A história do Monstro do Lago Ness, uma enorme criatura de pescoço comprido que, segundo a lenda, viveria nas profundezas de um lago escocês, é uma das histórias misteriosas mais conhecidas do mundo.
Passados séculos de relatos e avistamentos, uma pergunta permanece:
O que há de verdade por trás dessa antiga história?
Um lago enorme e misterioso
O Lago Ness (ou Loch Ness) fica nas Terras Altas da Escócia, região conhecida como Highlands.
É um lago comprido e estreito, com cerca de 37 quilômetros de extensão. Suas águas são escuras e profundas, características que ajudam a explicar por que ele se tornou um cenário perfeito para uma história misteriosa.
Segundo a organização oficial de turismo da Escócia, o lago jamais revelou qualquer criatura que pudesse ser identificada como o famoso Nessie, apelido carinhoso dado ao suposto monstro.
E existe um detalhe importante: uma água escura e profunda dificulta bastante a observação do que acontece abaixo da superfície.
É justamente nesse cenário que a imaginação encontra espaço para trabalhar.

A história é muito mais antiga
Embora tenha se tornado mundialmente famosa principalmente depois que a imprensa divulgou a “fotografia do cirurgião” (que colocamos como imagem de capa deste artigo), na qual supostamente aparece a criatura emergindo das águas, a história de Nessie é muito mais antiga do que aquela imagem.
Muito antes de a famosa fotografia correr o mundo, já existiam relatos de pessoas que afirmavam ter visto uma estranha criatura nas águas da região.
O caso do missionário irlandês
Um dos relatos mais antigos relacionados ao mistério do Lago Ness aparece na obra Vida de São Columba, escrita por Adomnán, abade de Iona, cerca de um século depois dos acontecimentos narrados.
Segundo o texto, por volta do ano 565 d.C., São Columba, um missionário cristão irlandês que atuava na região que hoje conhecemos como Escócia, teria encontrado um grupo de pictos às margens do rio Ness. Eles contaram que um homem havia sido atacado por uma criatura aquática enquanto nadava nas águas do rio.
Columba teria ordenado que um de seus companheiros atravessasse o rio para buscar uma embarcação. Quando a criatura apareceu e avançou em direção ao homem, o santo teria erguido a voz e ordenado que ela recuasse. Segundo a narrativa, o animal teria obedecido e desaparecido nas profundezas.
A história é fascinante, mas precisa ser lida com cuidado.
Vida de São Columba é uma obra religiosa e hagiográfica, isto é, um texto escrito para registrar e exaltar a vida e os feitos de um santo. Portanto, não pode ser tratada como um relatório científico ou como uma prova de que um monstro realmente habitava o rio Ness.
E há um detalhe curioso.
Em outra passagem da mesma obra, também é contado que Columba teria provocado a morte de um javali simplesmente por meio de sua poderosa voz. Para o leitor moderno, isso naturalmente levanta dúvidas sobre como devemos interpretar esses episódios.
Será que o relato deve ser entendido literalmente?
Será que houve algum acontecimento real que, com o passar do tempo, ganhou elementos extraordinários?
Ou seriam algumas dessas histórias formas simbólicas de apresentar o poder e a autoridade do santo?
Não temos como saber com certeza.
O mais importante é perceber que o relato de São Columba não é uma prova da existência de Nessie, mas representa uma das mais antigas histórias envolvendo uma criatura aquática na região do rio Ness.
E existe ainda outra curiosidade: a narrativa de Columba aconteceu no rio Ness, e não exatamente no Lago Ness.
Duncan MacDonald, o homem da seguradora
O primeiro relato do qual se tem registro oficial, remonta a 1880.
O protagonista dessa história foi Duncan MacDonald, um mergulhador profissional que teria sido contratado por uma companhia de seguros para localizar os restos de um navio de carga que havia afundado próximo a Fort Augustus, na região do Canal da Caledônia.
Duncan desceu às águas escuras do lago e encontrou o navio no fundo. Enquanto examinava a embarcação, verificando a quilha e os estragos provocados pelo naufrágio, percebeu algo inesperado.
Próximo ao barco, sobre uma grande rocha, havia uma enorme criatura de aparência estranha.
O mergulhador teria ficado tão assustado que fez imediatamente o sinal para ser puxado de volta à superfície.
Quando chegou ao barco de apoio, seus companheiros teriam ficado impressionados com seu estado. Segundo o relato, Duncan estava muito pálido e tremia de medo.
Depois de se acalmar, contou o que teria visto: um animal gigantesco, que lhe pareceu semelhante a um grande réptil marinho ou até a um enorme sapo.
A experiência teria sido tão assustadora que Duncan, segundo a história, nunca mais realizou outro mergulho no Lago Ness.
Mas há um detalhe importante: esse episódio é apresentado como um relato histórico atribuído a Duncan MacDonald, e não como uma evidência científica da existência de um monstro.
Ainda assim, a história é curiosa. Afinal, se o relato for verdadeiro, Duncan teria observado a suposta criatura não da margem, entre ondas e neblina, mas nas profundezas do próprio lago.
E isso torna o episódio ainda mais intrigante.
Mais avistamentos
No século XX, novos relatos começaram a alimentar a história da criatura.
Em 1923, por exemplo, Alfred Cruickshank teria avistado no Lago Ness um animal com aproximadamente três metros de comprimento e o dorso arqueado.
Mas foi em 2 de maio de 1933 que a história de Nessie começou a ganhar uma dimensão muito maior. O jornal local Inverness Courier publicou uma reportagem sobre o relato de um casal de hoteleiros que afirmava ter visto uma criatura assustadora entrando e saindo da água.

Segundo a descrição, o animal teria se movimentado de maneira semelhante à de alguns golfinhos, aparecendo e desaparecendo rapidamente na superfície.
A notícia causou enorme repercussão e despertou a atenção da imprensa. O interesse cresceu tanto que um circo chegou a oferecer 20 mil libras pela captura da criatura.
A oferta ajudou a desencadear uma verdadeira onda de relatos de pessoas que diziam ter visto o misterioso animal.
Hugh Gray e a primeira fotografia de Nessie
Hugh Gray foi o autor da primeira fotografia do que seria o monstro do Lago Ness.
Gray era morador da região e trabalhava na British Aluminium Company. Naquele domingo, depois de ir à igreja, saiu para sua habitual caminhada nas proximidades do local onde o rio Foyers desemboca no Lago Ness. O dia estava ensolarado e, segundo seu próprio relato, as águas estavam tranquilas.
De repente, ele percebeu algo de grandes dimensões surgindo na superfície.
Gray contou posteriormente ao Scottish Daily Record que o objeto teria se elevado cerca de 60 a 90 centímetros acima da água e provocado bastante movimento na superfície. Ele rapidamente pegou sua câmera e fez algumas fotografias.
O resultado, porém, foi curioso.
Das fotografias que Gray teria feito, apenas uma ficou registrada de maneira aproveitável.

A imagem é pouco nítida e mostra uma forma escura cercada pela água agitada. Para algumas pessoas, ela parece representar parte do corpo de um grande animal. Para outras, entretanto, a fotografia pode mostrar algo bem mais comum.
Ao longo dos anos, diferentes interpretações foram propostas para explicar a imagem. Alguns pesquisadores e estudiosos de Nessie consideraram que ela poderia mostrar uma criatura desconhecida.
O pesquisador Roland Watson, por exemplo, publicou em 2022 uma análise defendendo a possibilidade de que a fotografia seja uma evidência genuína.
Mas existem explicações muito menos extraordinárias.
Uma das interpretações mais conhecidas sugere que Gray pode ter fotografado seu próprio cachorro Labrador nadando na água, possivelmente carregando um objeto na boca.
Outras hipóteses já apontaram para uma lontra, um cisne ou até mesmo um tronco flutuando.
Existe ainda um detalhe importante: a fotografia original sofreu diferentes reproduções e ampliações ao longo dos anos, e o negativo original acabou se perdendo. Isso dificulta uma análise definitiva da imagem.
No ano seguinte, surgiu aquela que se tornaria a fotografia mais famosa de Nessie.
Uma fotografia que enganou o mundo
No dia 21 de abril de 1934, O jornal britânico Daily Mail publicou a foto mais famosa do Monstro do Lago Ness.

A imagem mostrava aquilo que parecia ser uma pequena cabeça presa a um longo pescoço emergindo da água.
A fotografia circulou pela imprensa mundial como prova absoluta da existência real do monstro.
Durante décadas, muita gente acreditou na existência de Nessie, em virtude dessa foto.
Ela ficou conhecida como a “fotografia do cirurgião”, porque foi atribuída ao médico Robert Kenneth Wilson.
Mas a história tinha um problema.
A fotografia era uma fraude.
Em 1994, Marmaduke Wetherell confessou ter falsificado a fotografia quando era repórter free-lancer do jornal Daily Mail em busca de um furo jornalístico.
Wetherell afirmou também que decidiu usar o nome do Dr. Wilson para conferir mais credibilidade ao embuste.
O mais curioso é que o debate não terminou quando a fraude foi descoberta.
Após este caso, ainda surgiram histórias de mais avistamentos do monstro, sem comprovações.
A lenda continuou.
Mas… todas as testemunhas estavam enganadas?
Essa é uma pergunta interessante.
Não é necessário imaginar que todas as pessoas que afirmaram ter visto Nessie estavam mentindo.
Uma pessoa pode observar algo real e, ainda assim, interpretá-lo de maneira errada.
Imagine, por exemplo, observar de longe uma árvore caída flutuando na água.
A distância pode esconder detalhes.
Uma onda pode fazer o objeto parecer maior.
A neblina (e no Lago Ness costuma ter muita!) pode alterar sua aparência.
Uma parte do corpo de um animal pode parecer outra coisa.
E, se a pessoa já conhece a história de um monstro no lago, seu cérebro pode tentar encaixar aquilo que está vendo na imagem que já possui.
Pesquisadores que estudaram os relatos de Nessie apontam justamente para possibilidades como ondas, troncos, aves aquáticas, animais conhecidos e ilusões de percepção.
Isso não significa que todas as testemunhas sejam desonestas.
Significa apenas que nossos olhos não funcionam como máquinas fotográficas perfeitas.
E se fosse mesmo um dinossauro?
Alguns cientistas têm alegado que toda essa lenda pode ser mais plausível do que imaginávamos.
No passado, a descoberta de fósseis de Plesiossauros sugeriu que essas criaturas marinhas poderiam ter vivido em água doce — o que é uma grande revolução comparado ao que sabia até então.
Logo, muitos passaram a acreditar que o animal místico do Lago Ness pertenceu a essa ordem de répteis marinhos.
Pesquisadores de universidades britânicas e marroquinas publicaram um estudo na revista Cretaceous Research no qual descrevem descobertas feitas na formação geológica Kem Kem, ao sul do Marrocos, no Deserto do Saara.
No sítio paleontológico onde há mais de 100 milhões de anos se encontrava um sistema fluvial, os cientistas dizem ter localizado fósseis de Plesiossauros de pequeno porte, em grande parte ossos e dentes de adultos de 3 metros de comprimento e um osso da nadadeira de um indivíduo jovem de 1,5 metro de comprimento.

São indícios de que essas criaturas viviam e se alimentavam em rios e lagos, ao lado de sapos, crocodilos, tartarugas, peixes e do espinossauro, outro dino aquático.
Provavelmente, eles foram se adaptando para tolerar água doce, e alguns talvez tenham passado a existência nela — como acontece com espécies de golfinhos.
Um deles poderia ser, portanto, o querido personagem escocês.
A ideia parece fascinante.
Mas existe um problema enorme.
Os plesiossauros desapareceram há cerca de 66 milhões de anos.
Para que um deles ainda existisse no Loch Ness, seria necessário que uma população tivesse sobrevivido por milhões de anos sem deixar registros fósseis ou outros vestígios confiáveis.
E ainda haveria outra dificuldade: seriam necessários vários indivíduos para manter uma população.
Não bastaria existir “um único monstro”.
A ciência resolveu investigar
Em 2018, uma equipe liderada pelo geneticista Neil Gemmell, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, realizou uma investigação diferente.
Em vez de tentar simplesmente fotografar alguma coisa, os pesquisadores procuraram DNA na água.
A técnica é conhecida como DNA ambiental, ou eDNA.
Funciona assim: animais deixam pequenas partículas de material biológico no ambiente — por exemplo, células da pele, muco, fezes ou outros resíduos.
Esses fragmentos podem permanecer na água.
Ao coletar amostras e analisar o DNA encontrado, os cientistas conseguem descobrir quais espécies vivem ou passaram por determinado ambiente.
A equipe coletou 250 amostras de água em diferentes pontos e profundidades do Loch Ness.
Era uma oportunidade extraordinária para procurar pistas de Nessie.
E o resultado?
Os pesquisadores encontraram DNA de uma grande variedade de seres vivos.
Mas não encontraram evidências de um plesiossauro.
Também não encontraram DNA que sustentasse a presença de um grande peixe desconhecido, como um enorme bagre ou esturjão, nem de um tubarão.
Em outras palavras: a investigação não encontrou o “DNA do monstro”.
Mas apareceu uma surpresa.
A pista das enguias
Os cientistas encontraram uma quantidade significativa de DNA de enguias.
E havia DNA de enguias em praticamente todos os locais analisados.
Isso levou a equipe a considerar uma possibilidade curiosa: alguns dos relatos poderiam ter sido provocados por enguias muito grandes.
O próprio professor Neil Gemmell afirmou que os dados não permitiam determinar o tamanho das enguias encontradas.
Portanto, o estudo não descobriu uma “enguia-monstro”.
O que descobriu foi que havia muitas enguias no lago e que a hipótese de algumas observações corresponderem a enguias grandes não poderia ser simplesmente descartada.
É uma diferença importante.
A ciência não disse:
“Encontramos Nessie e ela é uma enguia.”
A conclusão foi muito mais cuidadosa:
Há enguias no lago, mas o DNA analisado não comprova que exista uma enguia gigantesca responsável pelos relatos.
Então não existe nenhum animal grande no lago?
Existem, sim, animais grandes no Loch Ness.
O problema é outro.
A questão não é saber se existe vida no lago.
Existe muita.
A pergunta é se existe uma espécie desconhecida, de grande porte, capaz de explicar os relatos de Nessie.
Até hoje, não surgiu evidência científica convincente de que exista ali uma população de grandes animais desconhecidos correspondente ao monstro da lenda.
E isso é muito diferente de afirmar que cada objeto estranho visto no lago já foi perfeitamente explicado.
Alguns relatos permanecem simplesmente sem explicação.
Mas “não sabemos o que foi visto” não é a mesma coisa que “era um monstro”.
Por que a lenda continua viva?
Talvez essa seja uma das partes mais interessantes de toda a história.
Nessie deixou de ser apenas uma pergunta sobre a existência de uma criatura desconhecida. Com o passar das décadas, o Monstro do Lago Ness tornou-se parte da cultura e do imaginário da Escócia.
A criatura aparece em livros, filmes, documentários, desenhos, brinquedos, souvenirs e, naturalmente, nas inúmeras atrações turísticas espalhadas pela região do lago.
Nessie também virou negócio
A fama do monstro ultrapassou as fronteiras da Escócia e acabou ajudando a transformar o Loch Ness em um dos destinos turísticos mais conhecidos das Highlands.
A pequena localidade de Drumnadrochit, às margens do lago, tornou-se especialmente conhecida como um dos principais centros ligados à história de Nessie. Ali existem atrações dedicadas ao monstro, lojas de lembranças, passeios pelo lago e outros serviços voltados aos visitantes.
Estimativas divulgadas ao longo dos anos apontam que centenas de milhares de pessoas visitam a região anualmente, e alguns levantamentos chegaram a trabalhar com números próximos de 500 mil a 1 milhão de visitantes por ano.
O impacto econômico também é significativo. Um estudo citado pela imprensa escocesa estimou que a lenda de Nessie poderia representar cerca de 41 milhões de libras por ano para a economia escocesa, considerando os gastos associados ao turismo relacionado ao monstro.
É importante observar que esses valores são estimativas, realizadas em determinados períodos e utilizando diferentes critérios. Portanto, não devem ser entendidos como uma contagem exata e permanente do dinheiro gerado por Nessie.
Mesmo assim, ajudam a revelar uma coisa: uma criatura cuja existência nunca foi comprovada acabou se tornando um importante personagem do turismo escocês.
E há uma ironia nisso.
Quanto mais a ciência procura respostas para o mistério, mais a própria investigação desperta curiosidade.
Quanto mais fotografias, relatos e expedições aparecem, mais pessoas querem conhecer o lugar onde tudo isso acontece.
E quanto mais visitantes chegam ao Lago Ness, mais a história de Nessie continua sendo contada.
Um mistério que atravessou fronteiras
O interesse pela criatura também se tornou internacional.
Pessoas de diferentes partes do mundo conhecem o nome Nessie mesmo sem nunca terem visitado a Escócia.
O termo “Loch Ness Monster” gera cerca de 200.000 buscas mensais no Google.
A história atravessou gerações e idiomas, alimentada por livros, programas de televisão, filmes, documentários e, mais recentemente, pela internet e pelas redes sociais.
Por que acreditamos em histórias misteriosas?
Talvez Nessie também revele algo sobre nós mesmos.
Quando encontramos um mistério, queremos uma explicação.
Quando não conseguimos encontrá-la, nossa imaginação começa a trabalhar.
Uma testemunha conta o que viu.
Outra pessoa conta uma experiência parecida.
Um jornal publica a história.
Uma fotografia aparece.
Alguém organiza uma expedição.
E, pouco a pouco, o relato cresce.
Isso não significa que toda história seja verdadeira. Significa que os seres humanos gostam de procurar respostas para aquilo que ainda não compreendem.
É justamente essa mistura de curiosidade, imaginação, cultura e busca por evidências que mantém Nessie viva.
Talvez o monstro nunca tenha existido como a criatura descrita nas lendas.
Mas a história existe.
E, depois de atravessar séculos, continentes e gerações, ela continua levando pessoas até as águas escuras do Lago Ness — todas com a mesma pergunta na cabeça:
“E se, desta vez, eu conseguir enxergar Nessie?”
Fontes:
www.en.wikipedia.org
www.britannica.com
www.dw.com
Crédito das imagens:
(01, 05) www.dailymail.com
(02) www.turismo.eurodicas.com.br
(03) www.inverness-courier.co.uk
(04) www.dailyrecord.co.uk
(06) www.bath.ac.uk
Compartilhe este post:

Deixe um comentário!