Em 1956, o Brasil era muito diferente do país que conhecemos hoje.
As cidades cresciam, novas fábricas surgiam e o sonho de modernização ganhava força.
Mas, quando o assunto era automóvel, o país ainda dependia bastante de veículos importados ou montados aqui com grande quantidade de peças vindas do exterior.
Foi nesse cenário que apareceu um carrinho que, à primeira vista, parecia até uma brincadeira.
Pequeno, arredondado, com apenas uma porta (na frente) e espaço para duas pessoas, ele tinha um formato que lembrava um ovo.
Seu nome?
Romi-Isetta.
E, apesar do tamanho, sua importância para a história do Brasil foi enorme.
Em 2026, o pequeno pioneiro completa 70 anos.
Antes do Romi-Isetta, um Brasil que ainda começava a fabricar automóveis
No começo da década de 1950, o número de automóveis particulares no Brasil ainda era pequeno. Muitos veículos eram importados ou apenas montados no país utilizando peças estrangeiras.
A indústria automobilística brasileira ainda estava dando seus primeiros passos.
Foi então que algumas empresas perceberam que o Brasil poderia fazer muito mais do que simplesmente montar carros.
Poderia fabricá-los.
E uma empresa que nem sequer era originalmente uma fabricante de automóveis decidiu aceitar esse desafio.
Era a Romi, de Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo. Fundada em 1930, a empresa fabricava máquinas industriais e agrícolas.
Um carro italiano chama a atenção dos brasileiros
A história começou na Itália.
Em 1953, a empresa italiana Iso Automoveicoli apresentou um pequeno veículo chamado Isetta.
O projeto tinha uma proposta bastante diferente dos carros tradicionais.
Ele era compacto, econômico e pensado principalmente para deslocamentos urbanos.
Em 1955, Américo Emílio Romi e seu enteado, Carlos Chiti, conheceram o veículo e ficaram interessados na possibilidade de fabricá-lo no Brasil.
Eles chegaram a trazer duas unidades para o país para estudar seu funcionamento e verificar se o projeto poderia ser adaptado à produção brasileira.
A ideia inicialmente era fazer uma parceria com a empresa italiana.
Mas a Iso enfrentava dificuldades financeiras no cenário do pós-guerra.
Então a Romi decidiu seguir adiante por conta própria, obtendo a licença para fabricar o pequeno automóvel no Brasil.
E foi aí que uma aventura industrial começou.
O primeiro Romi-Isetta brasileiro
No dia 30 de junho de 1956, às 11h30, aconteceu um momento histórico.
O primeiro Romi-Isetta produzido no Brasil saiu da linha de montagem da fábrica de Santa Bárbara d’Oeste.
Era o carro número 001.

Ainda não era o lançamento oficial. Isso aconteceria alguns meses depois.
Mas aquele pequeno automóvel já havia realizado algo gigantesco:
um carro de passeio estava sendo fabricado em território brasileiro.
E não era simplesmente um veículo importado e montado com peças estrangeiras.
A Romi havia conseguido desenvolver uma cadeia de fornecedores nacionais e o primeiro modelo apresentava cerca de 72% de nacionalização em peso.
E então veio o grande desfile
O lançamento oficial aconteceu em 5 de setembro de 1956.
Dezesseis Romi-Isettas saíram pelas ruas de São Paulo em uma verdadeira caravana.
Imagine a cena:
Em uma época em que um automóvel pequeno e com uma porta na frente era algo completamente diferente, uma fila daqueles carrinhos percorria o centro da maior cidade brasileira.

Era uma novidade tecnológica.
Era também um símbolo de que o Brasil começava a construir sua própria indústria automobilística.
E 70 anos depois, essa data continua sendo lembrada.
Em setembro de 2026, inclusive, um encontro realizado em Santa Bárbara d’Oeste reuniu 42 Romi-Isettas e mais de 2 mil pessoas para celebrar os 70 anos do modelo.

Por que ele parecia um “ovo sobre rodas”?
Essa talvez seja uma das características que mais chama a atenção de quem vê uma Romi-Isetta pela primeira vez.
Seu formato era arredondado e compacto.
Mas não se tratava apenas de uma escolha estética.
O projeto original da Isetta havia sido desenvolvido por profissionais ligados à engenharia aeronáutica, e várias soluções lembravam a tecnologia dos aviões.
A carroceria tinha formato aerodinâmico, havia bastante área envidraçada e a porta ficava na parte dianteira.
Isso mesmo!
Em vez de entrar pela lateral, como fazemos nos carros atuais, motorista e passageiro entravam pela frente.
A solução também facilitava o acesso em espaços apertados.
Tão pequeno que cabia quase em qualquer lugar
O Romi-Isetta tinha aproximadamente 2,25 metros de comprimento e pesava cerca de 350 quilos.
Para comparar, muitos carros atuais têm mais de quatro metros de comprimento.
O pequeno pioneiro tinha apenas dois lugares.
Era quase como se alguém tivesse perguntado:
“E se fizéssemos um carro usando somente o espaço realmente necessário?”
E essa ideia fazia sentido em uma época em que combustível custava dinheiro, as cidades começavam a ficar mais movimentadas e os automóveis ainda eram muito menos comuns.
Segundo dados da Fundação Romi, o modelo podia alcançar cerca de 85 km/h e tinha consumo próximo de 25 quilômetros por litro.
Um carro pequeno, mas cheio de soluções curiosas
O Romi-Isetta tinha algumas características que hoje parecem muito estranhas.
Ele possuía:
- uma única porta dianteira;
- dois lugares;
- motor pequeno;
- carroceria extremamente compacta;
- apenas três pontos de apoio das rodas traseiras muito próximas entre si;
- baixo peso;
- grande área de vidro.
E havia outra curiosidade:
A coluna de direção acompanhava a abertura da porta dianteira.
Assim, quando a porta era aberta, parte do conjunto da direção se movimentava junto para facilitar a entrada e a saída.
Para os padrões atuais, parece estranho.
Para os engenheiros daquela época, era uma solução inteligente.

E o motor?
Os primeiros Romi-Isettas brasileiros utilizavam um motor Iso, de dois tempos, com cerca de 236 cm³ e 9,5 cavalos de potência.
Era um motor muito pequeno quando comparado aos motores dos automóveis atuais.
Mas o carro também era extremamente leve.
Por isso, aquela pequena máquina conseguia cumprir sua função de transportar duas pessoas pela cidade.
Em 1959, veio uma importante mudança.
O Romi-Isetta 300 de Luxe passou a utilizar um motor BMW de quatro tempos, com 298 cm³ e 13 cavalos.
O carro recebeu também modificações no acabamento e em vários componentes.
O pequeno carro ajudou a criar empregos
Existe outra parte dessa história que talvez seja ainda mais importante para entender o significado da Romi-Isetta.
Produzir um automóvel não significa apenas fabricar o carro dentro de uma fábrica.
É preciso produzir pneus, bancos, vidros, peças de borracha, componentes elétricos, molas, amortecedores, baterias e muitos outros itens.
Por isso, a fabricação do Romi-Isetta movimentou diversas empresas brasileiras fornecedoras de componentes.
A cadeia envolveu empresas como Pirelli, Blindex e outros fabricantes nacionais.
Ou seja:
um pequeno carro ajudou a movimentar uma rede muito maior de trabalhadores e empresas.
Esse é um dos motivos pelos quais sua história é importante para entender a industrialização brasileira.

Até Juscelino Kubitschek deu uma volta nele!
O Romi-Isetta também entrou na história política e econômica do Brasil daquela época.
Em 2 de fevereiro de 1960, durante a Caravana da Integração Nacional, o presidente Juscelino Kubitschek apareceu em Brasília a bordo de um Romi-Isetta.
A fotografia daquele momento tornou-se uma das imagens marcantes da história do pequeno automóvel.
Era uma imagem que combinava perfeitamente com o espírito daquele período:
um Brasil que queria construir, industrializar e crescer.

Mas por que ele deixou de ser fabricado?
Aqui está uma parte interessante da história.
Apesar de seu pioneirismo, o Romi-Isetta enfrentou dificuldades.
O mercado brasileiro começou a receber outros modelos e a indústria automobilística passou por grandes transformações.
Além disso, as regras estabelecidas para o desenvolvimento da indústria automobilística brasileira não favoreciam um veículo tão pequeno. As exigências relacionadas à capacidade de passageiros e ao número de portas acabaram prejudicando o modelo.
A produção terminou em 13 de abril de 1961.
Estima-se que pouco mais de 3 mil unidades tenham sido fabricadas durante sua trajetória brasileira.
Foram apenas alguns anos de produção.
Mas o impacto histórico durou muito mais.
O pequeno pioneiro não foi esquecido
Normalmente, quando pensamos nos carros que marcaram a indústria automobilística brasileira, lembramos de modelos grandes, famosos e produzidos em enorme quantidade.
A Romi-Isetta seguiu outro caminho.
Ela foi pequena.
Produziu poucas unidades.
Durou pouco tempo.
Mas ocupou um lugar especial na história.
Hoje, exemplares preservados por colecionadores despertam a curiosidade de crianças, jovens e adultos.
Em 2026, justamente no aniversário de 70 anos, exposições e encontros voltaram a colocar o pequeno carro sob os holofotes. A Fundação Romi promoveu exposições com documentos, fotografias, desenhos técnicos e um exemplar histórico do veículo.
É como se o passado tivesse estacionado novamente diante de nós.

A lição que fica
Às vezes, aquilo que parece pequeno aos olhos de alguém pode ser gigantesco quando observado pela história.
O Romi-Isetta tinha apenas dois lugares.
Seu motor era minúsculo.
Seu tamanho impressionava.
E foram fabricadas apenas algumas milhares de unidades.
Mas ele carregava algo que não cabia em sua pequena carroceria:
a coragem de tentar algo novo.
Em 1956, o Brasil ainda estava aprendendo a fabricar seus próprios automóveis.
Uma empresa do interior de São Paulo olhou para um pequeno carro italiano e pensou:
“Podemos fazer isso aqui.”
E fez.
Talvez essa seja uma das maiores lições que o pequeno Romi-Isetta deixou para as novas gerações:
não é preciso começar grande para fazer história.
Às vezes, basta uma boa ideia, disposição para aprender e coragem para colocá-la em movimento.
Porque grandes caminhos podem começar com passos — ou, neste caso, com quatro pequenas rodas.
E assim, aquele curioso “ovo sobre rodas” entrou para a história do Brasil.
Pequeno no tamanho.
Gigante no significado.
Fontes:
www.fundacaoromi.org.br
www.estadao.com.br
www.gazetadopovo.com.br
Crédito das imagens:
www.fundacaoromi.org.br
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