Imagine viver em um país onde uma em cada três pessoas adultas não soubesse ler uma placa, escrever uma carta ou preencher um formulário simples.
Hoje essa realidade parece distante para muitos brasileiros, mas foi exatamente esse o cenário encontrado no Brasil no final da década de 1960.
Naquele período, o analfabetismo era um dos maiores desafios nacionais. Em resposta a esse problema, surgiu o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), um dos maiores programas de educação de jovens e adultos da história do país.
Ao longo de mais de quinze anos, milhões de brasileiros passaram por suas salas de aula. O programa foi elogiado por ampliar o acesso à alfabetização em regiões onde praticamente não existiam oportunidades de estudo, mas também recebeu críticas quanto à sua metodologia, aos critérios de avaliação e aos resultados divulgados.
O Brasil antes do MOBRAL
Na década de 1960, o Brasil vivia um intenso processo de urbanização e industrialização. Muitas pessoas migravam do campo para as cidades em busca de trabalho, mas carregavam uma limitação que dificultava sua inserção social: não sabiam ler nem escrever.
Segundo o Censo Demográfico do IBGE, a taxa de analfabetismo vinha diminuindo ao longo do século XX, porém permanecia extremamente elevada:

Esses números mostram que o problema já vinha sendo reduzido gradualmente antes da criação do MOBRAL, acompanhando a expansão do sistema educacional brasileiro. Ainda assim, em 1970, aproximadamente um terço da população com 15 anos ou mais era analfabeta, um índice considerado muito elevado.
O nascimento do MOBRAL
O Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi criado pela Lei nº 5.379, de 15 de dezembro de 1967, Dia Internacional da Alfabetização, sendo oficialmente implantado em 1968.
Seu principal objetivo era bastante ambicioso: Erradicar o analfabetismo entre jovens e adultos brasileiros em aproximadamente dez anos.
O programa era coordenado pelo governo federal, mas funcionava por meio de convênios com estados, municípios, empresas e entidades da sociedade civil.
A ideia era levar salas de alfabetização para praticamente todo o território nacional.

Como funcionava o programa?
O MOBRAL destinava-se principalmente a pessoas com 15 anos ou mais que nunca haviam frequentado a escola ou que haviam abandonado os estudos muito cedo.
Seu funcionamento envolvia uma grande rede de voluntários e professores treinados.
Os alunos frequentavam aulas em:
- escolas públicas;
- igrejas;
- centros comunitários;
- associações de bairro;
- sindicatos;
- empresas;
- espaços improvisados em pequenas comunidades.
O curso de alfabetização era relativamente curto, concentrando-se na aprendizagem da leitura, da escrita e das quatro operações matemáticas.
Posteriormente, os alunos podiam prosseguir em cursos de educação continuada.
A metodologia utilizada
Embora tenha sido criado após a interrupção dos programas desenvolvidos por Paulo Freire, diversos pesquisadores apontam que o MOBRAL aproveitou alguns elementos presentes em seu método, como o uso de palavras geradoras.
Entretanto, havia uma diferença importante.
Enquanto Paulo Freire selecionava palavras relacionadas diretamente ao cotidiano dos alunos e estimulava discussões críticas sobre sua realidade, o MOBRAL adotava materiais padronizados elaborados por equipes técnicas, buscando uma aplicação uniforme em todo o país.
Essa padronização facilitava a expansão nacional do programa, mas também foi alvo de críticas por reduzir a adaptação às características culturais de cada comunidade.
Muito mais que alfabetização
Com o passar dos anos, o MOBRAL deixou de atuar apenas na alfabetização inicial.
Foram criados diversos programas complementares, entre eles:
- educação integrada;
- profissionalização básica;
- educação comunitária;
- atividades culturais;
- incentivo à leitura;
- programas de saúde e higiene;
- bibliotecas comunitárias;
- ações voltadas ao desenvolvimento das comunidades.
A intenção era ampliar o impacto social do programa e estimular a continuidade dos estudos.
Quantas pessoas passaram pelo MOBRAL?
Os números divulgados ao longo dos anos variam conforme a fonte consultada.
Relatórios oficiais apontavam dezenas de milhões de matrículas realizadas durante sua existência.
Entretanto, especialistas lembram que matrículas não significam necessariamente pessoas alfabetizadas, pois muitos alunos interrompiam os cursos ou precisavam repetir etapas.
Essa diferença explica parte das controvérsias envolvendo a avaliação do programa.
O analfabetismo diminuiu?
A resposta é sim, mas a participação exata do MOBRAL nessa redução ainda é discutida por pesquisadores.
Os dados do IBGE mostram que:
- em 1970, a taxa era de 33,6%;
- em 1980, caiu para 25,5%.
Portanto, durante o período de funcionamento do MOBRAL ocorreu uma redução de cerca de 8 pontos percentuais no analfabetismo nacional.
No entanto, os especialistas observam que essa queda também foi influenciada por diversos outros fatores, como:
- expansão da rede pública de ensino;
- aumento da escolarização infantil;
- crescimento econômico e urbano;
- melhoria do acesso às escolas;
- renovação das gerações, com jovens chegando à vida adulta já alfabetizados.
Por isso, não é possível atribuir toda a redução exclusivamente ao MOBRAL.

As críticas ao programa
Apesar de sua enorme abrangência, o MOBRAL também enfrentou diversas críticas ao longo de sua história.
Entre as mais citadas pelos pesquisadores estão:
- Ênfase na alfabetização rápida – O tempo reduzido dos cursos fazia com que alguns alunos aprendessem apenas habilidades básicas de leitura e escrita.
- Alto índice de evasão – Muitos participantes abandonavam as aulas devido ao trabalho, à distância ou às dificuldades da vida cotidiana.
- Avaliação dos resultados – Diversos estudiosos questionaram os critérios utilizados para medir o sucesso do programa, argumentando que havia diferenças entre pessoas matriculadas, concluintes e efetivamente alfabetizadas.
- Centralização – A padronização nacional do material didático foi considerada eficiente para administrar um programa de grande porte, mas limitava adaptações às realidades locais.
O nome do projeto adquiriu conotação negativa, tornando-se um adjetivo, sinônimo de indivíduo com pouca instrução formal, “semianalfabeto” ou “analfabeto funcional”.
O fim do MOBRAL
Em 1985, com o processo de redemocratização do país, o MOBRAL foi extinto.
Em seu lugar foi criada a Fundação EDUCAR, que passou a coordenar políticas voltadas para a educação de jovens e adultos.
Nos anos seguintes, surgiram novos programas de alfabetização, culminando na consolidação da modalidade atualmente conhecida como Educação de Jovens e Adultos (EJA), oferecida pelas redes públicas de ensino.
O Brasil depois do MOBRAL
A redução do analfabetismo continuou nas décadas seguintes.
Segundo os censos e levantamentos do IBGE:

Embora os números revelem um avanço expressivo, o país ainda enfrenta desafios importantes. O analfabetismo concentra-se principalmente entre pessoas idosas, populações socialmente vulneráveis e regiões com menor acesso histórico à educação, especialmente em boa parte do Nordeste.
Qual é o legado do MOBRAL?
O MOBRAL ocupa um lugar singular na história da educação brasileira.
Poucos programas educacionais marcaram tanto a história do Brasil quanto o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL). Criado em uma época em que milhões de brasileiros não sabiam ler nem escrever, ele representou uma das maiores mobilizações nacionais já realizadas para ampliar o acesso à educação de jovens e adultos.
Ao longo de quase duas décadas, o programa levou salas de aula a cidades grandes, pequenos municípios e comunidades onde a escola muitas vezes era um privilégio. Milhões de pessoas tiveram, por meio dele, o primeiro contato com a leitura, a escrita e os conhecimentos básicos da matemática.
Por outro lado, sua trajetória é marcada por debates sobre a qualidade do ensino oferecido, a metodologia empregada, os critérios de avaliação dos resultados e a dificuldade de medir seu impacto isoladamente em relação às demais transformações educacionais vividas pelo país.
Independentemente dessas diferentes interpretações, o MOBRAL ajudou a ampliar a discussão sobre o direito à educação e abriu caminho para políticas que mais tarde deram origem à atual Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O MOBRAL nos deixou uma lição que continua atual: ensinar alguém a ler e escrever é abrir portas para o conhecimento, a cidadania e novas oportunidades de vida. Afinal, quando a educação avança, toda a sociedade cresce.
Fonte:
www.pt.wikipedia.org
Crédito das imagens:
(01) www.chatgpt.com/dall-e
(02,03) www.pt.wikipedia.org
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