Imagine ser escolhido para ocupar o trono de um dos maiores impérios da Antiguidade.
Agora imagine perder esse trono apenas 27 dias depois.
Foi exatamente isso que aconteceu com Liu He, membro da família imperial da dinastia Han.
Sua passagem pelo poder foi tão curta que ele acabou conhecido como um dos imperadores mais breves da história chinesa.
Mas sua história não terminou quando perdeu a coroa.
Mais de dois mil anos depois, arqueólogos encontraram seu túmulo — e dentro dele havia uma quantidade impressionante de moedas, ouro, instrumentos musicais, objetos de luxo e milhares de documentos antigos.
O que estava enterrado naquele lugar ajudaria a revelar uma história muito mais complexa do que a de simplesmente um jovem que “não soube ser imperador”.
Um príncipe escolhido para ser imperador
Liu He nasceu por volta de 92 a.C. e era neto do poderoso imperador Wu da dinastia Han.
Seu pai era Liu Bo, príncipe de Changyi. Quando o pai morreu, Liu He herdou seu título ainda criança.
Em 74 a.C., o imperador Zhao morreu sem deixar um herdeiro direto.
Foi então que Liu He foi escolhido para ocupar o trono.
Ele tinha cerca de 19 anos.
De repente, o jovem príncipe de Changyi se tornou imperador de uma das grandes potências do mundo antigo.
Mas a experiência duraria muito pouco.
Apenas 27 dias no trono
Segundo a tradição registrada na história oficial da dinastia Han, Liu He apresentou um comportamento considerado inadequado para um imperador.
As acusações incluíam desrespeito às normas rituais, comportamento considerado imoral e decisões incompatíveis com as responsabilidades do cargo.
Por trás de sua deposição estava também Huo Guang, um poderoso ministro que exercia enorme influência sobre o governo.
Depois de apenas 27 dias, Liu He foi retirado do trono.
A própria documentação histórica da dinastia Han registra que ele foi deposto depois desse curtíssimo período.
É importante lembrar, porém, que boa parte da imagem negativa de Liu He vem justamente dessas fontes históricas oficiais, produzidas dentro do contexto político da própria dinastia.
Música, jogos e uma vida de luxo
O túmulo de Liu He trouxe pistas fascinantes sobre seus interesses.
Entre os objetos encontrados estavam instrumentos musicais, incluindo sinos, instrumentos de cordas e instrumentos de sopro.
Também foram encontrados objetos relacionados ao Liubo, um antigo jogo de tabuleiro muito popular na China.
Do imperador deposto ao marquês
Depois de perder o trono, Liu He retornou à sua antiga região.
Anos mais tarde, o novo imperador, Xuan, concedeu-lhe o título de Marquês de Haihun.
Foi então que Liu He passou a viver na região que hoje pertence à província de Jiangxi, no sul da China.
Ele morreu em 59 a.C., com cerca de 33 ou 34 anos.
E foi enterrado com uma riqueza que surpreenderia os arqueólogos mais de dois milênios depois.
O túmulo que quase foi saqueado
A história do túmulo é impressionante por si só.
Em 2011, autoridades receberam informações sobre uma possível atividade de saqueadores em uma antiga área funerária perto de Nanchang, na província de Jiangxi.
Arqueólogos chegaram ao local e começaram a investigar.
O que encontraram era uma enorme estrutura funerária da dinastia Han.
A identificação do proprietário foi posteriormente confirmada por uma pequena selo de jade com o nome “Liu He”.
A escavação revelou mais de 10 mil objetos incluindo moedas, objetos de ouro, bronze, jade e ferro, além de itens de madeira laqueada, cerâmica, tecidos, tapeçarias de bambu e palha, e tiras de bambu e madeira.

Uma montanha com milhões de moedas
Os arqueólogos encontraram aproximadamente 10 toneladas de moedas de bronze.
Eram moedas conhecidas como Wuzhu, utilizadas durante a dinastia Han.
Uma das fontes descreve que um dos arqueólogos da equipe levou cerca de seis meses apenas para contar as moedas, estimadas em cerca de 5 milhões de moedas.
E havia ouro. Muito ouro.
Se as moedas já impressionam, o ouro torna a história ainda mais extraordinária.
Os levantamentos arqueológicos mais completos registraram cerca de 478 objetos de ouro, totalizando aproximadamente 115 a 120 quilos.
Entre eles havia diferentes tipos de peças, como os chamados lingotes em forma de ferradura, peças associadas ao qilin e os famosos “bolos” ou discos de ouro.

Por que Liu He tinha tanta riqueza?
A enorme quantidade de ouro e moedas não significa necessariamente que Liu He tenha acumulado pessoalmente toda aquela fortuna durante os poucos anos em que viveu como Marquês de Haihun.
Ele vinha de uma família imperial extremamente poderosa.
Além disso, possuía riquezas, propriedades, objetos e bens acumulados ao longo de sua vida aristocrática.
Um estudo do Instituto de História da Academia Chinesa de Ciências Sociais aponta justamente para a herança familiar e as recompensas recebidas como explicações para a riqueza encontrada no túmulo.
E o misterioso melão?
Aqui a história fica ainda mais curiosa.
Quando os pesquisadores estudaram o interior do túmulo, encontraram sementes de melão (Cucumis melo).
Algumas estavam na área funerária associada ao corpo de Liu He.
Um estudo científico publicado em 2020 analisou essas sementes.
Os pesquisadores concluíram que sua localização e seu estado de preservação indicavam que o melão provavelmente fazia parte de uma das últimas refeições de Liu He.
Também levantaram a possibilidade de que o melão fosse uma de suas frutas favoritas.
Daí surgiu uma história que ganhou enorme popularidade e que encontramos em várias publicações na internet:
Liu He teria morrido porque comeu melão demais.
Muita calma nessa hora!!!
A arqueologia não provou isso!
As sementes demonstram que ele havia comido melão próximo ao período de sua morte.
Elas não provam que o melão tenha sido a causa da morte.
Os registros históricos também não fornecem uma causa de morte suficientemente segura.
Portanto, dizer que “Liu He morreu de tanto comer melão” transforma uma hipótese em certeza.
E a ciência precisa fazer justamente o contrário: separar o que sabemos daquilo que imaginamos.
O legado cultural e político revelado no túmulo de Liu He
O mais fascinante nessa descoberta talvez não seja a quantidade de ouro.
Nem as toneladas de moedas.
Nem mesmo as sementes de melão.
É o fato de que o túmulo permitiu confrontar a história escrita com as evidências deixadas pelo próprio mundo de Liu He.
Os arqueólogos encontraram milhares de objetos e mais de 5 mil fragmentos de bambu e madeira escritos, contendo textos clássicos, documentos administrativos, correspondências e outros registros.
Esses materiais ajudam os pesquisadores a compreender não apenas Liu He, mas também a educação, a cultura, a música, os jogos, a religião, a administração e a vida da elite durante a dinastia Han.
Um homem que a história quase esqueceu
Liu He entrou para a história por causa de seus 27 dias no trono.
Mas seu túmulo mostrou que sua história era muito maior.
Ele foi príncipe.
Foi imperador.
Foi deposto.
Tornou-se marquês.
Viveu cercado de riqueza.
Gostava de música e jogos.
E, ao morrer ainda jovem, levou para o túmulo uma parte extraordinária da cultura material de seu tempo.
Dois mil anos depois, arqueólogos encontraram aquilo que ele deixou para trás.
E foi justamente o que estava escondido sob a terra que permitiu que aquele jovem, que quase desapareceu das páginas da História, voltasse a falar.
Fontes:
www.timesofindia.com
www.mainuat.chiculture.org.hk
Crédito das imagens:
(01) www.arena.ai
(02, 03) www.mainuat.chiculture.org.hk/Yang Jun
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