Antes de escolher uma profissão, antes de entrar em uma universidade e muito antes de conquistar o primeiro emprego, todo estudante encontra alguém muito importante pelo caminho:
O professor!
É ele quem ajuda a transformar letras em palavras, palavras em conhecimento e conhecimento em novas possibilidades.
Por isso, quando surgem sinais de que os professores estão insatisfeitos com suas condições de trabalho ou deixando a profissão, a questão não diz respeito somente a quem está diante do quadro.
Diz respeito também a quem está sentado diante dele.
Um levantamento recente da OCDE mostra que o Brasil enfrenta desafios importantes para manter seus professores na carreira e tornar a profissão mais atraente.
E os números merecem nossa atenção.
Pouco mais de quatro em cada dez estão satisfeitos com as condições de trabalho
Segundo um novo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), O Brasil é o terceiro país com menos professores que relatam estar satisfeitos com suas condições de trabalho e o quarto com mais educadores que deixam a docência.
O levantamento, que inclui países membros do grupo, nações que estão em processo de adesão e aquelas que fazem parte do G20, informa que apenas apenas 44,3% dos professores brasileiros dos anos finais do Ensino Fundamental afirmam estar satisfeitos com as condições em que trabalham. Na média dos países e economias participantes da pesquisa, esse percentual chega a 68,4%.
Ou seja: menos da metade dos professores brasileiros entrevistados demonstra satisfação com as condições em que exerce sua profissão.
E há outro número que chama ainda mais atenção.
A remuneração!
Apenas 22,3% dos professores brasileiros dizem estar satisfeitos com o salário que recebem.
Na média da OCDE, são 38,7%.
É uma diferença significativa.
O salário não é o único elemento que determina a qualidade de uma profissão, mas ele faz parte da valorização de qualquer trabalhador.
A própria OCDE destaca que salários competitivos e cargas de trabalho administráveis podem ajudar a tornar a carreira docente mais atraente.
A organização também aponta outros fatores importantes, como autonomia profissional, apoio da direção escolar, boas relações no ambiente de trabalho, oportunidades de desenvolvimento profissional e reconhecimento social.
O professor brasileiro está abandonando a profissão?
Os dados também trazem um sinal de alerta.
Segundo a OCDE, 10,3% dos professores plenamente qualificados do Ensino Fundamental e Médio deixaram a profissão no período considerado pelo relatório, por aposentadoria ou renúncia.
A média dos países e economias da OCDE foi de 6,4%.
Ainda segundo o levantamento, outros 12,3% dos professores de 30 a 49 anos relataram intenção de deixar a profissão nos próximos cinco anos.
Dados que preocupam!
E ainda tem mais:
Em 2024, no Brasil, 89,4% dos educadores afirmaram que precisam lidar “frequentemente” ou “sempre” com a tarefa de acalmar alunos indisciplinados em sala de aula.
Mas existe uma informação que merece ser colocada ao lado desses números:
Mesmo com as dificuldades, muitos ainda amam o que fazem
Apesar dos problemas, 87% dos professores brasileiros afirmam estar satisfeitos com o trabalho de maneira geral.
A média da OCDE é de 89%.
Isso revela algo muito importante.
Uma coisa é estar insatisfeito com determinadas condições de trabalho.
Outra, bem diferente, é não gostar de ser professor.
Os números mostram que muitos educadores continuam encontrando sentido e realização na profissão, mesmo enfrentando dificuldades no cotidiano.
É como se muitos deles estivessem dizendo:
“Eu gosto de ensinar. O que precisa melhorar são as condições para que eu possa ensinar melhor.”
E essa diferença é fundamental.
Uma sala de aula também pode ser um lugar de muito estresse
A pesquisa revela outros desafios.
No Brasil, 20,9% dos professores relatam vivenciar muito estresse no trabalho, percentual próximo da média da OCDE, de 18,8%.
Além disso, 54,4% apontam o excesso de tarefas administrativas como uma fonte considerável ou grande de estresse.
Há ainda a questão da disciplina.
Cerca de 89,4% dos professores brasileiros disseram precisar frequentemente ou sempre chamar a atenção de estudantes que perturbam a aula.
Isso significa que uma parte considerável do tempo que poderia ser dedicada ao ensino acaba sendo utilizada para tentar restabelecer as condições necessárias para que a aula aconteça.
E existe outro desafio: os contratos temporários
A estabilidade também aparece entre os pontos de atenção.
De acordo com o levantamento, aproximadamente 64% dos professores brasileiros possuem contrato permanente, enquanto a média da OCDE é de 81%.
Isso significa que uma parcela significativa dos docentes brasileiros trabalha sob outras formas de contratação.
A OCDE observa que contratos temporários podem estar associados a menor satisfação profissional, menor comprometimento com a carreira e maior risco de saída, especialmente entre professores mais jovens e aqueles que trabalham em ambientes escolares mais desafiadores.
O professor trabalha muito além da sala de aulas
Existe uma imagem antiga de que o trabalho do professor termina quando toca o sinal.
Não termina.
De acordo com o relatório TALIS (Teaching and Learning International Survey) ou (Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem), os professores brasileiros dos anos finais do Ensino Fundamental relatam dedicar, em média, 29,2 horas semanais ao ensino, além de cerca de 9,3 horas ao planejamento e preparação das aulas e 6,1 horas à correção e avaliação de trabalhos.
E ainda existem reuniões, registros, preparação de provas, acompanhamento dos alunos, comunicação com famílias e inúmeras outras tarefas.
Por isso, quando um estudante olha para o professor diante do quadro, está vendo apenas uma pequena parte de todo o trabalho que existe por trás daquela aula.

O problema não é apenas brasileiro
Seria fácil imaginar que essa situação acontece somente por aqui.
Não é!
A própria OCDE afirma que a escassez de professores é uma preocupação presente em grande parte dos sistemas educacionais analisados.
A falta de profissionais pode aparecer de diferentes maneiras: vagas não preenchidas, contratação de pessoas que ainda não atendem a todos os requisitos de qualificação, dificuldade de substituir professores afastados e falta de profissionais em determinadas disciplinas ou regiões.
Matemática e Ciências, por exemplo, aparecem entre as áreas em que diversos países enfrentam dificuldades de recrutamento.
O envelhecimento da força de trabalho docente também preocupa. Em muitos lugares, será necessário substituir professores que deixarão a profissão nos próximos anos.
E o que acontece quando faltam professores?
Quando uma escola não consegue atrair ou manter bons profissionais, o problema não termina na sala dos professores.
Ele pode chegar até o estudante.
Uma escola precisa de professores preparados, presentes e motivados para garantir continuidade ao processo de aprendizagem.
Por isso, a OCDE afirma que enfrentar a escassez de professores não significa apenas contratar mais pessoas. É necessário também manter os profissionais que já estão na carreira e criar condições para que novos professores queiram entrar e permanecer nela.
Isso envolve formação, apoio, boas condições de trabalho, reconhecimento profissional e remuneração adequada.
Valorizar o professor é investir no futuro
Existe uma verdade simples que às vezes esquecemos:
Nenhum médico, engenheiro, cientista, jornalista, advogado, programador ou profissional de qualquer outra área chega ao mercado de trabalho sem ter passado pelas mãos de professores.
Antes de ensinar uma profissão, o professor ensina a ler.
Ensina a escrever.
Ensina a fazer perguntas.
Ensina a procurar respostas.
Ensina a pensar.
E, muitas vezes, é justamente o professor quem percebe uma capacidade que o próprio estudante ainda não descobriu.
Uma palavra dita na hora certa pode despertar uma vocação.
Um incentivo pode impedir que um aluno desista.
Uma aula pode abrir uma janela para um mundo que aquele jovem jamais imaginou conhecer.
O Brasil e as eleições
O Brasil se aproxima das eleições de 2026, quando os eleitores escolherão, entre outros cargos, o próximo presidente da República e os governadores dos estados.
Nesse momento, a educação e a valorização dos professores devem ser observadas pelos cidadãos nas propostas apresentadas pelos candidatos.
Salários, carreira, formação continuada, condições de trabalho, segurança nas escolas, redução da burocracia e apoio aos profissionais são alguns dos temas que devem parte desse debate.
O Brasil possui, inclusive, um piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica, atualmente regulamentado pela Lei nº 15.437/2026.
Mas uma política educacional não se resume a estabelecer um piso.
É preciso olhar para a carreira como um todo.
A lição que fica
Um professor entrega ao estudante algo que não diminui quando é dividido.
Conhecimento!
Quanto mais conhecimento ele compartilha, mais pessoas podem carregá-lo para a vida.
Por isso, quando um professor entra em uma sala de aula, não está apenas diante de uma turma.
Está diante de futuros pais e mães, profissionais, pesquisadores, artistas, empresários, trabalhadores, cientistas, cidadãos e, quem sabe, diante de alguém que um dia ajudará a transformar o próprio país.
O professor não constrói apenas uma aula.
Ajuda a construir pessoas.
E um país que deseja um futuro melhor precisa cuidar de quem ajuda a preparar esse futuro todos os dias.
Que os próximos governantes, qualquer que seja sua corrente política, olhem para a educação com a seriedade que ela merece e considerem, entre as prioridades das políticas públicas, a valorização efetiva dos professores — inclusive com remuneração compatível com a importância e a responsabilidade de sua missão.
Porque nenhum quadro-negro consegue mostrar tudo aquilo que acontece depois de uma boa aula.
Às vezes, uma explicação dada hoje só revela seu verdadeiro resultado muitos anos depois.
Quando aquele estudante consegue seu primeiro emprego.
Quando entra na universidade.
Quando cria uma invenção.
Quando escreve um livro.
Quando educa seus próprios filhos.
Ou simplesmente quando se torna uma pessoa capaz de pensar, escolher e transformar sua própria história.
Professor não entrega apenas conhecimento.
Entrega possibilidades.
E talvez seja justamente por isso que valorizar quem ensina seja uma das formas mais bonitas de acreditar no amanhã.
Fontes:
www.oecd.org
www.oglobo.globo.com
www.cnnbrasil.com.br
Crédito das imagens:
(01, 02) www.chatgpt.com/dall-e
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