As águas do Oceano Pacífico Equatorial estão aquecendo rapidamente, e os principais centros de monitoramento climático do mundo já confirmaram: o El Niño está oficialmente de volta.
Mas este não é um El Niño qualquer.
Modelos climáticos da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), da NASA e de diversos centros internacionais indicam que o fenômeno poderá atingir intensidade comparável — ou até superior — aos grandes eventos registrados em 1877-1878, 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.
Alguns estudos chegam a sugerir que poderá ser o mais intenso desde o início dos registros modernos, embora essa possibilidade ainda dependa da evolução dos próximos meses.
Para o Brasil, isso significa um período de atenção redobrada.
O que é o El Niño?
O El Niño é a fase quente do fenômeno climático conhecido como ENSO (El Niño-Oscilação Sul).
Em condições normais, os ventos alísios empurram as águas superficiais do Oceano Pacífico em direção à Indonésia e à Austrália. Isso permite que águas frias subam na costa do Peru e do Equador.
Durante o El Niño acontece exatamente o contrário.
Os ventos enfraquecem (ou até mudam temporariamente de direção), permitindo que enormes volumes de água quente avancem para o Pacífico Central e Oriental.
Essa simples mudança modifica completamente a circulação da atmosfera terrestre.
É como se alguém alterasse o funcionamento de uma gigantesca engrenagem responsável pelo clima do planeta.
O que está acontecendo em 2026?
Desde o início do ano, cientistas observaram o aumento contínuo da temperatura das águas superficiais e profundas do Pacífico.
Satélites da NASA registraram um crescimento da altura da superfície do mar — um importante indicador da presença de grandes massas de água quente abaixo da superfície.
Além disso, enormes ondas internas de calor, chamadas Ondas de Kelvin, atravessaram o oceano transportando energia para a costa americana, fortalecendo ainda mais o fenômeno.
Segundo a NOAA:
- O El Niño já está oficialmente estabelecido;
- Há 97% de probabilidade de ele continuar até o início de 2027;
- Existe alta possibilidade de atingir categoria muito forte (“Super El Niño”).
Por que alguns cientistas estão muito preocupados?
Nem todo El Niño produz grandes desastres.
Mas quanto maior o aquecimento do Pacífico, maiores costumam ser seus impactos globais.
Alguns modelos climáticos projetam que o aquecimento da região Niño 3.4 poderá superar 2 °C acima da média, entrando na categoria dos eventos mais intensos já observados. Outros estudos chegam a sugerir valores ainda maiores, embora isso ainda dependa da evolução do sistema nos próximos meses.
É importante destacar que expressões como “Super El Niño” ou “o mais forte em 150 anos” são frequentemente usadas pela imprensa, mas não constituem uma classificação oficial da NOAA. A classificação científica utiliza categorias como fraco, moderado, forte e muito forte.

Entendendo o gráfico acima
Para entender o monitoramento moderno do fenômeno El Niño, precisamos desmembrar o gráfico acima em quatro partes principais: a região monitorada, a correção do aquecimento global, o banco de dados utilizado e as réguas de intensidade.
Abaixo, cada uma dessas partes é explicada de forma direta e descomplicada.
- Região Niño 3.4
É a área do Oceano Pacífico Equatorial usada como o principal termômetro global para identificar o El Niño ou a La Niña.
– Localização: Fica na porção central-leste do Pacífico, delimitada entre as latitudes 5ºN – 5ºS e as longitudes 170ºC – 120ºC.
– Importância: É a região mais estratégica porque as mudanças na Temperatura da Superfície do Mar (TSM) ali têm o maior poder de alterar a circulação dos ventos tropicais e ditar o clima global. - Índice RONI (Relative Oceanic Niño Index)
O RONI (Em portugûes “Índice Oceânico Niño Relativo“) é o novo índice oficial adotado por órgãos como a NOAA a partir de 2026 para avaliar o El Niño.
– Como funciona: O índice tradicional (ONI) apenas media o aquecimento absoluto na região Niño 3.4. O RONI faz algo diferente: ele pega a anomalia de temperatura do Pacífico Central e subtrai o aquecimento médio de toda a faixa tropical global (entre 20ºN e 20ºS).
– Por que ele foi criado? Devido ao aquecimento global, todos os oceanos estão mais quentes. Se usássemos apenas o índice antigo, pareceria que o planeta vive em um El Niño perpétuo. O RONI remove esse “ruído” do aquecimento global de fundo, focando apenas no contraste térmico real que mexe com a atmosfera.
– As estações: Nos gráficos da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA), essas siglas representam períodos de três meses consecutivos (trimestres móveis), usando a primeira letra de cada mês em inglês.
O Centro de Previsão Climática (CPC) adota essa divisão trimestral para calcular médias e tendências de fenômenos de longo prazo, como o El Niño e La Niña.
As siglas na parte inferior do gráfico significam: JJA (Junho, Julho e Agosto); JAS (Julho, Agosto e Setembro); ASO (Agosto, Setembro e Outubro); SON (Setembro, Outubro e Novembro); OND (Outubro, Novembro e Dezembro) e assim sucessivamente. - ERSSTv5 (Extended Reconstructed Sea Surface Temperature – Version 5)
É o banco de dados histórico e global de temperaturas dos oceanos mantido pela NOAA.
– Significado da sigla em português: “Temperatura da Superfície do Mar Reconstruída e Estendida – Versão 5”.
– Função: Ele combina dados históricos de navios, boias oceânicas e satélites desde o século XIX até o presente. É a base matemática que os cientistas usam para calcular o que é uma temperatura “normal” e o que é uma “anomalia” (desvio da média). - Os Limiares (Thresholds)
Os “limiares” são as réguas de temperatura que definem quando o fenômeno começa e qual a sua força. Para configurar oficialmente um El Niño, a média móvel do índice RONI deve se manter igual ou superior a +0,5ºC por pelo menos 5 trimestres consecutivos.
A classificação de intensidade das anomalias segue os seguintes patamares:

Resumo da ópera: Quando alguém menciona “limiares do índice Niño 3.4/RONI relativo ao ERSSTv5“, está apenas dizendo: “Estamos medindo o aquecimento do Pacífico Central (Niño 3.4), limpando o efeito do aquecimento global (RONI), usando o histórico confiável da NOAA (ERSSTv5) para ver em qual categoria de intensidade de El Niño nós nos enquadramos”.
Como o Brasil costuma ser afetado?
Embora cada episódio seja diferente, existe um padrão bastante conhecido.
Sul – Normalmente é a região que mais sofre.
Podem ocorrer:
- chuvas persistentes;
- enchentes;
- alagamentos;
- deslizamentos;
- prejuízos para agricultura.
Norte e Amazônia – O cenário costuma ser oposto.
Há tendência de:
- redução das chuvas;
- rios mais baixos;
- aumento das queimadas;
- seca prolongada;
- dificuldade de navegação.
Nordeste – Diversas áreas podem enfrentar:
- estiagens;
- redução das chuvas;
- dificuldades para reservatórios;
- prejuízos agrícolas.
Centro-Oeste – Dependendo da intensidade do fenômeno, podem ocorrer:
- calor extremo;
- períodos secos prolongados;
- aumento do risco de incêndios florestais.
Sudeste – Os efeitos variam bastante.
Em alguns anos há:
- ondas de calor;
- tempestades intensas;
- alterações no início ou no fim da estação chuvosa.
Esses impactos dependem da interação entre o El Niño e outros sistemas atmosféricos.
A Agricultura pode sofrer bastante
O campo costuma ser um dos setores mais afetados.
Mudanças no regime de chuvas influenciam diretamente culturas como:
- soja;
- milho;
- trigo;
- arroz;
- café.
Enquanto algumas regiões podem registrar excesso de chuva, outras enfrentam seca severa.
Isso reduz a produtividade e pode aumentar o preço dos alimentos.
O calor global também aumenta
O El Niño não cria o aquecimento global.
Mas ele potencializa o calor já existente.
Quando grandes quantidades de calor armazenadas no oceano são liberadas para a atmosfera, a temperatura média do planeta costuma subir.
Foi exatamente isso que ocorreu nos grandes eventos de 1998, 2016 e 2024.
Especialistas acreditam que 2027 poderá registrar novos recordes globais de temperatura caso o atual El Niño alcance a intensidade prevista.
Furacões, incêndios e outros efeitos
Os impactos não ficam restritos ao Brasil.
Em diferentes partes do mundo, o El Niño pode provocar:
- enchentes históricas;
- secas prolongadas;
- ondas de calor;
- incêndios florestais;
- alterações na pesca;
- mudanças na migração de espécies marinhas.
Ao mesmo tempo, costuma reduzir a atividade de furacões no Atlântico, devido ao aumento do cisalhamento dos ventos sobre essa região.

É possível prever exatamente o que acontecerá?
Não.
Os cientistas conseguem prever o comportamento do oceano com boa precisão.
Entretanto, transformar esse aquecimento em previsões exatas de chuva, seca ou calor para cada cidade continua sendo um enorme desafio.
Por isso, os institutos meteorológicos acompanham diariamente a evolução do fenômeno.
O que podemos esperar?
Os próximos meses serão decisivos.
Se o aquecimento continuar acelerando, diversos países poderão enfrentar eventos climáticos extremos.
Por isso, governos, agricultores, empresas de energia, Defesa Civil e centros de monitoramento já acompanham atentamente cada atualização da NOAA, da NASA e da Organização Meteorológica Mundial.
O objetivo não é causar medo, mas permitir planejamento.
Quanto antes os riscos forem conhecidos, maiores são as chances de reduzir prejuízos e proteger vidas.
A lição que fica
O El Niño é um dos maiores exemplos de como tudo na natureza está interligado.
Uma mudança nas águas do Oceano Pacífico pode alterar o regime de chuvas na Amazônia, influenciar a agricultura brasileira, modificar a temporada de furacões no Atlântico e afetar milhões de pessoas em diferentes continentes.
Estudar fenômenos como esse é muito mais do que aprender Geografia ou Ciências. É compreender que o planeta funciona como um grande sistema, no qual oceanos, atmosfera, florestas e seres humanos estão profundamente conectados.
Conhecer esses mecanismos nos ajuda não apenas a entender o clima, mas também a nos preparar para um futuro em que informação, prevenção e planejamento serão cada vez mais importantes.
Fontes:
www.ndmais.com.br
www.gazetadopovo.com.br
www.18horas.com.br
www.ecoa.org.br
www-cpc-ncep-noaa-gov
Crédito das imagens:
(01) www.instagram.com/PACER/@climaueg
(02) www-cpc-ncep-noaa-gov (Gráfico)
(03) www.ecoa.org.br
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