encontrar um dos trechos mais difíceis de toda a aventura.
O Darién: onde a estrada simplesmente desaparece
Entre a Colômbia e o Panamá existe uma região conhecida como Darién Gap, ou Tapón del Darién.
É uma enorme área de floresta, pântanos e rios onde não existe uma estrada ligando os dois países.
Para Bushby, aquilo representava um problema gigantesco.
Como atravessar uma região onde praticamente não há caminhos?
Ele passou cerca de dois meses em Medellín preparando a travessia. Conversou com militares, policiais, jornalistas e pessoas que conheciam a região.
Finalmente, em 2001, entrou na floresta.
Foram dias enfrentando lama, rios, pântanos e uma região que, naquela época, também era marcada pela presença de grupos armados.
Bushby chegou ao Panamá depois de atravessar a selva e acabou detido pelas autoridades panamenhas por 18 dias.
Mas conseguiu continuar.
O Darién havia ficado para trás.
E agora havia um continente inteiro pela frente.
Do Panamá ao Alasca
Depois do Darién, a direção era uma só:
norte.
Bushby atravessou a América Central e chegou ao México.
Depois entrou nos Estados Unidos.
Passou por regiões extremamente quentes, enfrentou longas estradas e percorreu milhares de quilômetros.
Em seguida, continuou pelo Canadá.
Quanto mais para o norte avançava, mais o calor dava lugar ao frio.
A viagem estava começando a assumir características completamente diferentes.
Em 2004, Bushby chegou ao Alasca.
Mas ali surgiu um novo problema.
A estrada acabava.
Para continuar em direção ao norte, ele precisaria enfrentar um dos ambientes mais extremos do planeta.
E o destino seguinte era assustador:
O Estreito de Bering.
A odisseia sobre o gelo do Estreito de Bering
Em março de 2006, Karl Bushby e o aventureiro franco-americano Dimitri Kieffer, que se juntou a ele pelo caminho, chegaram ao Estreito de Bering.
De um lado estava o Alasca, na América do Norte.
Do outro, a Rússia, já na Ásia.
O problema é que entre os dois não havia uma ponte.
Havia gelo.
E não era um piso congelado e tranquilo.
O gelo se movia, quebrava e abria grandes áreas de água.
Bushby e Kieffer passaram 14 dias atravessando aquela região, percorrendo uma rota muito maior do que a distância em linha reta por causa do movimento do gelo.
Em alguns momentos, chegaram a ficar presos sobre placas de gelo à deriva.

Finalmente, conseguiram alcançar o território russo.
Mas a aventura não terminou quando seus pés tocaram terra firme.
Eles foram detidos pelas autoridades russas porque haviam entrado no país fora de um ponto oficial de imigração.
Atravessar o gelo havia sido apenas metade do problema.
Agora começava outra batalha:
A burocracia.
A Rússia: quando o inimigo passou a ser a burocracia
Bushby queria continuar caminhando pela Rússia.
Mas havia um obstáculo que nenhum mapa mostrava:
os vistos.
As regras de permanência dificultavam sua caminhada contínua pelo enorme território russo.
Em alguns períodos, ele precisava deixar o país e depois retornar ao ponto exato onde havia parado.
Em 2008, problemas financeiros e a perda de patrocinadores fizeram a expedição praticamente parar.
Bushby chegou a passar anos sem conseguir continuar.
Em outra ocasião, recebeu uma proibição de entrada na Rússia.
Mas desistir não fazia parte dos seus planos.
Em vez disso, caminhou cerca de 4.800 quilômetros pelos Estados Unidos, de Los Angeles até Washington, D.C., onde foi protestar diante da embaixada russa.
A proibição acabou sendo suspensa em 2014.
E Bushby voltou à sua rota.
Rússia, Mongólia e o Deserto de Gobi
Depois de conseguir avançar novamente, Bushby continuou pela Ásia.
Passou pela Rússia e chegou à Mongólia.
Ali enfrentou outro cenário completamente diferente: o Deserto de Gobi.
Durante parte do percurso, caminhou acompanhado por outros aventureiros e utilizou camelos para transportar equipamentos.
Depois seguiu sozinho.
A rota continuou pela China e, posteriormente, por países da Ásia Central.
Vieram Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão.
O sonho iniciado no Chile, tantos anos antes, ainda estava vivo.
Mas havia outro problema no caminho.
E dessa vez ele seria tão estranho que parece invenção de filme.
Quando um homem que queria caminhar precisou aprender a nadar
Em sua rota pela Ásia, Bushby chegou a um ponto em que problemas de fronteiras e vistos tornavam extremamente difícil seguir pelo caminho terrestre planejado.
À sua frente estava o Mar Cáspio.
Então surgiu uma solução inesperada.
Nadar.
Em 2024, Bushby junto com a aventureira Angela Maxwell atravessaram o Mar Cáspio entre o Cazaquistão e o Azerbaijão.
Foram cerca de 288 quilômetros, realizados ao longo de mais de 30 dias, com barcos de apoio.
Eles nadavam durante períodos do dia e dormiam nas embarcações.
Pode parecer estranho para alguém que passou décadas caminhando.
E realmente era.
O próprio Bushby reconheceu que não era um nadador experiente e que nadar estava muito longe de ser sua atividade preferida.
Mas havia um princípio maior:
Encontrar uma maneira de continuar.

Finalmente, a Europa!
Agora Bushby está na Europa.
Em setembro de 2026, ele se encontra na Bélgica, avançando em direção a Calais, na França. A partir dali está o último grande obstáculo geográfico entre ele e o Reino Unido: o Canal da Mancha.
Bushby pretendia atravessar o Canal da Mancha utilizando o túnel sob o mar.
Mas o Eurotunnel recusou o pedido para que ele utilizasse o túnel de serviço, alegando questões de segurança e manutenção.
E agora?
A alternativa que Bushby vem considerando é impressionante:
Nadar novamente!!!
Ele pretende fazer a travessia com o apoio de uma embarcação, descansando nela entre os períodos de natação. A previsão divulgada é de que a travessia possa levar vários dias.
Depois disso, ainda haverá uma última caminhada.
Da costa inglesa até Hull, sua cidade natal.
Até sua casa…
Quase 50 mil quilômetros depois…
Depois de quase três décadas, os números impressionam.
O site oficial da expedição registrava 49.110 quilômetros percorridos até 30 de agosto de 2026.
São dezenas de milhares de quilômetros.
Mas talvez o número mais impressionante seja outro:
28 anos.
Vinte e oito anos mantendo vivo um projeto iniciado quando ele tinha apenas 29 anos.
Durante esse período, Bushby passou por crises financeiras, problemas com vistos, mudanças políticas, pandemia e outras situações que interromperam temporariamente seu avanço.
Em algumas ocasiões, ele precisou deixar a rota e aguardar em outro país até conseguir autorização para continuar.
Mas, quando podia retornar, retomava a caminhada do ponto em que havia parado.
O mundo mudou enquanto ele caminhava
Karl Bushby saiu do Chile em 1998.
Naquele momento, a internet ainda estava começando a se popularizar.
Os celulares eram muito diferentes.
As redes sociais não existiam.
E ninguém poderia imaginar exatamente como seria o mundo quase três décadas depois.
Enquanto Bushby caminhava, o planeta mudava.
Ele atravessou fronteiras que mudaram de importância, enfrentou novas regras de imigração, viu países e sociedades se transformarem e precisou lidar com acontecimentos que simplesmente não existiam quando começou.
A expedição acabou se tornando, de certa maneira, uma caminhada através do tempo.
O último passo ainda não foi dado
É importante lembrar: Karl Bushby ainda não concluiu sua expedição.
Agora em setembro, ele está na Europa, seguindo em direção ao Canal da Mancha. A própria BBC registrou que ele pretende fazer a travessia a nado em outubro e, depois, continuar caminhando até Hull.
Portanto, o final dessa história ainda está sendo escrito.
Talvez, em breve, aquele jovem que saiu do Chile em 1998 finalmente veja diante de si as ruas de sua cidade natal.
Talvez reconheça lugares que não via há quase três décadas.
Talvez pare por alguns segundos e simplesmente respire.
E então perceba uma coisa:
Chegou.
A lição que fica
Karl Bushby ainda não terminou sua jornada.
A Expedição Goliath continua em andamento.
Mas existe uma lição que já pode ser percebida.
Alguns sonhos são grandes demais para serem realizados rapidamente.
Às vezes, eles exigem anos.
Às vezes, décadas.
E talvez o segredo não esteja em olhar todos os dias para a distância que ainda falta.
Talvez esteja em olhar para o próximo passo.
Um passo.
Depois outro.
E mais outro.
Foi assim que Bushby atravessou continentes.
Foi assim que enfrentou gelo, florestas, desertos e mares.
E é assim que, depois de 28 anos, um homem que saiu do Chile continua caminhando em direção à sua casa.
Porque existem sonhos que não precisam ser rápidos.
Precisam apenas continuar…
Fontes:
www.bbc.com
www.karlbushby.world
Crédito das imagens:
www.karlbushby.world
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