Há palavras que informam. Outras emocionam.
Mas existem aquelas raras que parecem suspender o tempo por alguns instantes, convidando-nos a olhar para dentro de nós mesmos.
É justamente esse convite que o POEME-SE! renova a cada domingo. Um encontro semanal com grandes vozes da poesia brasileira e universal, capazes de transformar sentimentos em versos e fazer da simplicidade uma experiência inesquecível.
Hoje, viajamos até Alagoas para encontrar uma dessas vozes.
Uma mulher que fez da sensibilidade sua assinatura e da poesia um espelho da alma humana.
Nossa convidada é Anilda Leão, autora do delicado e profundamente comovente “Poema das Horas Perdidas”.
Seus versos não falam apenas da passagem do tempo. Falam das horas que deixaram de ser vividas ao lado de alguém, dos encontros que não aconteceram, das palavras que ficaram por dizer e da tristeza provocada pela distância entre duas pessoas que um dia compartilharam carinho e afeto.
Mesmo separados, a lembrança da última carícia continua viva. Ela permanece nas mãos, na boca e no corpo da narradora, mostrando que algumas recordações sobrevivem muito depois da despedida.
Com uma linguagem simples e profundamente emotiva, Anilda Leão nos lembra que o maior vazio não é o das horas que passam, mas o das horas que poderiam ter sido vividas e nunca voltam.
Antes de iniciar a leitura, permita-se diminuir o ritmo.
Alguns poemas não pedem apenas os olhos.
Pedem também o coração.
POEME-SE!

Sobre a autora:

Anilda Leão Moliterno nasceu em 15 de julho de 1923, em Maceió, Alagoas, em uma família que valorizava a educação e a participação na vida pública. Era filha de Joaquim de Barros Leão, comerciante de destaque na capital alagoana, líder de sua categoria profissional, deputado estadual e prefeito de Maceió durante o governo de Arnon de Mello, e de Georgina de Barros Leão.
Desde muito cedo demonstrou sensibilidade artística e gosto pelas letras. Estudou o ensino primário no tradicional Colégio Imaculada Conceição e iniciou o curso ginasial no Liceu Alagoano, transferindo-se posteriormente para a Escola Técnica Federal de Alagoas, onde concluiu o curso de Ciências Contábeis.
Seu grande sonho, porém, era cursar Medicina. A vontade acabou frustrada porque, na época, seu pai não permitiu que seguisse essa carreira — uma decisão que refletia os costumes ainda bastante conservadores da sociedade brasileira das primeiras décadas do século XX.
Paralelamente aos estudos, dedicou-se intensamente às artes. Frequentou o então Conservatório Alagoano de Música, onde estudou música, canto lírico, declamação, dicção e oratória, habilidades que mais tarde enriqueceriam sua atuação como escritora, atriz e cantora.
O nascimento de uma escritora
A literatura entrou cedo em sua vida.
Com apenas 13 anos, teve seu primeiro poema publicado. O texto abordava um tema social delicado: o abandono infantil. Desde o início, seus escritos revelavam preocupação com o ser humano e sensibilidade diante das desigualdades.
Ainda jovem, colaborou com importantes publicações alagoanas, entre elas as revistas Caetés e Mocidade, além dos jornais Gazeta de Alagoas e Jornal de Alagoas, construindo gradualmente seu espaço no cenário literário do estado.
Em 1961, incentivada pelo marido, o arquiteto e escritor Carlos Moliterno, publicou seu primeiro livro de poemas, “Chão de Pedras”, obra que revelou ao público uma autora de linguagem delicada, profunda e marcada pela reflexão sobre os sentimentos humanos. Foi justamente nesse livro que apareceu “Poema das Horas Perdidas”, um dos textos mais conhecidos de sua produção poética.
Ao longo da carreira, também escreveu contos, crônicas e artigos para jornais, consolidando-se como uma das vozes femininas mais importantes da literatura alagoana.
Uma mulher à frente de seu tempo
Anilda Leão viveu em uma época em que muitos assuntos simplesmente não eram discutidos em público.
Mesmo assim, recusou-se a aceitar os limites impostos às mulheres de sua geração.
Em seus textos abordou temas considerados polêmicos para a época, como a condição feminina, a virgindade, a prostituição e a homossexualidade, demonstrando coragem para enfrentar preconceitos e ampliar o debate sobre questões sociais.
Seu casamento também rompeu convenções. Em 1953, aos trinta anos, casou-se com o arquiteto e escritor Carlos Moliterno, que era desquitado em uma época em que o divórcio ainda não existia no Brasil. A união provocou forte repercussão na sociedade alagoana, mas o casal permaneceu junto durante 45 anos, formando uma família com os filhos Luciana e Carlos Alberto.
Atuação em defesa das mulheres e da democracia
Além da literatura, Anilda Leão teve intensa participação nos movimentos sociais.
A partir da década de 1950 passou a integrar a Federação Alagoana pelo Progresso Feminino, inicialmente como cantora em eventos promovidos pela entidade. Pouco depois tornou-se uma de suas principais lideranças.
Representou Alagoas no Congresso Mundial de Mulheres, realizado em Moscou, em 1963, e, décadas mais tarde, assumiu a presidência da instituição, fortalecendo sua atuação em defesa dos direitos das mulheres.
Seu compromisso com a democracia também ficou evidente durante os anos da Ditadura Militar. Em 1978, quando ocupava a direção do Departamento de Assuntos Culturais do Estado de Alagoas, manifestou-se publicamente em favor da anistia ampla, geral e irrestrita para os presos políticos, defendendo a reconstrução democrática do país e a responsabilização pelos abusos cometidos durante o regime.
Essa postura reafirmou uma característica presente durante toda a sua vida: a disposição de defender aquilo em que acreditava, mesmo quando isso exigia coragem.
Literatura, teatro, cinema e televisão
A inquietação artística de Anilda Leão ultrapassou as páginas dos livros.
Ao longo da vida construiu também uma sólida carreira como atriz, participando de peças teatrais, produções televisivas e importantes filmes brasileiros.
Entre seus trabalhos mais conhecidos estão participações em “Bye Bye Brasil”, “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos, “Deus é Brasileiro”, além dos seriados “Lampião e Maria Bonita” e “Órfãos da Terra” (1970) bem como em produções regionais e espetáculos teatrais como “Bossa Nordeste” e “Onde Canta o Sabiá”.
Sua facilidade para transitar entre diferentes formas de expressão artística fez dela uma das figuras culturais mais versáteis de Alagoas.
Reconhecimento e legado
Em 1973, recebeu o tradicional Prêmio Graciliano Ramos, concedido pela Academia Alagoana de Letras, pela coletânea de contos “Riacho Seco”, reconhecimento que consolidou seu nome entre os principais escritores do estado.
Ao longo da carreira foi homenageada com diversas distinções, entre elas as Comendas Mário Guimarães, Nise da Silveira, Graciliano Ramos, Ordem do Mérito dos Palmares, Teotônio Vilela e o Diploma do Mérito Cultural, concedido pela União Brasileira dos Escritores.
Quando faleceu, em 6 de janeiro de 2012, aos 88 anos, deixou uma obra marcada pela sensibilidade, pela coragem e pelo compromisso com a cultura brasileira.
Em reconhecimento à sua contribuição, uma rua de Maceió recebeu o nome de Rua Escritora Anilda Leão Moliterno, perpetuando a memória de uma mulher que nunca teve receio de desafiar seu tempo.
Hoje, seus poemas continuam emocionando leitores porque falam de sentimentos que jamais envelhecem: o amor, a saudade, a esperança e a própria condição humana.
Fontes:
www.elfikurten.com.br
www.pt.wikipedia.org
Crédito das imagens:
(01, 03) www.chatgpt.com/dall-e
(Baseado em imagem da poetisa)
(02) www.magnific.com (Moldura)
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